Cinema acalenta população ribeirinha do rio São Francisco

Quarta edição do projeto que leva filmes às cidades banhadas pelo Rio São Francisco percorre comunidades do sertão nordestino, emocionando platéias. Programa leva o cinema a lugares remotos e desprovidos de salas de exibição e interfere no imaginário das comunidades.

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco – 23.mar.2008

Pernambuco, Bahia e Alagoas – Difícil saber de onde vem o brilho mais forte. Da tela de cinema ou daqueles olhos brilhantes e estáticos, congelados frente aos diálogos e imagens em movimento. Quem ainda acha que “a magia do cinema” é um termo inventado para denominar a potência do som Dolby Surround ou a nitidez de uma imagem em alta definição, certamente não faz idéia do significado de mesclar espanto, alegria e saudade ao assistir, pela primeira vez, um filme de cinema. Ou de chegar aos 80 anos tendo visto apenas novela em uma televisão de 14 polegadas – que funciona apenas quando quer, diga-se de passagem.

E de passagem é que se vê aqueles olhos assustados de um lado da rua, enquanto do outro predomina a euforia de crianças e adolescentes aos pinotes, esperando o início das exibições. À beira de casa, os idosos aguardam na cadeira de balanço e olham para a lona inflável com o semblante cético de quem muita coisa já viu na vida, mas não o suficiente para conter a curiosidade. Erguida, a lonase transforma em tela gigante que começa a falar e mostrar imagens. Motoqueiros formam filas e emprestam parte do assento para quem ainda está de pé, pois, afinal, as 200 cadeiras de plástico não dão conta de sequer metade da demanda.

O estalo do milho teria passado em branco, se a ventania forte não trouxesse o inconfundível cheiro de pipoca novinha. Em poucos segundos, a fila na pipoqueira dá voltas e chega até o fim da praça, ao mesmo tempo em que as crianças percebem, mais adiante, uma outra fila: a do algodão doce. Eles se dividem e, ao conseguir um pacote de pipoca, correm para tentar um palito de algodão doce. E voltam, voltam, até cansar. Depois voltam de novo. As crianças são incansáveis, como também o são os pipoqueiros, por horas a fio. A fio de algodão doce, aliás.

Narrativas do rio – Durante três dias, o Diario acompanhou a equipe do Cinema no Rio São Francisco, um projeto itinerante que leva filmes nacionais, escolhidos a dedo, às cidades localizadas às margens dos quase 2.800 km do rio. Desde anascente, na Serra da Canastra em Minas Gerais, até a região do chamado Alto São Francisco. Atualmente na quarta edição, é a primeira vez que o grupo se aventura por tão longe, chegando ao Sertão nordestino. A quarta edição termina no dia 26 de março, na cidade de Neópolis, em Sergipe, após ter passado por dez municípios desde o dia 15.

A primeira etapa desta edição ocorreu no segundo semestre do ano passado. Durante as primeiras incursões do Cinema no Rio, apenas o estado de Minas Gerais era contemplado. Com um pouco mais de verba e novas cotas de patrocínio (a Petrobras, a Oi e a Lei Federal de Incentivo à Cultura são as principais) a equipe resolveu subir e chegar ao Alto São Francisco.

Se os mais velhos abrem a guarda do ceticismo e agora se identificam nitidamente com o filme Narradores de Javé (Brasil, 2003) que conta a história de uma cidade prestes a desaparecer, inundada por causa da construção de uma barragem, agora são as crianças que não acreditam como a pipoca e o algodão doce são de graça. Difícil competir com as guloseimas, mas a estratégia para os adultos deu certo: quem estava em pé, sentou. E quem estava mais distante da tela, se aproximou.

Estamos em Jatobá, pequeno município às margens do rio São Francisco no Sertão de Pernambuco, já próximo às divisas com Alagoas e com a Bahia. As cenas descritas aqui ainda iriam se repetir por tantas outras cidades e para tantas outras comunidades ribeirinhas, como também ocorreram em outros municípios encobertos pelos meandros do Velho Chico, como Belém de São Francisco (PE), Abaré (BA), Piranhas (AL), Curralinho (SE), Ilha do Ferro (AL), Pão de Açúcar (AL), Neópolis (SE), entre outras.

Sétima arte muda face das cidades

Casado e pai de dois filhos em Belo Horizonte, o curador Inácio Neves trabalha com cinema itinerante há mais de 15 anos. Contudo, foi apenas com a invenção da tela inflável, poucos anos atrás, que ele conseguiu realizar um antigo sonho: levar cinema a lugares remotos e desprovidos de salas de exibição. Além do Rio São Francisco, lugar onde passou pela primeira vez no final da década de 70 em barco a vapor, Neves também organiza outros projetos similares, como o Cinema nos Trilhos. “Exibimos filmes diversos, neste caso desenhos americanos também, às margens das ferrovias brasileiras, que são rincões esquecidos do Brasil”, conta.

