Maravilhas da lei seca

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Paulo Rebêlo | julho.2008 | email

Bezerra não é da Silva, mas está feliz da vida. Sua pequena barraca com cerveja quente e espetinho de rato – porque gato é luxo – nunca foi tão requisitada.

Outrora reduto dos papudinhos crentes no santo fiado e nos condenados que precisam esperar o bacurau na parada de ônibus, a barraca do velho Bezerra hoje agrega almas diversas. Do mais alma sebosa ao doutor que estudou em Harvard, passando pela patricinha de subúrbio à espera das amigas no táxi e pela pseudo-socialite que leu na revista que espetinho de rua é ‘tudo de bom’.

Se a gente não pode beber e também não pode cumprir a lei seca, porque até a kronenbier tem uma fração mínima de álcool cujo teor é detectado pelo bafômetro, resta apenas atravessar a rua ou andar até a esquina para as barracas que ninguém nunca vai. De tão perto de casa, você nunca viu muita graça.

O difícil é reunir os amigos que moram em outros bairros. Então o jeito é fazer as novas amizades com o universo em desencanto que consegue tomar cerveja quente sem reclamar e mastigar duzentas e trinta vezes um pedaço de carne. O raio de Tim Maia que os parta!

É a revolta da burguesia sedenta por cervejas geladas e uísque com gelo. Porque com Bezerra, uísque é caubói e só Natu Nobilis. Pelo menos é bocão, porque “dosador é coisa de viado”.

As duas pequenas mesas se transformaram em cinco; e terminam se tornando quase um centro espírita, com todos sentados olhando para os outros, em círculo, com a monotemática e previsível conversa: a lei seca.

Para onde esse mundo vai, meu deus, querendo que bêbado não dirija? Daqui a pouco vão querer que a gente tenha carteira de vacina atualizada, pague imposto e recolha o lixo da cozinha todo dia. Acho que nem mais Jesus salva.

A golada perfeita
Os intelectuais reclamam dos bares, restaurantes e fabricantes de cerveja. Dizem que todos estão fazendo lobby pesado contra a lei seca, pois supostamente ficam no prejuízo.

Oh, os intelectuais, sempre eles. Sóbrios demais ou boêmios de menos, não entendem que a jogada é completamente diferente. A reclamação dos bares é puro conto da carochinha, conversa para bêbado dormir.

Nenhum papudinho que se preze compra cerveja sem álcool. E hoje, pessoas que você tanto estimava já falam “tem o mesmo gosto” ou “não dá para sentir tanta diferença”. São todos uns ateus. Além de comprarem cerveja em dobro para beber em casa, agora vão às ruas tomar esses refrigerantes com aroma artificial de cerveja. Pai, perdoa-os, eles não sabem o que bebem.

Não sei quando o Detran irá intervir no comportamento dos pedestres, mas espero que seja logo. Os bêbados emergentes, estes que agora somente atravessam a rua em vez de pegar o Fuscão e ir beber com os amigos, se tornaram um perigo para os sóbrios incautos que passam de carro perto da barraca do Bezerra.

Trôpegos, não olham para os dois lados da rua e, em sete noites, já contei dois atropelados pela perna esquerda, um pelo bueiro aberto no meio da rua e três pelos ciclistas alcoolizados que vez por outra passam por aqui. Disseram que ciclista não precisa soprar no bafômetro, abrindo um totalmente novo leque de possibilidades etílicas. Totalmente total. É bom que emagrece. Já conheço dois que estão perdendo peso. Debaixo da terra.

Se eu fosse cristão, estaria feliz por Bezerra. Ganhando mais dinheiro, tornando-se popular, certamente vai reservar uma parte da fatura para cachaça e outra parte para entupir a esposa de carne nerventa, já que ela toda semana reclama que falta dinheiro para comprar carne para os meninos, que de barriga só tem verme.

Mas, como essa história de cristão é bóia, porque os padres não vão parar de tomar vinho Dom Bosco na hora da consagração, tô mais é torcendo que Bezerra exploda. A esta altura do campeonato, com a lei seca ganhando, a cerveja continua vindo quente e a farinha para colocar no espetinho sempre “já acabou” depois das 22h, quando é o horário que os OO (operário-otário) conseguem chegar para tomar aquela gelada. No caso, aquela quente.

Bezerra é o retrato do empresário brasileiro. Não tem visão (é cego do olho direito), não enxerga as oportunidades que passam debaixo do nariz com a lei seca. Poderia alugar um frigobar em vez daquele isopor, arrumar uma grelha para vender galetinho, botar uma focinheira na esposa e colocá-la para preparar uns petiscos. Tá, tá bom, ao menos um vinagrete?

Vamos esquecer tudo isso, talvez esteja sendo luxento em demasia ao exigir cerveja gelada ou pelo menos um Teacher’s, porque, sinceramente, Natu Nobilis eu não tenho coragem de servir nem para mulher gorda.

Tá bom, joguemos tudo para o alto, mas pelo menos uma flanela suja, uma toalha-papel usada que seja, qualquer coisa para enxugar esta mesa. Porque do jeito que está eu não consigo escrever estas parcas linhas no meu bloquinho, tudo molhado. E daqui a umas quatro horas, quando até a cerveja quente acabar, quando eu me tornar o próximo pedestre pronto para ser atropelado por um motorista sóbrio, não vou lembrar de mais nada ao abrir os olhos. Aqui ou no céu.

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1 comment

  1. Os intelectuais brasileiros são estes reclamés acéfalos; felizmente abandonei a Unisinos, e me salvei de me transformar em um!

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