Pior IDH do Brasil impulsiona o desenvolvimento de Manari

Paulo Rebêlo
PNUD / Nações Unidas
9 de julho de 2004

Terça-feira, 20h. Em meio à praça, jovens com um caderno debaixo do braço se escoram em uma árvore, conversando sobre a aula de Informática que acabou há pouco. Um pouco mais adiante, um trailer vende refrigerante, sanduíches e salgados para três animados grupos que parecem esperar por mais gente ainda naquela noite. Das janelas abertas nas casas ao redor, outras tantas pessoas observam o movimento ou esperam os filhos chegarem da escola. Tudo parece uma cena comum e corriqueira em qualquer cidade, mas não aqui em Manari. Há dois anos, este pequeno município no Sertão de Pernambuco parecia viver isolado do mundo. Bastava o céu escurecer para que as janelas se fechassem e a praça ficasse deserta, em desconfortável silêncio para os raros viajantes que por ali passavam.

Foi em 2004 que estivemos pela primeira vez neste pequeno município que beira a divisa de Alagoas e dista 400 quilômetros a sudoeste do Recife, só existindo como um ponto do mapa em que o Guia Rodoviário alerta, ainda hoje, os improváveis viajantes: não há estradas para Manari, apenas um trecho com 30 quilômetros improvisado de barro — e ao chegar, o motorista logo entende que não se trata apenas de barro, mas, também, de pedregulhos e rochas.

Manari tornou-se “famosa” há três anos como a cidade com o menor IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), entre 5.507 municípios brasileiros, após a publicação do Atlas de Desenvolvimento Humano, do PNUD. Com renda per capita média de R$ 30,43 mensais, a cidade apresentava números alarmantes em 2000: 89,99% da população era pobre, 63,9% da população adulta era analfabeta, a escolaridade média era de 1,30 anos de estudo, o abastecimento de água só chegava a 16,2% da população, apenas 17% do lixo era jogado em aterros sanitários, 120,78 crianças a cada mil morriam antes de completar cinco anos de idade.

Desde então, Manari tem passado por uma transformação que, aos poucos, tenta apagar o “troféu” nada ilustre. Investimentos públicos e privados ganham corpo e tentam reverter o quadro de abandono e da falta de perspectivas da população.

Educação e desenvolvimento –

Não tardou para que comitivas de políticos elevassem o município como a nova menina-dos-olhos do desenvolvimento. Projetos e mais projetos começaram a ser anunciados, desde o final de 2003 até hoje – muitos dos quais em caráter de urgência, outros mais similares às conhecidas promessas de campanha nunca cumpridas. Hoje, o improvável viajante encontra uma Manari revigorada. A alegria e as agruras do povo continuam presentes, mas o brilho nos olhos de quem, pela primeira vez, conseguiu fazer um curso de capacitação ou ter aulas de Informática, é visível de longe.

A educação sempre foi o maior problema de Manari, com aulas somente até a 8ª série do ensino fundamental. Quem se aventurasse a cursar o ensino médio (2º grau) tinha que pegar uma condução em péssimas condições até Inajá, o município mais próximo, pela estrada de barro e pedregulhos, regressando para casa somente no fim de noite. Hoje, a escola estadual voltou a funcionar, oferecendo o ensino médio e mudando completamente o ânimo dos jovens – que agora já não sonham tanto em juntar dinheiro para comprar uma passagem para São Paulo, como fizeram os seis filhos e quatro netos de seu Zacarias Araújo e Maria José de Araújo, com que conversamos durante nossa primeira visita, em 2004. “Ao menos isso a gente tem certeza que mudou. Os jovens não estão mais tão afoitos para se aventurar em São Paulo”, pondera Zacarias, que atualmente convive com a saudade de esposa que, por motivos de saúde, está com os filhos, na capital paulista, em fila de espera para uma cirurgia.

Diante dos números e da péssima repercussão do IDH-M, ano passado o governo de Pernambuco resolveu destinar mais recursos ao chamado Plano Integrado de Desenvolvimento Local — não apenas em Manari, mas para a região com 11 municípios de baixo índice de desenvolvimento humano naquela mesma área: Ibimirim, Inajá, Iati, Belas, Tupanatinga, Itaíba, Paranatama, Saloá, Terezinha e Caetés, a terra natal do presidente Lula. A gestão de boa parte do dinheiro e dos programas de capacitação ficou por conta do Projeto Renascer, uma autarquia vinculada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Cidadania. Esses programas são implantados por meio de uma parceria entre o Estado, organizações não-governamentais e empresas privadas, sempre voltados a jovens de 15 a 24 anos. São cursos de apicultura, piscicultura, horticultura, gestão de novos negócios, informática, teatro e agricultura familiar.

