A redescoberta do MP3

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
abril 2006

Desenvolvedores e técnicos tentam, há um certo tempo e sem sucesso aparente até agora, promover uma recauchutagem no combalido MP3. O formato de áudio digital se sustenta há anos nos mesmos pilares, os quais, tecnicamente, estão bem atrasados em relação a formatos e soluções concorrentes de música digital. O grande – e talvez único, atualmente – apelo realmente verdadeiro do MP3 é ser universal. O arquivo pode ser lido em um universo de produtos, aparelhos e sistemas operacionais diferentes, todo mundo já ouviu falar pelo menos uma vez de MP3, não é preciso um programa especial ou configuração extra para escutar as canções e assim por diante.

No entanto, a história da tecnologia está aí para mostrar: soluções que não se reciclam tendem a cair no esquecimento. Poderíamos fazer uma lista, mas vamos pelo mais óbvio: os próprios meios de propagação musical. Aquele LP de 33 rotações, o LP tradicional, a fita K7 e o Compact Disc.

Com exceção do CD, tudo ficou para trás. O próprio CD, por si só, é um meio ultrapassado e os formatos digitais de áudio existem, no dia de hoje, para comprovar. O CD arranha, pode quebrar, fica com gordura e é enorme.

Evidentemente, comparado com um LP, o CD é pequeno. Mas continua sendo uma coisa gigantesca para guardar em grande quantidade. A não ser, claro, que você faça parte daquele grupo de pessoas que se denominam “cult” porque gosta de comprar discos antigos em LP para se exibir aos amigos.

Com o MP3, não é diferente. Não há dúvidas de que os arquivos soltos na internet, na metade dos anos 90, revolucionou vários conceitos. A gente usa o verbo no passado, na esperança de que os leitores concordem com o tempo verbal, visto que a maioria deve estar ciente que o tempo presente (ou futuro…) talvez nem exista para os gurus da indústria fonográfica que, impiedosamente, continuam a querer emplacar um modelo arcaico de negócios aos consumidores.

Não obstante as maravilhas do MP3, ele tornou-se um formato também ultrapassado. Atende as necessidades básicas dos usuários: ouvir música de um jeito descompromissado e sem opções. E só. Está longe de atender requisitos mínimos para as novas iniciativas comerciais em música digital, para segurança dos artistas e, até mesmo, para soluções de marketing e promoção. Para entendermos melhor, vamos analisar a partir de duas frentes: técnica e comercial.

Tecnicamente atrasado

Desde o surgimento do MP3, em julho de 1995, o formato permanece tecnicamente idêntico. Não houve aprimoramentos, sequer melhoramentos superficiais. As taxas de conversão da música analógica para digital são as mesmas, ou seja, o tamanho final do arquivo é o mesmo de 1995. Você pode diminuir ou aumentar o tamanho de acordo com a taxa de conversão desejada, isto é, alterando a qualidade do áudio. Nada mais do que isso.

O chamado algoritmo de compressão – em linguagem rasteira, o cálculo matemático feito para comprimir (compactar) radicalmente o áudio e manter a relativa qualidade sonora – também permanece o mesmo de onze anos atrás. Durante seguidos anos pós-1995, surgiram na praça uma gama de produtos diferentes para “ripar” (leia-se: extrair) as músicas de CDs para MP3, cada um dizendo ser mais rápido e melhor do que o outro. A diferença, no entanto, sempre foi irrisória e variava pelo código do software de ripagem do que pelo algoritmo de compressão, visto que a tecnologia do MP3 em si é invariável.

Passados onze anos, era de se esperar que houvesse algum avanço técnico neste tão amado formato digital, mas não houve. O lado bom continua a ser o fator compatibilidade: o MP3 é universal, como vimos há pouco. Contudo, em onze anos o mundo girou várias vezes e concorrentes surgiram. Uns de qualidade duvidosa, outros puramente hype e poucos – como o OGG e o WMA, da Microsoft – são excelentes e desbancam o MP3 naquilo que ele não consegue ter: segurança e viabilidade comercial.

Comercialmente inviável

A grande sacada dos formatos concorrentes, como é o caso do padrão adotado pela Apple (leia-se: iPod), pela Microsoft e pela RealNetworks, é preencher o imenso vazio deixado pelo MP3 nos últimos onze anos. Para a indústria fonográfica e para as empresas desenvolvedoras, é imprescindível que o formato de áudio digital tenha um mínimo de tecnologia embutida, e não que seja apenas um mero reprodutor indiscriminado de áudio, como é o MP3.

Primeiro, no quesito comercial, é preciso agregar valor e recursos naquele pequeno arquivo contendo a música. Para termos exemplos bem práticos, basta lembrar que os formatos concorrentes podem embutir licenças de segurança, podem se “auto-destruir” (ficam truncados, ilegíveis) após uma quantidade pré-definida de dias, semanas ou meses, e, até mesmo, podem conter qualidades de áudio diferenciadas dentro de um mesmo arquivo. Há uma gama de possibilidades comerciais e técnicas disponíveis em outros formatos, os quais, sem dúvida, o MP3 deveria estar percorrendo. Mas, não está.

Mesmo para iniciativas menos comerciais, como, por exemplo, distribuir gratuitamente músicas online para usuários (ex.: uma promoção), é preciso ter um mínimo de retorno. Nem que seja para repassar ao departamento de marketing, para que possam fazer aquelas promoções malucas, e ao departamento de publicidade, para as campanhas desconexas que tanto a gente vê na mídia sobre tecnologia. Ao menos é um retorno. E retornos são cada vez mais necessários em um mercado – qualquer que seja – crescentemente competitivo e diversificado.

No quesito segurança, são várias as façanhas proporcionadas pelos formatos mais modernos. Desde a famigerada proteção anti-cópia até mesmo ao controle/auditoria de audições (quantas vezes foi ouvida), além de recursos bem avançados, do tipo permitir a cópia para aparelhos portáteis e restringir a cópia para CDs ou computadores externos, por exemplo. São diferenciais que pesam, e muito, para aquela porção da indústria que tem os olhos um pouco mais abertos para as mudanças e inovações tecnológicas.

Concorrência leal

Para o usuário doméstico/final, o MP3 continua a ser o grande queridinho. E com razão, pois, para esse público, o que vale é ouvir a música predileta do jeito mais simples e objetivo possível. No entanto, boa parte dos usuários domésticos também podem querer comprar música um dia, sobretudo, se forem felizardos donos de um iPod. E aí, a prosa muda de rumo e o MP3 cai no esquecimento.

Ser um formato universal é a salvaguarda do MP3. Ainda. Não é à toa que todos os aparelhos portáteis, inclusive o iPod, possuem suporte nativo ao queridinho. Embora seja uma incógnita até quando isso vai se sustentar, o fato é que, a não ser que algo seja feito em breve para reciclar tecnologicamente a tecnologia por trás do MP3, podemos estar próximos do fim de um ciclo de vida de bastante sucesso.

Há, porém, luz no fim do túnel. Ciente de todas as dificuldades técnicas e comerciais, desenvolvedores e técnicos começam a apresentar as primeiras soluções para turbinar o MP3 e, quem sabe em um futuro breve, transformá-lo novamente na grande força motriz que já foi para o mercado. Falaremos sobre essas mudanças pelas próximas colunas.

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