A morte que calou Cabrobó

Sertão // Prefeituráveis suspenderam até este domingo as atividades da campanha após assassinato de índio candidato a vereador

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco // 31.agosto.2008

Cabrobó – Mistura de respeito e medo, o silêncio corre nas ruas deste município a 600 quilômetros do Recife, no Sertão do São Francisco. Nesta sexta-feira, foi celebrada a missa de sétimo dia do índio truká Mozeni Araújo, 37 anos, uma das principais lideranças políticas da cidade. Candidato a vereador pelo PT, ele foi morto com tiros à queima-roupa em plena luz do dia, há uma semana, em frente ao seu comitê de campanha. Poucos duvidam que não fosse eleito com facilidade.

Em respeito à família de Mozeni, os dois candidatos à prefeitura de Cabrobó, o atual prefeito Eudes Caldas (PTB) e o médico Auricélio Menezes Torres (PSB), garantem ter suspendido as atividades de campanha até o início desta semana. Sobre o crime, contudo, preferem não opinar e deixar que a “polícia e a Justiça cheguem aos culpados e aos motivos reais”.

A posição defensiva da população é reflexo não apenas das versões conflitantes sobre o assassinato, mas, sobretudo, pelo longo histórico de violência pela qual Cabrobó tornou-se conhecida nacionalmente. Nos últimos anos, porém, o município havia saído dos holofotes sobre tráfico de drogas e crimes por encomenda, embora a situação não seja exatamente tranqüila como os políticos dizem, segundo agentes da Polícia Rodoviária Federal consultados pelo Diario.

Os trukás representam a principal força-motriz da economia de Cabrobó. São os maiores produtores de cebola de Pernambuco, também têm grandes áreas com plantações de arroz. Apesar da reconhecida influência, uma eventual eleição de Mozeni Araújo iria representar um feito ainda inédito: a primeira vez de um truká eleito pelo voto para ocupar uma cadeira na Câmara Municipal. Até hoje, eles fizeram parte apenas da suplência de vereadores, atuando por pouco tempo.

Mozeni Araújo chegou a ser suplente do atual prefeito Eudes Caldas, em 1996, durante um dos seus quatro mandatos de vereador antes de ser eleito chefe do executivo. “Era meu amigo pessoal, não somente um aliado. Não acredito em crime político, como dizem os boatos, mas não cabe a mim esse julgamento. Agora vamos analisar a legislação e tentar substituir a vaga”, antecipa.

O principal candidato para ocupar o posto de Mozeni é Aurivan dos Santos, o cacique Neguinho, outra liderança das mais conhecidas dos trukás. A viúva de Mozani prefere ficar de fora das negociações, pois ela e os filhos participavam ativamente da campanha. Além da esposa, Mozeni deixou três filhos de 16, 15 e 14 anos.

Apoio – Em termos de campanha, os trukás e o atual prefeito Eudes Caldas parecem bem pragmáticos. Eles contam, para os próximos dias, com a presença do Secretário das Cidades, Humberto Costa; e do deputado federal Inocêncio. “A relação com o governo estadual é ótima e tivemos sorte de receber bastante recursos da União”, comemora o prefeito. Por conta dos projetos da Transposição do Rio São Francisco, Cabrobó tem recebido mais verbas para desenvolvimento urbano e saneamento básico, entre outros benefícios.

Desencontros sobre autoria do crime

Crime político, morte por encomenda, atentado a mando de fazendeiros e desavenças pessoais. São muitas as versões para o assassinato do índio truká Mozeni Araújo. O autor dos disparos à queima-roupa, Maurício Ricardo Alexandre Silva, foi preso logo após o crime. À polícia, afirmou ter atirado por vingança, por causa de uma briga há quase dez anos.

No dia seguinte ao homicídio, a polícia trabalhava com a tese de crime de pistolagem. De acordo com o relatório policial, os disparos foram por volta de 17h e, antes, o acusado teria ido ao comitê de Mozeni, onde conversaram por cinco minutos. Ainda era claro e o local estava cheio de gente. Ainda segundo a polícia, não houve chance de defesa – ao cair no chão após o primeiro disparo, o acusado descarregou a pistola com tiros no rosto e fugiu. O acusado era conhecido na cidade. “Era um pé-rapado, não tinha dinheiro para nada, de repente aparece com uma arma novinha e carregada?”, questiona uma colega de Mozeni, na Ilha de Assunção, território dos trukás.

Em julho, asecretária Eliane Elionete dos Santos, 31, foi encontrada morta dentro de uma escola, com perfurações de bala e uma faca cravada no rosto. No início de agosto, o agricultor Antônio José dos Santos, 59, matou com golpes de enxada a esposa, Poliana Maria Torres, 24, e seus dois filhos pequenos, de 3 e 6 anos. Nos dois casos, os acusados foram presos pela polícia.

O candidato a prefeito Auricélio Torres (PSB) não acredita em crime político, mas não arrisca palpites. Após uma conversa com a equipe de reportagem, dois militantes do candidato se aproximaram, já em outra rua, também para refutar a conotação política. “O partido deles não diz que Mozeni sofreu outro atentado, há seis meses, e escapou por pouco”, disse um dos militantes, em reserva. A viúva de Mozeni garantiu não conhecer nenhum inimigo do marido. “Querem calar as lideranças dos trukás, não é a primeira vez que isso acontece”, disse, referindo-se ao assassinato do capitão da aldeia, Adeilson, e seu filho, em 2005.

Apoio dos trukás é decisivo

De acordo com o prefeito Eudes Caldas (PTB), em Cabrobó é de 96% o índice de aprovação do governo Lula. Não à toa, sua campanha usa como pode a vinculação à imagem do presidente. O mesmo otimismo não tem seu adversário,o Auricélio Menezes Torres (PSB), que disputa um cargo majoritário desde 1988.

Filiado ao PSB desde 2005, Auricélio é enfático ao falar da falta de apoio do governo estadual e do partido em sua campanha. “Eduardo Campos já me disse, mais de uma vez, que eu sou o candidato dele, mas na prática é diferente”, alfineta. “O apoio verbal não reverte em apoio de fato na minha campanha. Sou aliado, mas os benefícios só chegam para o lado do prefeito”, reclama.

As pesquisas internas do socialista, garante, mostram um empate técnico entre ele e Eudes Caldas. Assessores de Eudes, contudo, rebatem dizendo que a intenção de voto para o petebista é bem maior, sem revelar números. O apoio dos índios trukás também é fruto de divisões. As lideranças mais conhecidas apóiam Eudes Caldas, embora parte da aldeia tenha se aliado a Auricélio, com direito a outro truká candidato a vereador, Demar Gavião, pelo PSDB.

Eudes e Auricélio concordam em um ponto: não há como governar sem o apoio dos trukás, seja por conta da força econômica ou da influência que adquiriram em Pernambuco.

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