PC popular , o Fome Zero da tecnologia

Paulo Rebêlo – rebelo@folhape.com.br

A novela do PC Popular está sendo reprisada. Desta vez, o novo projeto do Governo Federal se chama PC Conectado e tem como objetivo vender computadores a preços reduzidos para a população de baixa renda. O governo entra com subsídios e o comprador poderá parcelar o valor em até dois anos, em prestações que não devem ultrapassar R$ 50. Resta saber se vai dar certo. Afinal, não é a primeira vez que o Brasil tenta expandir o acesso à informática com programas populares. Confira o que está acontecendo e o que já aconteceu em programas estatais de popularização da tecnologia.

Governo tenta popularizar novamente

O governo trabalha com um prazo para o mês de março, mas o fato é que ninguém sabe ao certo quando chega, ou se vai chegar um dia, o chamado PC Conectado – a nova cria brasileira em matéria de computador popular para as massas. Com sistema operacional Linux e programas gratuitos de escritório, o PC deverá ter um custo final de R$ 1,4 mil. No início das negociações entre ministérios e empresas, durante o ano passado, a idéia era que o micro não ultrapassasse R$ 1 mil. O custo do equipamento deverá ser subsidiado pelo Governo Federal e a compra poderá ser parcelada em até 24 meses, ficando para o Ministério das Comunicações a tarefa de procurar formalizar acordos com as operadoras de telefonia para baratear o acesso à Internet. Uma das estimativas é de pagar R$ 7,50 para ter 15 horas de acesso por mês.

Abrir mão de tributos é por onde o governo pretende começar a trabalhar. Ao deixar de lado a arrecadação, deixaria de arrecadar cerca de R$ 160 em impostos, para um computador de R$ 1,4 mil, segundo cálculos do Ministério do Planejamento. O diretor do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), Sérgio Amadeu, parceiro do governo na empreitada, por enquanto diz que a alternativa é um equipamento com 128 MB de RAM, monitor de 15 polegadas e 26 programas diversos, entre editor de textos, calculadora, jogos, navegador de Internet, e-mail, ferramentas para Web etc. Ainda não há detalhes sobre o tipo de processador a ser utilizado.

Ao fazer as contas, não é difícil perceber que R$ 1,4 mil para um máquina “popular” tem um baixo valor agregado, para dizer o mínimo. Basta entrar em qualquer loja de informática e fazer uma configuração, para ver o tipo de computador que se compra com a mesma quantia. A Folha levantou o preço de um micro doméstico com configuração básica,
em lojas de “grife” do Recife. Com R$ 1,4 mil, você leva para casa um AMD Semprom 2200+ com placa de vídeo, modem, fax e rede integradas, 128 Mb de RAM, 40 Gb de disco rígido, monitor de 15, gravador de CD e kit especial com mouse, teclado, caixas de som e gabinete.

Acontece que o PC Conectado terá isenção de impostos, subsídios e uma série de outras regalias. Sem contar que ninguém ainda sabe como serão a garantia e a assistência técnica. O governo ainda não se pronunciou sobre CD e disco rígido, mas muita gente duvida que haverá gravador de CD. O disco não deve ultrapassar 30 Gb, mas já se fala em 20 Gb. Enquanto isso, o micro que sai da loja tem todos os impostos que incidem sobre as peças e nenhum subsídio. Onde estaria o “popular” do PC Conectado?

Evitar possíveis fraudes será o maior desafio

O maior desafio do governo é fiscalizar a devida aplicação do programa. Em outras palavras, ter cuidado para que o financiamento não seja vítima de ações fradulentas e que o PC chegue às mãos da população de menor renda. Resta saber se a fiscalização vai seguir os mesmos moldes da que ocorre nos programas Bolsa-Família, onde sempre há denúncias de fraudes e encaminhamentos duvidosos dos recursos.

O uso do software-livre, principalmente do Linux, é uma outra polêmica.É negócio abandonar o Windows em um computador supostamente popular? A bandeira do software-livre foi levantada pelo ITI, cujo diretor-presidente, Sérgio Amadeu, é figura conhecida nos
círculos de software-livre e um dos combatentes contra as negociatas milionárias da Microsoft com o governo. E deu certo, pois o Brasil é um parceiro de longa data da Microsoft, mas a credibilidade do ITI e de Sérgio Amadeu falaram mais alto. Será por isso que Lula não quis atender o pedido de um encontro a sós com Bill Gates esta semana no
Fórum Econômico Social, em Davos?

Pouco depois dos avanços no projeto do PC Conectado, a consultoria International Data Corporation (IDC) divulgou um estudo que indica um eventual aumento da pirataria caso o governo resolva adotar software livre no PC Conectado. O IDC tem como base a situação em países do sul asiático, como Malásia e Tailândia, onde programas governamentais de
incentivo ao uso do computador elevaram os índices de pirataria. O gerente da divisão de pesquisas de TI e Telecomunicações da consultoria, Ivair Rodrigues, explicou à imprensa o que aconteceu: “as pessoas compravam o computador [com Linux], mas tiravam o
programa no dia seguinte e instalavam cópias piratas de softwares proprietários”. No caso, o Windows.

