Trambiques para exportação

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
março 2006

Dentre tantas pequenas quimeras, nós, brasileiros, temos duas grandes ilusões na vida: a de que o Brasil é o país do futuro; e a de que em nenhum outro país do mundo se rouba tanto feito aqui. E como todo bom brasileiro, ou seja, iludido, me incluo na lista.

Apesar dos pesares, continuo a acreditar que o Brasil é o país do futuro. Certamente, não mais do meu futuro, porque não vai dar tempo. Quem sabe, o seu? Depois do ano 2050 a gente conversa, em um link dedicado direto da tumba, para dizermos que o Brasil será o país do futuro de novo e infinitamente. Sobre a roubalheira, alguns dos escândalos nacionais soam tão ridículos, tão amadores, que realmente é difícil imaginar o mesmo em outros países. Mas, existe… são difíceis de achar, mas estão lá.

Nos quesitos maracutaia, favores políticos e arrumadinho, devemos ser imbatíveis. Como nem tudo são espinhos, fizemos escola. Países desenvolvidos vêem que podem aprender muito conosco. Por exemplo, é emblemática a situação – corriqueira, há de se realçar – de ministros brasileiros que, após o mandato, se tornam diretores ou conselheiros de grandes empresas privadas a cada fim de gestão.

O uso da máquina na gestão pública para alçar vôos altíssimos, em grandes empresas privadas, não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, cujo modelo de negócios e gestão a indústria fonográfica local adora se espelhar, acaba de ocorrer a mesma coisa e que afeta, diretamente, o mercado de música digital e, por tabela, os usuários. Dois ex-chefões da RIAA (Recording Industry Association of America), aquela mesma entidade que processa usuários comuns, de crianças a velhinhos, criaram uma agência de consultoria. Até aí, tudo bem.

A problemática é: a tal da “consulting agency” de Jay Berman e Hilary Rosen, os ex-líderes da RIAA, lida com pirataria fonográfica. De posse dos relatórios, dados e informações privilegiadas que acumularam durante anos à frente da entidade, os dois agora estão criando planos de negócios envolvendo ferramentas de proteção ao direito autoral, tecnologia de mídias digitais (protegidas, claro) e até mesmo comércio internacional com estratégias anti-piratas.

Para quem não lembra, Hilary Rosen ficou conhecida mundialmente no final dos anos 90, quando era a presidente da RIAA e liderou a epopéia contra o Napster, situação que culminou no fechamento do serviço. Jay Berman era o então presidente da IFPI, um pouco menos conhecida dos brasileiros, mas tão temida quanto fora daqui, quase um dos tentáculos da RIAA.

Perspectivas –

A mudança de lado de Rosen e Berman é sintomática. Para analistas da indústria um pouco mais independentes, a manobra é clara: não vai se tratar de uma agência de consultoria, mas de uma agência de lobby, junto a gravadoras e outras associações. Afinal, ambos têm a faca e o queijo na mão.

Para parte de usuários avançados de internet, os chamados “power users”, acostumados a baixar gigabytes de MP3 e/ou acompanhar de perto os meandros da música digital, a iniciativa de Rosen e Berman não dará certo, por um motivo simples: credibilidade. Para essas pessoas, a falta de credibilidade da RIAA é notória, principalmente, na época em que foi comandada pela dupla. Em entrevistas à imprensa americana, ambos garantem que não vão atuar como lobistas, mas como consultores.

Ocorre que nem tudo é preto no branco como gostariam os usuários. Para a indústria do topo (executivos, tomadores de decisões) a RIAA tem credibilidade de sobra. É fato que a pirataria mundial, seja ela de música ou de filmes, ainda não diminuiu. Pelo contrário, novos métodos e artifícios surgem a cada dia, como forma de contornar as imposições anti-piratas de governos e empresas. Entretanto, por outro lado, também é fato que caiu bastante a popularização do download de MP3 na internet.

Se, até pouco tempo atrás, achar o mais recente álbum em MP3 era brincadeira de criança, hoje não é mais assim. Os usuários avançados continuam a ter facilidades, porém, um pouco mais complexas do ponto de vista técnico. Os sites e fontes se escondem mais, impõem limitações, restringem acessos e não estão publicamente visíveis como antigamente. Antes, qualquer um, do leigo ao iniciado, procura músicas em MP3 e encontrava.

Logo, pelo bem ou pelo mal, a batalha travada pela RIAA contra o MP3 surtiu resultados, de um ponto de vista “aparente”. E repercutiu no Brasil, também. Os camelôs e carrocinhas de CDs continuam de vento em popa, mas aquelas dezenas de sites com MP3 nacionais para baixar, últimos lançamentos, não existem mais. Então, no final das contas, a RIAA não resolveu diretamente problema algum – mas ajudou a afundar o lado mais fraco. E, talvez, seja isso mesmo que algumas empresas estejam procurando ao contratar os serviços de consultoria de uma agência comandada por dois ex-figurões da RIAA. Qualquer semelhança com ministros e bancos brasileiros é mera coincidência.

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