O principal técnico da equipe, Wagner Roberto de Souza, o “Vaguinho”, trabalha nos bastidores de cinema há 30 anos. “Em salas fechadas você nunca vai ter a experiência que tem aqui, ver tão de perto a alegria das pessoas, isso muda a estrutura da cidade”, conta. E muda mesmo. Inicialmente exibindo apenas os curtas e longas nacionais, hoje o projeto possui um viés educacional que ultrapassa as desigualdades sertanejas.

Durante a tarde, enquanto a equipe técnica realiza os ajustes de áudio e monta as caixas acústicas, duas monitoras preparam uma oficina temática para crianças de 6 a 12 anos. “Mostramos o princípio da construção de cinema, de um filme, de uma animação”, explica Joanna Rodrigues, uma das monitoras. Com desenhos e lápis coloridos, as crianças desenham, pintam e entendem como funciona o processo de cinema, o rolo de filme e a película logo ali ao lado, no trailer da sala de projeção.

A presença das crianças nas oficinas, porém, é sempre uma incógnita. Na etapa de pré-produção, os professores locais são convocados pela equipe para incentivar a participação e até levar os estudantes, mas nem sempre há interesse. “Há casos de conseguirmos atrair a atenção de até 200 crianças ao mesmo tempo nas oficinas, quando as escolas se engajam. Em outros casos, às vezes menos de 30 aparecem para aprender e brincar”.

Em Piranhas (AL), São Pedro não deu a mesma trégua dada a Jatobá (PE). A chuva começou a cair logo cedo e apenas dez crianças participaram da oficina. Na hora da exibição, pouca gente participou. “É triste para a gente, mas alegre para eles, porque pelo menos está chovendo e todo mundo sabe quão importante é essa água toda”, tenta se confortar Inácio Neves. Não é uma tentativa em vão. No dia seguinte, o Cinema no Rio estará em Curralinho, em Sergipe, uma cidade tão pequena e sem a menor infra-estrutura, cujo acesso se dá por meio de uma estrada com 30 km de barro. “Dá para imaginar o impacto que vamos causar levando cinema para esse lugar?”, provoca Neves, prometendo cobrir ainda mais cidades no segundo semestre deste ano, quando pretende iniciar a quinta edição do Cinema no Rio.

Ele não está errado. Porque em uma caravana deste porte, quando as pessoas conseguem se identificar tanto com os filmes exibidos naquela tela inflável de oito metros de comprimento por quatro de altura, as histórias do Rio São Francisco se confundem com as histórias de cinema enovas histórias se formam. O cinema itinerante pode até ir embora, mas essas histórias ficam.

História de gente comum na telona

Um ou dois curtas, uma animação e um longa metragem. Tudo nacional. Antes da exibição, contudo, a regra é exibir um pequeno vídeo sobre personagens ou histórias curiosas da cidade. O doceiro José Pereira de Lima foi o agraciado em Jatobá, mostrando como faz aqueles doces tão bons que agradam até quem não gosta de doces. A vizinhança se aproxima e, de repente, muita gente começa a identificar os vizinhos. Poucos minutos, poucas pessoas, muito orgulho.

Em cada cidade, a estrutura móvel é a mesma. E o trabalho, idem. Para funcionar sem erros, contudo, parte da equipe visita cada município até 15 ou 20 dias antes, para fazer os contatos com as prefeituras, escolher a melhor localização e divulgar o projeto nas escolas públicas. Um caminhão, um ônibus e dois veículos menores levam todo a infra-estrutura móvel necessária para a exibição que não deixa nada a dever a muitas salas comerciais.

Faça chuva ou faça sol, a curiosa tela de 200 kg (sem ar) é inflada em poucos minutos com um motor a diesel. E a magia do cinema começa ali, a partir de um projetor instalado no discreto trailer. Os filmes são exibidos em película 35mm e, por conta da flexibilidade da tela, vento e chuva não atrapalham tanto. Para comparar, basta imaginar um pula-pula gigante, daqueles de parque de diversões.

Na quarta e atual edição do Cinema no Rio, são pouco mais de 20 pessoas na equipe, entre motoristas, técnicos, professoras, pesquisadores e até mesmo a antropóloga Fernanda Oliveira, que ajuda nas abordagens para coletar histórias dos moradores e das cidades. Às 22h, com o fim da maratona cinematográfica, cujo início ocorre por volta das 19h, parte dos moradores começa a voltar para suas casas, enquanto outros procuram a equipe para saber mais. Quando voltam? Tem mais filme?

É tarde da noite, mas o pipoqueiro não respira um minuto. O estômago das crianças também parece inflável, pois continuam comendo pipoca e algodão doce até o silêncio tomar conta da cidade, enquanto os técnicos desarmam a estrutura e entram no ônibus para ir dormir. Amanhã, é outro dia, outra cidade, outros filmes.

