Arte da memória

Mestres da cultura popular se reunem em três cidades cearenses para trocas de experiências e apresentações individuais e coletivas

Paulo Rebêlo (texto e fotos)
Diario de Pernambuco
06.dezembro.2008

Juazeiro do Norte (CE) – Quente, tranqüila e silenciosa como sempre, Juazeiro parece não dar atenção à efervescência de cultura popular aqui presente. Desde o dia 2 de dezembro, o Cariri cearense recebe o 4º Encontro Mestres do Mundo, dividido entre as cidades vizinhas do Crato e de Barbalha, a 600 km da capital Fortaleza.

Até este domingo, mestres populares das mais variadas artes e lugares participam de apresentações individuais ou coletivas, rodas de debate e palestras no Memorial Padre Cícero, em paralelo ao 3º Seminário Nacional de Culturas Populares. Os eventos são promovidos pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria de Cultura do Ceará.

A noite de abertura, na última terça-feira, teve como destaque a apresentação dos maracatus pernambucanos Leão Coroado e Estrela de Ouro de Aliança, ambos levados pela Fundarpe. Os grupos retornaram a Pernambuco no dia seguinte. Com participantes convidados de todo o Brasil, o encontro manteve uma extensa programação diária. Pela manhã, no Crato, a “roda de mestres” era a oportunidade deles mostrarem sua arte ao vivo, seja cantando, retalhando, dançando ou declamando poesias.

À tarde, os mestres participaram de debates no Seminário, em Juazeiro, com a presença de estudantes e acadêmicos. A surpresa maior, contudo, é reservada para a noite. Mestres locais do Cariri abrem a própria casa para receber os visitantes, chamam família, amigos e pupilos para a festa que prossegue até o fim de noite. E mostram a razão de ostentarem na parede o diploma concedido pelo governo estadual de Tesouros Vivos da Cultura – em outros estados, o nome do título pode variar.

Apesar de o nome ser Mestres do Mundo, nenhum mestre fora do Brasil chegou a Juazeiro, oficialmente por “problemas com as passagens aéreas”. Embora seja uma das cidades mais importantes da região e um dos maiores centros de religiosidade da América Latina, a produção do evento pecou na divulgação interna e, em partes, na própria organização de suporte aos mestres convidados.

Com idades já avançadas, boa parte deles reclamam, reservadamente, da infra-estrutura disponível. Confusões e carências com transporte e hospedagem também prejudicaram a imagem do encontro para os convidados de fora. Na quinta-feira, um dos mestres passou mal durante as atividades diurnas e não havia transporte. Ele foi até o hospital no táxi de um grupo de jornalistas cearenses que acabara de chegar.

Na quarta, um dos mestres mais conhecidos do Cariri, Mestre Correinha, 68, faleceu – vítima de câncer de próstata. Correinha não era diplomado como “mestre” pelo programa governamental, porém, no Cariri era mais conhecido do que muitos dos diplomados. O velório transformou-se em uma grande homenagem com a participação de vários outros mestres, mas não havia nenhum representante do evento ou do governo. No dia seguinte, nenhuma palavra foi dita durante a programação.

No Ceará, o programa começou em 2005 e já diplomou 57 mestres populares (quatro já faleceram) com ajuda de custo não inferior aum salário mínimo. São grupos de reisado, xilógrafos, cordelistas, rezadeiras, artesãos de couro, dramistas, representantes de atividades indígenas e mateiros – que fazem manipulação de raízes, folhas e cascas de frutas para produção de xaropes e chás medicinais.

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