Saudades do Clipper

Programadores sentem falta da tela preta e lamentam que a Computer Associates tenha vacilado.

Paulo Rebêlo – Webinsider, 06.nov.2006 [ link origiinal ]

Durante os últimos anos, sempre bate uma ponta de nostalgia quando o noticiário de informática publica algo sobre a Computer Associates, hoje formalmente chamada de CA, Inc. É sempre notícia ruim, por conta de um escândalo financeiro que data desde o ano 2000 e se arrasta até os dias de hoje.

Envolve uma fraude de milhões de dólares e, recentemente, li em algum lugar que o ex-CEO Sanjay Kumar teve a prisão anunciada. Talvez não seja nada diferente de tantas outras fraudes americanas de Bolsa de Valores que a gente lê no jornal e nem sempre entende direito. A diferença, para mim e para uma legião de programadores de duas décadas atrás, é que apenas ler o nome Computer Associates faz a gente se remexer na cadeira com um brilho nos olhos.

O Clipper não apenas fez história no Brasil, mas também foi responsável por decisões de carreiras de inúmeros programadores que davam seus primeiros passos no mundo da informática-bruta (de código) com linguagens de programação. Em uma época onde a informática ainda era um leviatã abominável no Brasil e ninguém tinha computador, as empresas brasileiras de vanguarda sabiam que o futuro estava entre linhas de código. Linhas que desenvolviam um sistema de almoxarifado, de contas a pagar e receber, de arquivos, de recibos e nota fiscal, de controle de custos e, claro, aqueles intermináveis sistemas de catálogos para locadoras e afins.

Durante mais de uma década, aquela linguagem movida a banco de dados foi esposa e amante de centenas de programadores brasileiros. Simplesmente, eles não conseguiam dar conta da crescente demanda por sistemas. Farmácias, armazéns, lojas, locadoras, shoppings, livrarias… de repente, todos os potenciais clientes adquiriam seus primeiros PCs e logo entendiam como a produtividade (e facilidade) aumentava com um simples sisteminha em banco de dados.

Foi uma época de ouro para os programadores em tela preta (DOS), com o auge até a metade dos anos 90. Foi quando o Windows 3.1 tornou-se a plataforma de escolha universal, roubando nossa esposa e amante, nos traindo com linguagens coloridas (Visual Basic, Visual C++) e uma interface cheia de janelas simultâneas que me deixava perdidão. E o Windows 95 apenas confirmou todos os nossos medos.

Nada de novo

Meu primeiro contato com Clipper foi na versão Summer ’87, mas na época não cheguei a fazer nada – a idéia de “computador” ainda era indescritível para muita gente, a começar por mim. A Summer ’87 foi a última versão ainda mantida pela Nantucket, criadora original da linguagem que, basicamente, servia como um compilador para o dBase, que vinha desde o início dos anos 80. Só com o lançamento do Clipper 5, em 1990, agora pela Computer Associates, é que uma legião de novos e velhos programadores entendeu que a informatização de tudo (sistemas) era um caminho sem volta.

O cenário a seguir não foi tão diferente do que ocorre hoje. Havia programadores e programadores. Os ruins sempre prejudicavam o coletivo, a carência de bons profissionais gerava uma super-demanda improdutiva, grupos de programadores viravam noites seguidas compilando códigos ou, simplesmente, noites seguidas tentando descobrir onde estava o erro apontado pelo compilador… eram amantes. Às vezes, ficar tantas horas naqueles cubículos parecia cena da manicômio. Carregávamos o disquete com as milhares de linhas de código (esposa) para casa, onde a gente não tinha sequer computador, mas virávamos a noite com ela mesmo assim, olhando cada detalhe no papel.

E depois brigávamos com a esposa e com a amante, porque o compilador dizia que o erro era na linha 67, mas acontece que não tinha erro na linha 67; o erro só era encontrado mesmo lá pela linha 352, que o compilador não sabia dizer que ali se chamava uma função errada relacionada à linha 67, mas o erro mesmo era na linha 352 e não na linha 67, assim a discussão era interminável. Tinha gente que pedia o divórcio, ia para o bar beber até de manhã, mas no outro dia se arrependia e fazia as pazes, agora tratando com mais carinho a bagunça das linhas de código e adicionando comentários explicativos de quando em quando.

A diferença de ontem para hoje, talvez, seja apenas uma aura de (pseudo)-romantismo que aqueles monitores monocromáticos causavam. Não havia internet, aliás, não havia ainda nem BBS no sentido popular que depois se tornaram. Não tinha MSN ou ICQ para passar o tempo ou desopilar, nem e-mail para responder. A concentração era total, alienação total, ao menos até a campainha tocar com o cara da pizza que, de tanto fazer entregas, já entrava e ficava conversando por uma meia hora e depois até o dono da pizzaria vinha tomar uma cerveja e reclamar que o sistema que a gente desenvolveu para ele era “feio”.

As traições

Muitos programadores que fizeram carreira com o Clipper entre o final dos anos 80 e metade dos anos 90, culpam a Computer Associates pela derrocada final da linguagem. Quem trabalhava no ramo encontrava pouquíssimo tempo para aprender uma nova linguagem gráfica. E as opções, sobretudo Visual Basic e Visual C++, cresciam e apareciam. Da mesma forma que antes a gente viu que aquilo seria o futuro da informática, pelos idos de 1995 também vimos que ficávamos para trás. A Computer Associates prometia, prometia, mas nunca entregava a versão gráfica do Clipper, o CA Visual Objects.