Dos programas listados, Manari já se beneficia de alguns. Até o final de junho deste ano, 70 pessoas foram capacitadas em teatro, piscicultura ou informática pelo Renascer. Outra parte dos jovens consegue viajar até municípios como Inajá, Ibimirim e Águas Belas, para fazer cursos como o de apicultura e agricultura familiar. No total, foram mil jovens capacitados pelo Renascer nos 11 municípios de baixo IDH-M que circundam Manari. Antes isolada dos dois lados pelas estradas de barro, Manari agora liga-se a Inajá por um asfalto limpo e liso. O asfaltamento do trecho do outro lado, de Itaíba a Manari, foi prometido pelo governo, mas até agora não há sinal de concretização. De acordo com o técnico do Renascer Gerson Victor, a obra já foi licitada e deve começar em breve.

SEM OBRAS, ÁGUA AINDA VALE OURO EM MANARI –

O pior e mais cruel problema de Manari (PE) é comum a centenas de municípios brasileiros: a falta de água. A isso, inclua-se a falta de saneamento básico. Políticos e população sabem que desenvolvimento de verdade só vai chegar à cidade quando sair do papel a instalação do sistema de abastecimento, que até agora custou aos cofres estaduais quase R$ 4 milhões. A obra, já licitada, aguarda apenas a adução para que a água chegue ao município.

Com o objetivo de reverter o problema, nos últimos dois anos foram instaladas centenas de cisternas para armazenamento de água para beber e cozinhar. Até 2004, havia apenas uma única grande cisterna disponível, em um ponto afastado da cidade, onde as pessoas iam buscar água logo de madrugada. Na opinião do instrutor de informática Luciano Viera da Cunha, “as promessas dos políticos parecem não ter fim, a gente já está desconfiando se a água vai chegar mesmo. Adiaram tantas vezes a ativação desses dois poços perfurados pelo governo que agora a população desconfia”, lamenta.

As críticas e investigações sobre a gestão pública no município também crescem. O tema, espinhoso, afugenta qualquer conversa na cidade. Para Gerson Victor e Raquel Bianor, que estão à frente do Projeto Renascer na região, é impossível lidar com o grupo político que domina a área desde a fundação de Manari. “Os recursos do governo federal passam pela Prefeitura, mas o dinheiro não chega aonde devia. Ficamos de mãos atadas. Existe toda uma estrutura política que apóia a pobreza e não é um problema isolado de Manari”, completam os técnicos.

O prefeito Otaviano Martins (eleito em 2004 pelo PHS, que depois trocou pelo PSDB) pouco aparece. A principal reclamação ouvida dos manarienses é, justamente, que ele nunca está presente. Procurado pela reportagem durante uma semana em Manari e mais duas semanas no Recife, onde, segundo o vereador José Eraldo, costuma passar um bom tempo, Otaviano não retornou os recados e não foi localizado na prefeitura nem por telefone. O ex-prefeito José Vieira Pereira era uma espécie de pai dos pobres. Dava cestas básicas a quem pedia, pagava carros-pipas e aparecia mais vezes no município. Não à toa, até hoje é chamado de “Santo Vieira” (ou simplesmente “Santo”), até mesmo por quem não simpatiza com a gestão anterior.

Fato é que ambos estão sob investigação do Ministério Público em processos de licitações e repasse de recursos federais. De acordo com o juiz da comarca de Ibimirim (que também responde por Inajá e Manari), Marcos Garcez, foram apreendidos inúmeros documentos em papel e discos rígidos de computador na prefeitura, em abril deste ano. O material está com o Ministério Público, mas ainda há outras comarcas envolvidas na investigação. “Meu sentimento, como juiz, e o máximo que posso comentar, é que a população de Manari é muito carente, qualquer agrado consegue voto. Nós sabemos disso, o problema é universal, mas acho que o Estado precisava ficar mais atento a esse lugar”, comenta Garcez.

“Ninguém tem coragem de bater de frente com boa parte do grupo político que domina essa área do baixo IDH, essa é a verdade. O povo fica acuado, com medo de represálias e até de morrer”, comenta Raquel Bianor, do Renascer. Em 20 de junho, uma nova comitiva de políticos esteve em Manari para divulgar os avanços e prometer mais desenvolvimento. Na presença do governador de Pernambuco, José Mendonça Bezerra Filho, o prefeito Otaviano Martins agradeceu a presença e assegurou que, se depender dos eleitores da sua cidade, “Mendonça será reeleito o governador de Pernambuco”. A presença de Mendonça Filho foi programada como uma prestação de contas das ações desenvolvidas, mas acabou sendo um argumento para mais promessas e assinaturas de ordens de serviço.