Enquanto a chuva não cai

Jatobá (PE) – Céu nublado desde o meio da tarde e relâmpagos em várias direções. As horas passam, a noite cai e os raios ficam mais intensos. Ainda não cai uma gota d’água. A equipe de montagem da tela e do áudio trabalha a todo vapor no meio da praça em Jatobá (PE), enquanto o idealizador do projeto Cinema no Rio, Inácio Neves, olha para o céu, pensativo. Não entende aquele clima justo agora, no mês de março. Ele não é o único.

A população de Jatobá pensa duas, três vezes, antes de sair de casa para ir até a pracinha. Não obstante a falta de infra-estrutura típica do Sertão, as histórias correm rápido. Dois dias antes, as chuvas torrenciais assustaram os moradores de Belém de São Francisco. Os relâmpagos foram tão intensos que acertaram a antena da igreja matriz. Houve um princípio de incêndio, as pessoas correram e a cidade inteira ficou sem internet. A descarga elétrica queimou todos os aparelhos que interligavam o município à rede mundial de computadores. Ninguém nunca havia visto algo igual, garantiram.

No dia seguinte, a tela inflável de Inácio Neves atravessou o Rio São Francisco de balsa, chegando a Abaré, na Bahia. A sessão lotou, mas os raios não cederam. Um dia depois, de volta a Pernambuco, é hora de ir até Jatobá e pedir uma trégua, não a São Francisco, mas a São Pedro. A poucos quilômetros de Jatobá, tudo era água. Viajantes e motoqueiros chegaram à praça e, assustados, perguntavam se a chuva já havia ido embora. Ela sequer havia chegado. São Pedro, talvez, estivesse tão ou mais curioso do que as mais de 400 pessoas espalhadas pelo chão e pelas cadeiras de plástico.

Às 19h, o primeiro curta-metragem começa. A euforia tem início e segue com uma animação, antes da exibição do longa-metragem Narradores de Javé. Um viajante desavisado se aproxima e diz: “Não estou entendendo, em Petrolândia é só água e aqui é só relâmpago, cadê a chuva?”. Ele esquece o que falou, aponta para a tela e, espantado, garante que conhece “aquele ali que está falando”. É José Pereira de Lima, doceiro bastante conhecido em Jatobá, temporariamente transformado em ator do curta-metragem sobre a cidade, feito pela equipe do Cinema no Rio dias antes.

Cinema nacional espelha realidade

Abaré (BA) – O filme é brasileiro, a produção é nacional, a temática é a cara do sertanejo, o roteiro tem tudo a ver com o cotidiano nordestino. Mesmo assim, se não fosse pelo Cinema no Rio, dificilmente as cidades ribeirinhas teriam oportunidade de assistir a longas como Abril despedaçado, Narradores de Javé, Auto da Compadecida, Baile perfumado e até mesmo o novíssimo Mutum.

Antes do filme, a expectativa é grande. Os longas são escolhidos a dedo por Inácio Neves e Helvécio Martins Jr., curadores e realizadores do projeto itinerante. O primeiro, ainda hoje, se espanta com o impacto que as exibições causam. “Eles se identificam de um jeito impressionante, muita gente viveu exatamente aquilo na vida real”, conta Neves, que tem um leque quase infinito de histórias vividas e contadas durante a passagem do Cinema no Rio.

Óbvio, há sempre a pergunta reincidente sobre filmes estrangeiros. “Não é nosso propósito. No começo, às vezes pedem para passar filmes de ação, de luta, mas depois eles vêm nos perguntar se temcomo encontrar o filme (nacional) na locadora”, lembra Neves. E o mais triste, nesse caso, é que quase nunca os nacionais estão nas prateleiras das pequenas locadores do interior. Isto é, quando há locadoras.

Em Abaré (BA), o longa exibido foi Abril Despedaçado. Ao final, um agente da polícia militar aproximou-se de Inácio Neves e confessou: “Foi muito bom vocês terem mostrado esse filme. Aqui tem uma família que vive se matando com outra família de Belém de São Francisco, espero que eles tenham assistido também”, confessou.

É justamente isso que move uma das diretrizes de Neves ao escolher os filmes nacionais. São roteiros que tenham diálogo com o universo sertanejo e ribeirinho, algo a ver com o lugar no qual vivem aquelas pessoas. O mais comum é a presenciar a alegria de quem nunca foi ao cinema ou, se foi, nem lembra mais. É o caso do repentista e açougueiro Rosemiro Jordão de Farias, prestes a completar 80 anos em maio. “Lembro de ter ido ao cinema uma vez, mas faz tanto tempo… não lembro quando, era em preto e branco e acho que era bang-bang”, recorda, enquanto toca sua viola em Jatobá (PE).
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*o jornalista viajou a convite da produção do Cinema no Rio

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