De reis profanos e folclores religiosos

Dança de origem portuguesa, o reisado ganhou destaque no 4º Encontro Mestres do Mundo realizado no interior do Ceará

Paulo Rebêlo (texto e fotos)
Diario de Pernambuco
08.dez.2008

Crato (CE) – Fendas e rachaduras no solo são vistas em toda parte, a começar pelo pouso no minúsculo aeroporto em Juazeiro do Norte, a 600 km de Fortaleza e 700 km do Recife. O mormaço de fritar ovo em chão só dá uma trégua quando o sol se põe. Depois, o ônibus chega no bairro de Vila Lobo, 20 km adiante, na periferia do Crato. Tudo escuro, mas há um barulho diferente na Rua Antônio Gonzaga de Melo.

A festa vem da residência de número 202, não por coincidência a casa de José Aldenir Aguiar, mestre do reisado no Crato. Ele é um dos primeiros mestres de cultura popular diplomados pelo governo cearense, ainda em 2004. É difícil achar Mestre Aldenir no meio daquele mundo de crianças coloridas e pulantes, devidamente caracterizadas e em perfeita sincronia com a voz do mestre e com o som oriundo de duas caixas velhas e surradas. Aldenir mal se mexe. Quando solta a voz, canta que é uma beleza.

O reisado é uma dança profano-religiosa, de origem portuguesa, para festejar a véspera e o Dia de Reis. A tradição diz que entre 24 de dezembro a 6 de janeiro, músicos, cantores e dançarinos vão de porta em porta e anunciam a chegada do Messias, fazendo louvações por onde passam. Hoje, o reisado ocorre em qualquer época do ano e envolve diversas temáticas folclóricas e profanas.

Aos 74 anos, Mestre Aldenir atualmente ensina a quarta geração de reisado, representada por aquelas crianças. E embora o tema religioso não se perca, parecem diabinhos amarelos quando recebem as longas espadas para a coreografia quase marcial da dança. E pulam, cantam forte, batem as espadas umas nas outras sem errar – para espanto e alegria dos convidados ao Barracão do Folclore. É como se chama a tenda anexada à residência do mestre. “É da criança que a gente faz o adulto”, profetiza.

Com olhar tranqüilo e meio vago, ele recebe os quase 100 convidados durante uma das noites do 4º Encontro Mestres do Mundo, organizado pelo Ministério da Cultura e pelo Governo do Ceará entre os dias 2 e 6 de dezembro. De Afonso Furtado, presidente da Federação Fluminense de Reisado, recebe uma faixa de homenagem, enquanto ouve o discurso de praxe e as apresentações formais.

Passada a discursiva, o microfone volta às mãos do mestre e as crianças voltam a pular enlouquecidamente. Só acabam quando alguém anuncia ter chegado a hora do mungunzá. Diferente do costume em Pernambuco, no Cariri cearense a tradição é o mungunzá salgado. Além do milho e do caldo, leva feijão, carne de charque, lingüiça defumada e piqui. Tudo junto. A fila é grande. A panela, maior ainda.

Mestre Aldenir esperava mais gente naquela noite. Os convidados de fora estavam lá, mas parte dos grupos de reisado resolveram não prestigiar a festa. Há poucos meses, Aldenir separou-se da esposa de uma vida inteira para morar com uma mulher mais nova, de idade não revelada. De acordo com os vizinhos, a insatisfação foi tão grande que houve dissidências nos antigos membros do reisado, que chegaram até a formar um novo grupo. Mestre Aldenir desconversa e pede o microfone de novo. Incansável.
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O repórter viajou a convite do 4º Encontro Mestres do Mundo

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