Os problemas do cidadão recifense

Desafios // Pesquisa da Fafire mostra que saúde e segurança preocupam mais a população

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco – 03.agosto.2008

Todo candidato garante conhecer os problemas e anseios da população. Em certas ocasiões, beiram a soberba. Os números e pesquisas pelos quais costumam gerar seus planos de governo, contudo, raramente são publicados. A fim de tentar preencher uma lacuna informativa sobre os desafios para os próximos prefeitos da Região Metropolitana do Recife (RMR), o Grupo de Estudos do Macroambiente Empresarial de Pernambuco (Gemepe), ligado à Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire), acaba de divulgar um amplo levantamento sobre a percepção dos habitantes e suas principais dificuldades como cidadãos.

Em números absolutos, saúde (26%) é o tema mais recorrente, de acordo com o levantamento do Gemepe. Em segundo lugar, vem segurança (13,19%), seguido de pavimentação (12,12%), educação (9,98%), saneamento básico (9,45%), limpeza urbana (2,85%), habitação (2,67%) e projetos sociais (2,32%). Há outras variáveis, com menos de 2% de indicação cada. O recheio deste bolo estatístico, porém, reside nos detalhes.

O maior diferencial da pesquisa da Fafire é o desmembramento, por classe social, dos projetos considerados prioritários para as pessoas. Os números minimizam parte do discurso político durante a campanha e corroboram teses e estudos empíricos sobre os problemas mais conhecidos. Parcela destes obstáculos, inclusive, tem sido abordada em detalhes pela série do Diario sobre os Desafios do Recife, todo domingo, desde o dia 7 de julho, porém sem o embasamento estatístico apresentado agora pelo Gemepe/Fafire. Em contrapartida, especialistas, técnicos e gestores públicos são convidados a apresentar soluções e discutir os principais desafios para o próximo governo municipal.

Quem integra a classe A, cuja renda familiar é superior a R$ 7,6 mil, dá bem mais prioridade à segurança (29,6%) a qualquer outro tema, seguido por limpeza urbana (14,8%). Outros fatores, como educação, projetos sociais e trânsito, aparecem com percentual bastante inferior (7,41%). Trata-se de realidade bem diferente das classes sociais inferiores, que clamam por mais pavimentação (sobretudo em Olinda e Jaboatão), educação e saúde.

Apenas a classe B, de renda familiar entre R$ 2,1 mil e R$ 7,6 mil, segue mais regular nos anseios, com destaque significativo para educação (19,05%) e percentual idêntico para segurança e saúde (17,46%), além de pavimentação (14,29%) e saneamento básico (12,7%). As classes C, D e E – mais de 80% da população da RMR – elegeram a saúde como prioridade (31,69%, 25,76% e 25,56%) e o item segurança sequer chegou a se destacar entre as classes D e E. Para eles, bem mais importante são saneamento básico, educação, pavimentação e geração de empregos.

A metodologia da pesquisa do Gemepe/Fafire inclui entrevistas diretas, com 565 pessoas residentes na RMR, de 16 anos ou mais. Os resultados são a partir de resposta espontânea e única sobre os grandes problemas que incomodam as cidades, sob a ótica de seus residentes.

Inversão de prioridades

Ao comparar as quatro principais cidades da Região Metropolitana do Recife (RMR), há resultado similar no quesito segurança (18,80%) e saúde (18,42%), além de saneamento básico (11,65%) e geração de empregos (10,53%). Em Jaboatão, a carência mais recorrente foi pavimentação (25%), seguido por saúde (21,74%), saneamento (13,04%) e geração de empregos (9,78%). Em Olinda, o maior destaque também foi a pavimentação (24,19%), enquanto a saúde ficou com 20,97%. Segurança e educação registraram a mesma incidência (14,52%). No município de Paulista, três projetos foram destacados, dentre eles a saúde, que recebeu uma expressiva indicação (57,5%), seguidas pela pavimentação (20%) e educação (12,5%).

As entrevistas foram distribuídas entre os municípios, com quotas proporcionais ao número de moradores conforme os levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No caso específico do Recife, respeitou-se também a proporcionalidade das populações distribuídas nas Regiões Político-Administrativa (RPA), segundo o responsável técnico pela pesquisa e coordenador do Gemepe/Fafire, Uranilson Carvalho. Até final de agosto, a segunda etapa da pesquisa incluirá os principais projetos destacados na opinião popular para a gestão dos futuros prefeitos da RMR por sexo, faixa etária, escolaridade e ocupação.

Desigualdade entre classes e cidades

Os meandros da pesquisa com os principais problemas da Região Metropolitana do Recife (RMR), divulgada agora pelo Gemepe/Fafire, representam mais um indicativo da elevada desigualdade de renda e disparate social entre os municípios vizinhos.

