Festival de jazz deu o tom em Garanhuns

Agreste // Pelo segundo ano consecutivo, a cidade das flores é palco de um carnaval marcado por uma diversidade sonora que não toca nas rádios

Paulo Rebêlo (texto/fotos)
Diario de Pernambuco
26.fevereiro.2009

Quando a Banda de Pífanos de Garanhuns subiu ao palco no centro desta cidade a 230 km do Recife, as duas mil pessoas presentes na praça Guadalajara talvez soubessem o que vinha pela frente. Ainda era o primeiro dia do Garanhuns Jazz Festival, realizado pelo segundo ano consecutivo, exatamente durante os três dias de carnaval no principal ponto de encontro da cidade das flores.

Minutos depois, contudo, Carlos Malta aparece do nada e se junta aos pifeiros de Garanhuns. Músico dos sopros e conhecido como “escultor dos ventos”, o multinstrumentista carioca parecia carregar um objetivo não-declarado: mostrar às pessoas que, daquele ponto em diante, pelos próximos três dias, a palavra de ordem seria diversidade.

Do sábado à segunda-feira, uma grande mistura de ritmos, culturas e tons. Diversidade que não se escuta nas emissoras de rádio e nem sempre se encontram CDs, mesmo nas principais lojas do gênero. Vantagem extra para quem aproveitou e comprou osdiscos de algumas bandas e músicos os quais, dificilmente, terão oportunidade de encontrar novamente. Resta a internet.

Garanhuns Jazz Festival 2009

Não é de hoje que jazz é o que menos se escuta em festival de jazz. As atrações são, em sua maioria, representantes de blues e todas suas variações, passando pelo rock instrumental. Além das guitarras, é comum o acompanhamento de saxofones, tubas, clarinetes e outros instrumentos mais relacionados às orquestras – ao menos para quem não conhece ou não se acostuma ao jazz tradicional. Em suma, os festivais de jazz se transformam em mostras de quase tudo instrumental que não é tão popular.

Neste ponto, o Garanhuns Jazz Festival não é diferente. Três entre os melhores shows do evento – do angolano Nuno Mindelis, do americano James Wheeler e dos paulistas da Igor Prado Band – são exemplos clássicos de um blues roqueiro que não deixa ninguém parado. O mesmo vale para a banda Nuages, do Equador, com um típico jazz estiloso e bem diferente, bebendo na fonte do guitarrista belga Django Reinhardt (elepróprio um cigano), com pegadas que incluem até mesmo músicas do folclore russo.

A exemplo do que ocorreu na apresentação durante o Rec-Beat, no Recife, os equatorianos do Nuages saíram bastante aplaudidos, sobretudo pela performance teatral de Jimmy Paez, que várias vezes jogou sua tuba para o ar e arriscou acrobacias no palco. Um contraste, se comparado ao introvertido companheiro de banda, o guitarrista David Bonilla; mas ao mesmo tempo previsível, diante da satisfação declarada de Bonilla, em conversa com o Diario antes do festival, sobre esta primeira visita ao Brasil. E, justamente, em Garanhuns. Agora, prometem voltar sempre.

Por outro lado, o Garanhuns Jazz supera festivais do gênero por não cair em tentação (ao menos por enquanto) e ceder espaço para músicos “populares” com o único propósito de atrair mais gente. Brasil afora, é comum ver artistas do porte de Gilberto Gil, Lulu Santos, Sandra de Sá, entre outros, nos chamados “festivais de jazz”. Para os amantes do jazz, trata-se de um disparate. Similar ao sentimento dos carnavalescos ao imaginar a Banda Calypso tocando frevo no carnaval do Recife.

O jazz propriamente dito, quando apresentado, ocorre em ritmo mais acelerado, umas espécies de jam sessions com outros ritmos. Quem apresenta um pouco desse viés mais contemporâneo do jazz, com maestria, são os rapazes da Garanhuns Street Jazz Band, com apenas um ano de estrada – embora todos sejam exímios músicos de orquestra há bastante tempo. Ao dividirem o palco com o saxofonista carioca Marcelo Martins, um dos melhores do Brasil, se aproximaram um pouco mais do jazz genuíno.

Espaço para experimentações

As três noites do Garanhuns Jazz Festival foram mesmo do blues e das experimentações. Blues clássicos pela gaita de Robson Fernandes em conjunto com o paulista Lancaster, pela Uptown Band com a voz eletrizante de Andréa Amorim, pelo virtuosismo da Blue Jeans (SP) e o pioneirismo dos pernambucanos da The Bluz.

O quarteto americano da Clay Ross Band repetiu o tom das apresentações realizadas no Recife, com ritmos de raiz como bebop e bluegrass, além de curiosos “forró com jazz” e “baião com jazz”. Só tiveram o azar de serem sucedidos por Nuno Mindelis. Faltou pouco para Mindelis ficar preso no palco pela platéia, que não queria deixá-lo ir embora.

Verdadeiro showman, o angolano que mora no Brasil desde o final dos anos 70 fez o dever de casa. Mindelis desceu do palco e circulou por toda a praça Guadalajara com sua guitarra insaciável. Foi todo elogios, merecidos, ao baixista Rodrigo Mantovani, que o acompanhou durante a apresentação. Discreto e em segundo plano, Mantovani foi um dos principais destaques. Sobratalento deste contrabaixo acústico da Igor Prado Band, a maior revelação do festival, com direito até mesmo a releituras de Los Lobos.

O próprio Igor Prado é uma curiosidade por si só. Autodidata, começou a tocar blues aos 11 anos. Aos 16, apresentava-se em bares e festivais com liminar da Justiça por causa da pouca idade. Canhoto, aprendeu a tocar a guitarra de destro de cabeça para baixo e hoje toca com as cordas invertidas do instrumento. O resultado, impossível de descrever. Só ouvindo para crer. A guitarra de Igor não segue sozinha. Além da bateria do irmão Yuri Prado, quem dá um show à parte é Denilson Martins, o saxofonista barítono da banda.

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