PANamá e medalhas de sangue

Os Jogos Panamericanos escondem bem mais notícia e conteúdo do que atletismo, medalhas e superfaturamento de obras. Se você não gosta de esportes, prefere o bom e velho dominó e futebol na TV, junte-se ao historiador Renato Prata Biar e promova o boicote ao PAN. Por não haver link disponível na internet, reproduzimos a íntegra do artigo de Prata Biar, com permissão do autor. Envie também o seu comentário no rodapé da mensagem ou pelo e-mail.
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A violência e o Pan
por Renato Prata Biar

Quando tiver início o PAN 2007 aqui no Rio de Janeiro, eu espero que os atletas brasileiros tenham a consciência de que quando eles estiverem no alto do podium recebendo suas medalhas, sejam elas de ouro, prata ou bronze, essas estarão todas manchadas com o sangue de pessoas inocentes que estão sendo massacradas nos morros, favelas e periferias da Cidade maravilhosa.

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Parece que o poder público, que mais se parece com um poder paralelo, não ficou satisfeito apenas com o trabalho desenvolvido pelas milícias, apoiadas por ele próprio, — fato este denunciado pela diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública do Estado, Ana Paula Miranda, e resolveu usar o seu direito ao monopólio da violência com um desdém e um descaso pela vida humana que impressiona pelo grau de crueldade.

A polícia tem feito incursões nos morros e favelas de modo irresponsável e covarde, pois algumas dessas operações se iniciam por volta de 07:00 e 08:00hs da manhã. Até o mais imbecil, idiota e estúpido ser humano da face da Terra sabe que este é o horário em que a maioria das pessoas estão saindo, ou para trabalhar, ou para levar os seus filhos para a escola ou creche.

E quando alguém é atingido nessas trocas de tiro, vemos o governador, o secretário de segurança, em suma, as autoridades (in)competentes, dizer que a polícia fez o seu trabalho corretamente, e que ela só reagiu porque foi recebida à tiros.

Ora, quem tem a obrigação de zelar pela vida, a segurança e o bem-estar dos cidadãos é o poder constituído do Estado, e não o marginal; caso contrário este não seria marginal (aquele que está à margem da lei) e aquele não seria um poder legitimamente constituído. Opa! Será que eu decifrei o enigma?

Somente no dia 06 de maio, cerca de treze pessoas foram feridas à tiro (uma delas de modo fatal) durante as operações da polícia, e, pasmem, não havia nenhum bandido entre as vítimas. O governador Sérgio Cabral declarou, durante uma entrevista à imprensa, que lamentava o ocorrido mas que não iria parar com essas ofensivas, pois não há outra maneira de se combater esses criminosos.

Provavelmente, para o governador, a polícia só deve utilizar a inteligência quando os criminosos forem desembargadores, juízes, políticos, bicheiros, empresários etc. Apenas gostaria de informar ao governador, que nos morros e favelas não há indústria bélica, plantação de maconha ou produção de cocaína. Inclusive esta última tem, no éter, o seu principal produto para se obter o refino da coca, e eu não me lembro de ninguém que tenha pensado em exigir das indústrias farmacêuticas um controle rígido para a venda dessa substância.

É por essas e outras que eu não posso deixar de lembrar do velho Marx quando este dizia já em 1847, no Manifesto do Partido Comunista, que o Estado nada mais é do que um comitê da burguesia, para satisfazer seus interesses econômicos, políticos e sociais, e assim, manter-se como classe dominante.

Esses movimentos e ONGs que se dizem pela paz, da paz, contra a violência, etc., ao invés de ficarem plantando rosas e colocando cruzes nas areias de Copacabana para contar os mortos, deveriam se juntar e propôr aos atletas e a população de um modo geral um verdadeiro boicote ao PAN 2007 e a tudo que se relacione com este evento.

O seu custo financeiro (cerca de 2 bilhões de reais) bancado pelos cofres públicos, e, principalmente, o seu custo em vidas humanas e não se trata só de mortos e feridos à bala, mas também de despejos de comunidades inteiras que moram há cerca de 20, 30 anos no mesmo local, e que estão sendo retiradas de suas casas para melhorar o visual turístico do Rio me parecem caros demais, independentemente de qual fosse o motivo.

Como dizia o saudoso Dr. José Róiz numa frase que virou título de seu livro: “O esporte mata”. E como mata!
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Renato Prata Biar é historiador

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