Em grande parte por conta dos avanços da versão 5.3, programadores destemidos e competentes conseguiam reproduzir na tela preta um ambiente similar ao Windows. Lembro que pirei quando um amigo começou a me ensinar como trabalhar com orientação a objetos no Clipper, de como tudo poderia ficar tão mais fácil e produtivo. Mas, era algo forçado, não-natural. De verdade, o que todos iriam exigir em pouco tempo – já exigiam – era um sistema que rodasse nativamente em Windows, coisa que o Clipper não poderia oferecer nunca. Quem era muito bom naquela linguagem se viu órfão e traído. Quando o CA-Visual Objects foi lançado e apelidado de Clipper for Windows, vimos que a traição era muito maior do que imaginávamos. O software era ruim, lento e com intermináveis bugs.

Houve um interlúdio no qual alguns tentaram migrar para o dBFast, uma espécie de dBase forçado para Windows, que nunca deu certo. Fui um deles, investi meses inteiros migrando sistemas de Clipper para dBFast, que exigia ainda mais linhas de código do que antes, para só depois ver que estava jogando dinheiro e tempo no lixo. Foi quando a Borland lançou o dBAse for Windows e nada de chegar o CA-Visual Objects. Quando chegou, foi em desastre. O dBase não teve muito tempo de vida, chegou o Delphi e o resto é história recente.

Legiões inteiras de programadores ficaram órfãs. Parte migrou para linguagens gráficas, sobretudo Delphi e Visual Basic. Parte se manteve grudada ao Clipper, desenvolvendo para DOS mesmo com o lançamento do Windows 95 que aniquilou de vez a plataforma-texto. Um grupo menor de pessoas, o qual fiz parte, simplesmente jogou a toalha branca e mudou de carreira.

Meia dúzia de linhas

Em vez de começar do zero em uma linguagem nova bonitinha e colorida, fui teimoso durante um bom tempo, fazia questão de aprender ainda mais o Clipper, que eu já dominava. E quando a última versão realmente nos permitiu trabalhar com orientação a objetos, além de adicionar funções da linguagem C e Pascal ao código, eu realmente achei que havia futuro ali. Errei, evidentemente, em grande parte por esperar que a portabilidade entre Clipper e Windows seria suave e descomplicada. Teria sido um paraíso, levar todo aquele conhecimento em DOS para desenvolver sistemas funcionais em Windows – sem precisar aprender Basic para dominar o Visual Basic, linguagem que eu detestava porque considerava uma linguagem burra.

Acho que só abri os olhos à realidade, ali pela metade dos anos 90, quando conheci uma guria que programava muito bem em Visual Basic. Além de linda e inteligente (e provavelmente míope), a criatura tinha uma familiaridade com as linhas de código que impressionava qualquer um.

Certo dia, apresentei minha amante para ela: um disquete com páginas e páginas de linhas de código, para um sistema que eu estava tentando resolver. Pedi para ela me falar um pouco do Visual Basic que ela usava na época. Não levou dez minutos para a namorada colocar a amante para correr, do jeito mais cruel e maquiavélico possível.

Em uma fração de minutos, ela escreveu umas seis linhas de código, compilou e mostrou o resultado simples: umas janelas pulando, chamando funções externas e aceitando comandos de mouse e teclado no Windows 3.1. Eu olhei aquela meia dúzia de linhas, parei, pensei no meu código e conclui que, para fazer algo sequer parecido – gráfica e funcionalmente – me custaria pelo menos umas duas páginas inteiras de código. Foi naquele momento em que vi não ter nascido para aquilo. Ainda tentei aprender a noção de “linguagem orientada a eventos” (Visual Basic) em vez de “linguagem orientada a objetos”, boa parte por causa das coisas que aquela criatura fazia no VB, mas desisti.

Depois daquele dia, passei a olhar para todos aqueles meus livros de Clipper escritos pelo brilhante José Antônio Ramalho de outra maneira. Os livros de Clipper não eram livros, eram bíblias sagradas. E os livros do Ramalho foram meus travesseiros sagrados durante anos a fio. Eu sempre me perguntava como aquele cara podia entender tanto do riscado. A namoradinha do Visual Basic tornou-se uma especialista muito bem conceituada, uma assumidade no assunto. E eu passei para o lado negro da força, me distanciando e virando jornalista.

Uns quatro anos atrás, ou seja, quase dez anos depois daquela terrível meia dúzia de linhas de código, encontrei o José Ramalho pessoalmente pela primeira vez, em um evento onde vários jornalistas de tecnologia estavam reunidos. Só então acreditei que ele existia de verdade, pois às vezes eu pensava que o cara era um máquina – lembro que, na época, eu dizia que ele era um 486 quando todos os outros programadores brasileiros seriam um 286.

Quando vi o cara ao vivo, de carne e osso, tive que me conter para não ir lá pedir um autográfo e dizer que devia tanto a ele. Há anos eu não lia nenhum livro de informática e, depois, vi que o Ramalho lançou um livro sobre Banco de Dados Oracle, uma coisa que eu nunca entendi na vida, e ele continuava escrevendo livros sobre os mais variados assuntos de informática. E voltei a pensar que o cara, talvez, fosse mesmo uma máquina e aquela figura ali no evento fosse uma holografia.

Quase dez anos depois daquela meia dúzia de linhas de código, também reencontrei rapidamente a criatura que as escreveu. E achei engraçado que, além dos pensamentos óbvios masculinos e impublicáveis, eu olhava para ela e só conseguia lembrar daquelas linhas de código, do Visual Basic e aquelas janelas pulando no Windows 3.1 que eu nunca aprendi a fazer. Bom, eu espero que os companheiros de cela do Sanjay Kumar o tratem bem… mas, ok, não muito bem. [Webinsider]

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