A diretoria do ITI defende o uso do software-livre não apenas pelo fator custo, mas também pela facilidade. “O usuário não tem dificuldade alguma, o sistema é igual aos outros, as janelas, os ícones… é tudo muito simples, sem mistérios,” garante a assessora do Instituto, Denise Direito. De qualquer forma, oficialmente o governo não descarta parcerias com a Microsoft para o PC Conectado. A proposta da empresa de Bill Gates é adotar o Windows XP Starter Edition, uma versão reduzida do XP — com menos recursos e poucas funcionalidades — também alvo de críticas no mundo todo. É o mesmo modelo adotado em
países da Ásia cujos governos tenham projetos similares ao do Brasil.

Aliás, a parceria entre empresas privadas e governo é uma das apostas da consultoria International Data Corporation (IDC) e da Associação Brasileira de Software (ABES). As instituições pregam a livre competição entre fornecedores e a liberdade para o usuário escolher entre Linux ou Windows. A Abes ainda defende vários modelos de PCs Conectados,
voltados a vários tipos de público: usuário doméstico, profissional, pessoa jurídica etc.

Projeto precisa de mais reuniões

Procurados para explicar um único motivo concreto para que o projeto do PC Popular não afunde, como aconteceu outras vezes nos últimos anos em todos as iniciativas governamentais de inclusão digital, a direção do ITI disse que ainda não podia se pronunciar sobre detalhes “mais específicos, pois novas reuniões com diferentes esferas do governo precisariam ser feitas para se chegar a um projeto fechado”. Até agora, apenas detalhes rasos – como configurações “em aberto” e propostas com pouca fundamentação – são liberados à Imprensa.

A mesma novela já foi vista outras vezes. “Todas as iniciativas governamentais de inclusão digital, no Brasil, realmente não passaram de piada de mau-gosto, incluindo os Projetos
Livro Verde (do Ministério da Educação) e SOCINFO (do Ministério da Ciência e Tecnologia),” acredita o especialista em telecomunicações e webmaster do site Username:Brasil, Rogério Gonçalves. Crítico ferrenho do programa, Gonçalves aponta uma série de irregularidades no projeto do PC Conectado, mas não esconde esperança que dê certo, ao menos desta vez. “É uma iniciativa menos megalomaníaca do que as anteriores, mas ainda está longe de um modelo eficaz, como o CDI,” explica, referindo-se ao Comitê para
Democratização da Informática, com unidades em todo o Brasil.

Para Sérgio Amadeu, o papel do governo é fundamental para que o preço seja justo. “O governo precisa estar dentro para cumprir o propósito de promover a inclusão digital. Nossas pesquisas indicam que com a prestação em torno de R$ 50, o público-alvo chegaria a oito milhões de brasileiros; pagando R$ 70 por mês, o público cai para menos de dois milhões de pessoas”, revela.

Empresas se preparam para vendas

Como uma das ações do governo será conceder incentivos e subsídios para empresas que resolvam vender computadores populares a preços reduzidos, algumas empresas de informática já estão se movimentando para não perder o bonde do PC Conectado.

A Cobra Tecnologia já anunciou que irá produzir e comercializar cerca de 200 mil computadores populares em 2005.O único detalhe é que a Cobra é controlada pelo Banco do Brasil, um banco estatal. De acordo com o presidente da empresa, Leandro Vergara, embora ainda dependa de pequenos ajustes finais, a empresa já tem costurado o consórcio com os “parceiros industriais e de logística para se habilitar à operação do projeto PC Conectado”.

“Nosso PC popular está praticamente concluído e em bases bastante competitivas (abaixo dos R$ 1.500 estipulados como patamar para o PC Conectado), mas a definição final poderá sofrer modificações depois que o Governo Federal concluir as exigências para a concessão do subsídio”, afirma Vergara. Os PCs da Cobra serão equipados com sistema operacional Freedows, que inclui aplicativos de escritório – editor de texto, planilha, e-mail, navegador para Internet, editor de apresentações, entre outros. Acontece que o Freedows é desenvolvido pelo Freedows Consortium, um consórcio formado em parceria pela própria Cobra Tecnologia com a Free Software e a Associação Brasileira das Empresas de Software Livre – Abrasol.

Outras tentativas não deram certo

Um projeto de inclusão digital recente do governo brasileiro foi o dos Correios, em 2002. Queriam instalar quiosques para acesso gratuito à Internet nas 5.366 agências espalhadas em todo o Brasil, pelo qual o usuário poderia navegar de graça por apenas dez minutos e acessar a página institucional dos Correios antes de abrir outro site. Passados os dez minutos, a cobrança seria feita por minuto de acesso. Ganha um doce quem encontrar esses quiosques funcionando, hoje. Na época, foi investido aquele dinheirão em propaganda, como sempre.

O próprio conceito de PC Popular não é novo. Em 2001, ainda na gestão Fernando Henrique, o governo enterrou de vez a idéia de subsidiar e financiar um computador simples e barato para as massas. Na época, um dos integrantes do projeto original admitiu que a pressão
de grandes empresas aliou-se à inércia do governo e a produção do PC Popular não saiu do papel. A idéia era que o computador não fosse um modelo comercial como os que são vendidos nas lojas, mas sim uma espécie de “caixa” multifuncional com equipamentos desenvolvidos no Brasil, ao custo de R$ 500.

No início daquele ano, o governo anunciou que o PC Popular estaria pronto em até 120 dias e chegaria às escolas públicas e bibliotecas com sistema Linux, navegador Konqueror e um flash card para substituir o disco rígido, mas a um preço maior: R$ 600. Meses depois, a estimativa de preço subiu para R$ 950.No final daquele mesmo ano, ninguém falava mais em PC Popular.