Ventos alísios de janeiro

Paulo Rebêlo | janeiro.2009

O mais difícil de janeiro é a balança. É quando você tenta descobrir o peso das pessoas que passaram pela sua vida, das que ficaram e, principalmente, das que voltaram.

Feita a pesagem, vem o pêndulo de um relógio de parede. Ele pende para um lado, lembrando as pessoas que você machucou um dia; e depois para outro, revivendo as que magoaram você.

Quem lhe magoou sempre acha que foi apenas mais um. E quem foi magoado, nunca acha que o outro possa ter passado pelo mesmo na vida. Diabos que o pêndulo nunca pára no meio, por mais que você olhe pelo retrovisor e tente esquecer o que deixou para trás.

Porque os ventos insistem em trazer de volta. Nem sempre em momentos oportunos. É como uma garrafa vazia, um cinzeiro apagado.

Talvez um sono acordado.

Quando você acha ter encontrado um peso relativamente ideal para diminuir a ação do tempo e do pêndulo, uma ventania fora de hora leva todo seu castelo de cartas. Tantos anos para erguê-lo e isolá-lo de sentimentos menores. Tanto por uma fortaleza que é de areia.

Sem avisar e sem se importar com o sol que se abriu. Uma única curva, um único estrago, um singular erro ou sonoro beijo. Aquela pequena flor que desabrochou, levou-se embora do mesmo jeito que chegou. Num sopro.

Entre pólos

Lá fora, sequer uma folha de árvore se mexe. Mas por causa destes ventos alísios, a gente confia em uma balança cega, com medo do próximo sopro. E quando aqueles que foram embora retornam, não sabemos para onde remar. E muito menos para onde olhar.

Eis um novo jardim, logo ali, do seu lado, há tanto despercebido.

Como se uma pequena flor entre tantos espinhos pudesse se transformar no mar para a nossa canoa. Mas nenhuma embarcação vai para a frente com tempo ruim.

Venda seus móveis, livros, discos. Lembre-se de que houve tempos em que tinha tudo mesmo sem ter nada. O pêndulo não cessou, nem assim, outrossim.

Para cada giro do ponteiro, uma conta. Quem foi, quem voltou. Quem chegou e não quis ficar. Quase como uma sombra vazia, uma luz inquieta. E você começa a desconfiar se o seu relógio de parede não está mais perdido do que filho de quenga no Dia dos Pais.

Porque se é mesmo verdade que o tempo tem asas, nós não temos é nada.

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