Queremos nossas mulheres de volta

Paulo Rebêlo // março.2007

As mulheres deveriam dar um tapa, uma unhada e um puxão de cabelo para cada parabéns recebido pelo dia internacional da mulher. Só não precisam jogar fora os presentes, mas deveriam abrir o pacote já reclamando – o que não seria de tão surpreendente, aliás. Deveriam comemorar o dia internacional do rim, que também cai neste 8 de março. O que seria das pessoas sem os rins? Imagine quantos pobres coitados não sofrem todos os anos com doenças renais.


O dia internacional do bicho bom só serve para duas coisas: aumentar a quantidade de presentes inúteis que a mulher ganha e nunca usa; e comprovar a teoria de que o mundo seria um lugar bem mais infeliz se as pessoas falassem sempre a verdade.

O presente é inútil porque homem não sabe comprar presente, muito menos para mulher. Isto é, quando a gente não esquece da data e compra um chaveiro de pelúcia com um coraçãozinho estampado, ali na loja de conveniência do posto enquanto abastece o carro ou espera o ônibus passar. E todos ficam felizes porque, durante o dia internacional do bicho bom, a gente pode falar para ela – sem peso na consciência – que de todas as mulheres do mundo a nossa é a mais bela. Sem peso na consciência porque ela sabe que não é verdade e que você só quer agradar, então todos se perdoam.

Aperte o cinto, a mulher sumiu –
Quem deveria comemorar o dia internacional do bicho bom somos nós, os homens. Deveríamos sair às ruas e reivindicar pela volta das nossas mulheres, ou melhor dizendo, pela volta das peculiaridades femininas que tanto nos encantam, mas que aos poucos as mulheres abandonam. Tem mulher deixando de ser mulher e, pior ainda, com orgulho. E não tem nada a ver com opção sexual.

Hoje em dia, a tal da ‘mulher moderna e globalizada‘ está cada vez mais neurótica com a história de independência. E isso está abrindo uma verdadeira caixa da pandora, transformando nossas mulheres em réplicas da Kate Marrone, aquela que atira primeiro e nunca pergunta depois. Apenas grita, enquanto dá outro tiro na cabeça do defunto esparramado no chão.

No passado, fanáticos religiosos inventaram que mulher não podia usar calça comprida. Porque calça é coisa de homem e em mulher é pecado. Resultado: hoje a mulherada só quer usar calça comprida e queimou todos aqueles vestidinhos lindos e saias longas. Se a mulher não for uma jamanta, não existe nada mais sensual do que uma saia longa ou aquele vestidinho caseiro meio velhinho, bem diferente dos vestidos-pretos-tubinhos que a mulherada usa para ir à discoteca. Mas não, saias longas e vestidos caseiros não são mais coisas de mulher moderna e globalizada. A moda é calça comprida apertada-quase-rasgando para mostrar o cofrinho.

No passado, algum zé mané sem noção, provavelmente vendedor de calça jeans, inventou que as mulheres ficam modernas e globalizadas de jeans. Mentira, não existe nada mais brochante do que jeans, porque o jeans feminino parece ter apenas uma finalidade: mostrar uma realidade virtual. Ou ele deforma suas belas formas ou empina aquelas partes do corpo que você reconhecidamente não tem. Uma ilusão.

No passado, algum fanático machista (ou egoísta) falou que mulher não toma cerveja, porque é feio e sujo. Resultado, hoje temos uma legião de mulheres sóbrias e tediosas, que sentam no bar para pedir uma caipirosca durante a noita inteira, ficam sem assunto interessante para conversar porque não conseguem abrir os horizontes cerebrais que uma boa cerveja ou uma boa dose de uísque proporciona. E depois da segunda caipirosca, que nada mais é do que suco com três gotas de vodca da pior qualidade que dá ressaca, elas olham e pedem para você provar, porque supostamente a bebida está forte. É claro que está forte, hoje em dia elas não têm mais fígado, têm apenas patê de fígado.

No passado, algum pseudo-machão enrustido falou que as mulheres eram injustiçadas pela natureza, porque apenas elas sabiam as dores e dificuldades de ter filhos. Resultado, hoje cresce exponencialmente a quantidade de mulheres metropolitanas que não querem ter filhos, algumas até passam mal só de pensar na idéia de carregar um rebento no enorme bucho por nove meses. Quer dizer, daqui a uns 30 ou 40 anos, quando a gente estiver gagá e viúvo, não vamos ter ninfetas universitárias para babar e nos chamarem de velhinhos tarados. Culpa das mulheres atuais.

No passado, alguma mulher gorda e feia, e que não conseguia pegar homem nenhum, inventou de dizer que cozinha não é lugar de mulher, que é lugar de empregada doméstica ou de escravo. O que ela queria, de verdade, era apenas que todas as outras mulheres do mundo ficassem na mesma situação, ou seja, sem macho. E deu certo. Hoje, a mulher moderna e globalizada se orgulha de dizer que não sabe cozinhar, que cozinha não é lugar para ela, como se isso fosse uma prova de modernidade, de indepêndencia.

Curiosamente, essas mulheres não percebem que os homens casados mais felizes são aqueles que comem bem. Em todos os sentidos, mas bem alimentado é mais produtivo. Poucas coisas encantam tanto um homem quando uma jantarzinho caseiro, sem fricotes, mas feito com boa vontade para dividir a ração. Não, a mulher moderna não quer saber de cozinha, acha que o pensamento globalizado é sempre na lógica de que cozinha não combina com feminismo.

Agora é fácil de entender porque a maioria das mulheres modernas e globalizadas não gosta do Adoniran Barbosa. É o medo que ele estivesse certo quando cantava: ‘a Amélia se foi, ai que saudades da Amélia, ela sim é que era mulher de verdade…’