Paulo Rebêlo
Revista Backstage – abril.2007

Quem define as características de uma gravadora ou estúdio independente?
O que faz uma gravadora ser chamada de independente pela mídia e pelos consumidores? Há quase um ano, tecemos algumas considerações aqui na Backstage sobre a hipocrisia deste termo em várias situações, a começar pelos lançamentos de CDs de artistas famosos e que nem precisam de campanha para vender. Em junho de 2006, nosso gancho foi o novo álbum de Chico Buarque, o qual, na nossa opinião, dividiu a história das gravadoras independentes em “antes” e “depois” do fator Chico.

Chico Buarque não foi o primeiro músico tarimbado a integrar o leque da Biscoito Fino, uma das chamadas gravadoras independentes. A Biscoito Fino tem um leque de peculiar qualidade, além de artistas exclusivos da gravadora: Mônica Salmaso, Francis Hime, Maria Bethânia, Simone Guimarães, Olivia Hime, Quarteto Maogani, Tira Poeira, Zé Renato e Sérgio Santos. Fora outros do catálogo, como Paulinho da Viola, Luciana Souza, Billy Blanco, Dominguinhos, Chico César, Toquinho, Bibi Ferreira, Yamandu Costa, Dori Caymmi e até o cantor-ministro Gilberto Gil.

O lançamento do álbum ‘Carioca’ de Chico, há praticamente um ano, mudou parte dos conceitos ideológicos do consumidor mais atento. Não se trata daquele velho maniqueísmo de que as grandes gravadoras são do mal e as independentes são do bem. Pelo contrário, trata-se do modo como foi conduzido o lançamento em si: a propaganda, o marketing e o bombardeio de entrevistas ‘exclusivas’ para os maiores jornais do país, além de críticas sempre positivas para um álbum que passa longe dos melhores trabalhos de Chico. Qual é a diferença entre esse método e o adotado pelas grandes gravadoras?

Deixemos ideologias e opiniões de lado, por um instante. Vamos ao que interessa, o preço, o prego no bolso. Na época do lançamento, ‘Carioca’ custava R$ 36 tabelados. Mais caro do que vários CDs tão bons quanto ou até melhores… das grandes gravadoras. Até onde sabemos, Chico Buarque é brasileiro, músicas nacionais, produção nacional também. Mas com preço de importado. Tudo bem, era lançamento. Sabe quanto custa o mesmo CD hoje, um ano depois? Nas Americanas sai por R$ 34,50 em “oferta”. No Submarino, sai por R$ 39,90 e a loja ainda diz que reduziu o preço e você vai economizar R$ 3,00 comprando com eles.

O PROJETO MERLIN –
As independentes sempre reclamam, com razão, sobre a injustiça na hora de barganhar por contratos e negociações frente ao poder de fogo e regalias oferecidas pelas grandes gravadoras. A razão começa a se perder quando, dotadas de um certo poder de fogo também, as independentes procuram repetir as mesmas práticas que tanto condenaram no passado.

Recentemente, várias gravadoras chamadas de independentes resolveram se juntar e criar o Projeto Merlin. Em tese, é uma tentativa de criar uma nova e única gravadora “virtual” para agregar todos os selos independentes. Seria a quinta grande gravadora no mundo, para fazer frente às atuais quatro gigantes. O novo selo, batizado de Merlin, teria um modelo de licenciamento diferente, mas ainda não há detalhes sobre quais seriam as medidas para flexibilizar o atual modelo de direitos autorais e distribuição.

E ao que tudo indica, pragmatismo não deverá ser o forte da Merlin. Gravadoras de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, já confirmaram a vontade de fazer parte. Logo, o que veremos será uma salada incrível de independentes com práticas diferentes e modelos distintos tentando criar um selo único para concorrer com as gigantes. A questão é: a Merlin fará o mesmo? É difícil de apostar.

Há, porém, boas expectativas. Os idealizadores do projeto Merlin já conversam com a Snocap, aquela empresa criada por Shawn Fanning. Quem é esse arataca? Ninguém menos que o criador original do Napster. A Snocap foi a empresa desenvolvida por ele após várias tentativas de recuperar o Napster na mão de grandes gravadoras. A priori, a Snocap deve gerenciar a parte “digital” da iniciativa, digamos assim.

É uma aposta promissora. De acordo com dados da Impala, um consórcio europeu de selos independentes, 80% dos novos lançamentos atuais estão saindo pelas independentes e estas já tomam conta de quase 30% do repertório mundial. Como existem quatro gigantes gravadoras para o resto, significa que o Projeto Merlin pode chegar a ter mais poder de fogo – na fusão de todas as independentes interessadas – do que as quatro outras.

Os ideais do projeto Merlin, ao menos aqueles liberados ao público até agora, não são para transformar o selo em uma gravadora tradicional. Mas, sim, em um agregador de independentes e formador de novas licenças para negociar direitos autorais dos artistas.

BARATO DEMAIS –
Enquanto isso, a RIAA (associação de gravadoras norte-americanas) confirma a tese de que não faz a menor idéia do que fala e do que faz no mercado. Em um relatório divulgado recentemente, os executivos da associação foram à imprensa alegar que o preço pago pelos consumidores nos CDs está, na verdade, muito barato. Segundo os figurões, a pirataria musical na internet aumenta os custos das gravadoras e, com isso, elas deveriam – com o respaldo da RIAA – aumentar o preço dos álbuns. Quanto mais? De acordo com o relatório, o preço deveria ser três vezes mais caro do que é hoje.

O relatório não é secreto. Inclusive, chegou a ser divulgado no site oficial da RIAA, para “explicar e ensinar” aos consumidores que o preço do CD de hoje é uma pechincha. De acordo com dados da associação, entre 1983 e 1996, os valores pagos pelo consumidor para um CD caiu em até 60%. Ninguém sabe onde, mas tudo bem. De qualquer modo, a redução de preços não contém explicação, por parte da indústria, sobre a também drástica redução de preços nos meios de produção, gravação e distribuição – a começar, que ironia, pelo próprio processo de digitalização das músicas.

Com tudo isso, fica provado o que todo mundo já sabe. A indústria fonográfica vive em uma Matrix, em uma realidade completamente virtual que não é a nossa, do consumidor médio que tenta juntar uma graninha para comprar um ou dois CDs no final do mês.

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