Iluminação nova foi só promessa

PCR // Secretário de Serviços Públicos não justifica atraso de ações previstas para março

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco – 13.abril.2008

Prometido para março deste ano, o novo sistema de iluminação pública do Recife está longe de ser concluído e apresenta resultados pífios para a população até agora. Na verdade, o projeto se arrasta desde 2003 e, quase a cada ano, ganha um novo discurso e um novo “lançamento” por parte da Prefeitura da Cidade do Recife (PCR). Procurado pelo Diario durante três semanas seguidas, o secretário de serviços públicos, Amaro João, não quis comentar o atraso na implementação do projeto e nem as promessas de sua própria pasta em relação aos prazos.


O secretário restringiu-se a dizer, por meio de sua assessoria, que o anúncio e as explicações sobre a nova iluminação será do próprio prefeito João Paulo. A pasta responsável pela implementação do Reluz, como se chama a empreitada, é a de Serviços Públicos. O próprio secretário Amaro João já foi presidente da URB e é conhecido por ter vasta experiência no setor.

Um rápido giro pela cidade revela o óbvio: ela continua com iluminação precária, inclusive nas principais ruas e avenidas. Se na periferia a situação beira a escuridão total, mesmo em bairros de classe média, como Boa Viagem, os novos pontos de iluminação ficam restritos a pequenos trechos, como é o caso dos primeiros quilômetros da orla, cuja obra de revitalização está concluída. Em outras localidades onde a iluminação foi renovada, como é o caso do terminal de passageiros na Praça do Derby e o novo corredor leste-oeste na Avenida Conde da Boa Vista, as locações funcionam como ilhas. Isto é, são iluminadas apenas naqueles pontos, mas basta uma caminhada a poucos metros dali para que tudo ao redor volte ao “normal” de escuridão.

Nos fóruns do Cidadão Repórter, canal colaborativo do Diario (www.pernambuco.com/ cidadao), a iluminação pública continua a ser um dos temas mais abordados e criticados pelos cidadãos. As lâmpadas fortes e claras, as quais equipam os primeiros quilômetros da orla renovada, comumente são usadas como exemplos práticos de boa iluminação, que infelizmente não se estendem ao resto da cidade.

Embora não haja estudos científicos no Brasil sobre o vínculo direto entre iluminação e redução da violência, os exemplos nacionais e internacionais são gritantes: onde há mais iluminação, há menor incidência de violência. E nos focos com o maior índice de atos violentos (assaltos, latrocínios e homicídios), sempre ocorre redução de crimes quando se ilumina o local, aliado a políticas públicas de urbanização.

O diretor da Previne Security, David Fernandes, presta consultoria para segurança privada e admite que a falta de iluminação é um dos fatores que termina sobrando para os empresários preencherem a lacuna do estado. “O governo praticamente não investe muito nisso, então nossa orientação é que as empresas preocupadas com segurança resolvam por conta própria”, admite. “Claro que o bandido prefere um lugar escuro, ele não quer ser notado. A iluminação é um dos ítens cruciais, seguida do policiamento ostensivo e as medidas de prevenção”, explica.

Vandalismo e burocracia

Além da burocracia inerente à gestão pública, uma das principais críticas do secretário de serviços públicos da prefeitura, Amaro João, ainda durante o ano passado, era sobre o vandalismo nas ruas do Recife. Na época, Amaro destacou a “luta inglória” contra os vândalos que danificam os postes e roubam a fiação elétrica. “Temos trabalhado em conjunto com a polícia para conter as investidas, mas a situação é tão grave que até transformador levam, é um problema generalizado no Brasil”, explicou. Como não quis falar com a imprensa sobre o assunto, ainda não se sabe, oficialmente, se houve um recuo nas investidas dos vândalos.

A base do Projeto Reluz é a otimização entre consumo de energia e raio de luminosidade, que ocorre não apenas com a troca de lâmpadas e renovação dos postes, mas também com novas luminárias. O secretário reconhece a iluminação pública como fator de crucial importância à inibição de atos violentos, não apenas porque a luz exerce um fator psicológico nas pessoas, mas sobretudo porque inibe a ação de bandidos. Até agora, contudo, pouco tem sido feito.

O vínculo entre iluminação e segurança não é novidade no Recife. Por exemplo, entre 2001 e 2002, no auge do apagão elétrico no Brasil, a Comissão Estadual de Acompanhamento do Racionamento definiu que os bairros da Região Metropolitana do Recife que apresentavam altos índices de violência seriam poupados do racionamento na iluminação pública, pelo qual todos os outros bairros passaram.

Resultado prático pode ser conferido por boa parte da classe média recifense: a contratação de seguranças particulares, que caminham junto aos “clientes” da parada de ônibus até em casa, por ruas escuras ou precariamente iluminadas. Os cientistas políticos Adriano Oliveira e José Maria Nóbrega compartilham de similar opinião quando o assunto é a prioridade nas políticas públicas de segurança e iluminação. “Isso apenas revela que não é um assunto de prioridade para a prefeitura”, categorizam.

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