CONTRA POBREZA, CIDADANIA E INFORMÁTICA

O maior investimento em Manari (PE), desde que ela tornou-se conhecida como a de menor IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) do Brasil, é invisível às estatísticas, pois consiste na conscientização e mobilização da comunidade, avalia Raquel Bianor, técnica do Projeto Renascer que acompanha de perto os 11 municípios de baixo IDH-M na região. “Aos poucos, tivemos que quebrar a mentalidade de acomodação das pessoas, mostrar a necessidade de entrar nos cursos de capacitação que começamos a oferecer, de modo que todos entendam a necessidade de se tornar auto-sustentável, sem depender de prefeituras e governos”, comenta Raquel.

A mudança de mentalidade também é o principal fator de desenvolvimento listado pelo vereador José Eraldo da Silva, líder na Câmara dos Vereadores e uma espécie de conselheiro no município. “A gente sabe que ainda há muito para ser feito, mas Manari mudou para melhor. Por mais inusitado que seja, a divulgação da pobreza extrema para o resto do Brasil ajudou a trazer atenção”, considera.

O curso de informática da Telemar é um caso emblemático. O instrutor Luciano Vieira da Cunha ministra as aulas na Escola Maria Elzira, onde os alunos aprendem os softwares básicos e noções de pesquisa e cidadania pela internet. “A gente tenta mostrar que todos podem melhorar a cidade”, afirma. Até agora, o projeto da Telemar treinou 202 jovens. O laboratório conta com dez computadores, scanner, impressora, webcam e acesso dedicado à internet.

Foi a partir das aulas que o jovem Marciano Rodrigues, 16 anos, encantou-se com a informática e encantou a direção do Instituto Telemar. Com um trabalho sobre o município, o aluno e o instrutor foram levados pela empresa ao Rio de Janeiro para premiá-los no concurso anual de inclusão digital da Telemar. Como prêmio, Marciano trouxe para a casa uma TV de 20 polegadas (a primeira da família) e a certeza de que é possível mudar de vida.

As empresas e os agentes envolvidos apostam todas as fichas nos jovens que, rapidamente, se destacam nas atividades de capacitação e nos cursos. É o caso não apenas de Marciano Rodrigues, mas também de Valéria Fagundes, 18 anos, que recentemente completou um curso de arte-educação e é a principal representante do que se entende por teatro e poesia na cidade. Valéria admite que o foco sobre a falta de desenvolvimento em Manari terminou por trazer bons frutos ao município. Apaixonada por poesia desde criança, hoje é quase uma porta-voz de Manari. Em seus poemas, ela descreve os martírios e anseios da população, atividade que terminou lhe rendendo uma participação no documentário “Pro dia nascer feliz”, de João Jardim, que chega ao circuito comercial em setembro.

Desde que chegou em Manari, em 2003, uma das funções de irmã Marisé, da congregação Irmãs de Jesus na Eucaristia, parceira da Pastoral da Criança nos programas sociais do Banco Santander, é combater a desnutrição infantil de cerca de 800 crianças, de 0 a 6 anos, também em povoados vizinhos à zona urbana. “Pode parecer pouco, mas representa demais para essas pessoas. Também distribuímos a multimistura [farinha com alto poder nutritivo], escova, pasta de dente e fio dental, conscientizando as mães sobre a saúde bucal dos filhos, coisa que a maioria nunca ouviu falar”, conta, acrescentando que, com os recursos, hoje são pelo menos outros 1.600 jovens beneficiados com a compra de merenda escolar. Para ela, o problema de desnutrição infantil em Manari caiu 80%. “Quando cheguei aqui, não havia nada, parecia que nossas atividades não teriam resultado, era um desolamento só”, lembra, sem deixar de criticar o descaso da gestão pública.

Quatro turmas de alfabetização de jovens e adultos já se formaram, com a participação total de 1.125 estudantes, em uma articulação do Santander, do governo estadual e da Alfabetização Solidária. Em 2006, mais 375 alunos serão alfabetizados, contabilizando mais de 10% da população de Manari. O município ainda conta com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, inaugurado em 2004; e o Conselho Tutelar, em 2005.

Com tantas mudanças, uma realidade continua intacta: o excesso, quase inexplicável, de simpatia e hospitalidade dos manarienses. Poucos dizem que querem ir embora, mesmo que houvesse a oportunidade. E quem visita uma vez, quer voltar para continuar ouvindo as histórias de vida dessas pessoas que, apesar de todas as dificuldades, não perdem o sorriso no rosto.

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O jornalista Paulo Rebêlo e o repórter-fotográfico João Carlos Mazella foram enviados a Manari em uma iniciativa conjunta de Carta Capital e PrimaPagina.

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