Comprova, em números absolutos e relativos, o norte pelo qual a série dominical do Diario “Desafios do Recife” surgiu, desde 7 de julho: entra prefeito e sai prefeito, as carências estruturais permanecem e as prioridades para a população de baixa renda – 80% de toda a RMR – continuam iguais a cada nova gestão.

O quesito segurança pública é curioso. Domina boa parte das promessas políticas dos candidatos a prefeito, ao mesmo tempo em que figura no primeiro lugar no ranking das prioridades para a classe A da população, com renda familiar superior a R$ 7,6 mil. Não é à toa. Em todos os levantamentos recentes, inclusive do próprio Ministério da Justiça, o Recife é considerado a capital mais violenta do país e a nona cidade com o maior índice de homicídios do Brasil. Uma funesta escala crescente, a cada ano. Embora faça parte das preocupações de outras classes sociais, não é a mais solicitada.

Pavimentação também é uma variável peculiar. Em recorrentes entrevistas e pesquisas, a população de bairros periféricos – sobretudo de Olinda, Jaboatão e Paulista – clamam pelo mínimo: ruas asfaltadas ou em condições aceitáveis para que o transporte público possa circular. Ao procurar nas bases de dados das prefeituras, é comum encontrar a mesma rua classificada como “pavimentada” ou “asfaltada”, mas uma simples visita revela exatamente o oposto: nada foi feito e os buracos se transformam em crateras.

Todos os profissionais ouvidos pelo Diario, nos últimos três meses sobre os piores desafios da cidade, convergem em direção à falta de uma melhor gestão pública e prioridades políticas. Cada desafio engloba uma série de problemas relacionados, mas ao visualizar os gargalos como uma peça única, em conjunto, a conclusão é óbvia: todos estão interligados.

Do ponto de vista econômico, gerenciar umacidade como o Recife tornou-se ainda mais complexo agora, indo além das carências básicas e amplamente conhecidas. Com a série de investimentos que Pernambuco passou a receber nos últimos anos, aliada à atual conjuntura econômica da RMR com as obras no Porto de Suape, é preciso planejar um futuro bem mais abrangente para não perder o bonde do desenvolvimento. Situação, aliás, que o Recife conhece muito bem, ao deixar de ser um modelo de desenvolvimento nacional desde os anos 1980 até hoje.

“Ir além do populismo”

Para o coordenador técnico da pesquisa, Uranilson Carvalho, a proposta do Gemepe/Fafire com a divulgação do levantamento é contribuir ao debate vigente, em virtude das eleições municipais de outubro. “É preciso saber o que a população deseja de fato, ir além do populismo e respeitando as proporcionalidades em cada município”, esclarece Carvalho. Ele explica que não houve indução nos questionários, pois cada habitante escolheu por conta própria o que considerava mais importante.

De acordo com o relatório final do Gemepe/Fafire, pela amostra com a atual quantidade de respondentes (565) se espera que 90% dos intervalos de expectativa estimados, com semi-amplitude igual a 0,04, contenham as verdadeiras frequências. Foi utilizado o Critério de Classificação Econômica Brasil da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (ABEP), que estima o poder de compra das pessoas e famílias urbanas. Para efeito de simplificação, o Gemepe fundiu grupos equivalentes em apenas uma classe.

As divisões sociais ocorreram assim:Classe A (mais de R$ 7.600,00); Classe B (entre R$ 2.151,00 e 7.600,00); Classe C (entre R$ 831,00,00 e 2.150,00); Classe D (entre R$ 416,00 e R$ 830,00) e Classe E (abaixo de R$ 415,00). A distribuição percentual da população da RMR, ainda segundo a ABEP é: Classe A (Classe Alta): 5%; Classe B (Classe Média): 13%; Classe C (Média Baixa): 27%; Classe D (Pobre): 42% e Classe E (Muito Pobre): 14%.

Até o final deste mês, a coordenação e os quatro integrantes do projeto prometem novos dados a partir dos números coletados neste mês de julho, entre os dias 3, 4, 5 e 7. Será feito um cruzamento dos dados com outras variáveis, como faixa etária, sexo e ocupação. Com os resultados disponíveis hoje, o grupo responsável pelo trabalho conclui que “o projeto em Saúde merece uma atenção diferenciada para a gestão dos futuros prefeitos da RMR”.

Principais desafios dos futuros prefeitos

Saúde 25,67%
Segurança 13,19%
Pavimentação 12,12%
Educação 9,98%
Saneamento básico 9,45%
Geração de empregos 9,09%
Limpeza urbana 2,85%
Habitação 2,67%
Projetos sociais 2,32%
Trânsito 1,96%
Esporte e lazer 1,25%
Transporte público 1,07%
Cultura 0,53%
Meio ambiente 0,36%
Turismo 0,18%
Outros 4,63%
Não sabe 2,67%

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