O homem bonzinho e seus colóquios

Paulo Rebêlo // março.2005

É muito tênue, quase inexistente, a linha que separa um homem bonzinho de um homem tolo. Adjetivo este que doravante poderá ser substituído por mané, paspalho, inepto, insosso ou zé ruela. É comum generalizar que o homem bonzinho ‘nasceu ontem’ — uma expressão redundante para aqueles homens que só querem agradar. Porque é preciso ser bem inexperiente para não saber que homens a agradar demais sempre ganham um agrado na testa. Ou melhor, um par de agrados.


Compreensível. O homem bonzinho, quando se interessa de verdade por uma mulher [supostamente] interessante, faz exatamente tudo aquilo que ele aprendeu com a vida a não fazer: quer sempre agradar, fica sempre disponível, não questiona quando ela fala uma besteira fenomenal, sempre a leva até a porta do carro ou até a parada do ônibus, espera ela sair primeiro, pergunta se falta alguma coisa, se preocupa com o humor dela… e assim por diante. É um ciclo macho- suicida cujo resultado todo mundo conhece.

Não é consolo para os ineptos bonzinhos, mas em algumas situações eles nem estão, assim, tão interessados na criatura. Podem apenas apreciar a companhia, as idéias e a conversa. Afinal de contas, é cada vez mais difícil encontrar mulheres [supostamente] interessantes que consigam prender nossa atenção depois de uns três encontros.

Em geral, no primeiro elas discorrem sobre o trabalho delas, incluindo o histórico profissional e as promoções na empresa. No segundo, imaginam haver mais intimidade e nos relatam a vida pessoal, incluindo família, árvore genealógica e, eventualmente, o(s) filho (s). E o terceiro encontro a gente nem lembra mais, já que só vamos porque somos bonzinhos.

Evidente que esta não é uma regra, sempre há exceções. Às vezes, acontece de os colóquios esgotarem-se logo no primeiro encontro.

BAZÓFIA FEMININA –

A nosso favor, temos a desculpa de que o cinema, as mães e as revistas femininas sempre nos fizeram uma lavagem cerebral ao imputar a idéia de que mulheres gostam de homens bonzinhos. Uma grande farsa, a qual poucas admitem abertamente, não obstante todas reconhecerem publicamente.

A exemplo do que ocorre na dicotomia teoria x prática, descobre-se logo cedo na vida que a psique feminina funciona irracionalmente diferente do conteúdo evangelizado pela lavagem cerebral. Os tapas da vida servem para nos ensinar a não reincidir em erros assim, mas o homem bonzinho é ingênuo o suficiente para conceder ao acaso uma segunda chance. E uma terceira, uma quarta…

Tempos atrás, achava que minhas idéias sobre o ‘homem bonzinho’ fossem apenas frutos da ranzinzice incorporada com o passar dos anos, mas felizmente eu estava enganado. E nem foi preciso consultar os analistas do CRECA – Centro Rebelal de Estudos Comportamentais Avançados.

A prova está embaixo do nosso nariz –- e geralmente bem longe da nossa boca e a anos-luz da nossa cama. Basta perguntar, a qualquer amiga sua, quantas vezes ela teve paciência de se relacionar com um homem bonzinho. Depois, pergunte às amigas da amiga sobre quantas mulheres elas conhecem que se interessaram por um Zé Ruela sempre disponível, sempre agradável… sempre insosso.

SÍNDROME DA UTILIDADE PÚBLICA –

Como não se pode mudar a sinapse relacional das mulheres, o conselho para os paspalhos de plantão é um só: matriculem-se em um curso intensivo de canalhice. Não é difícil, de repente existe algo na sua cidade do tipo “aprenda a ser canalha em 7 dias”. A taxa de satisfação é de 99,9%. Não é total porque sempre vai ter um demente- agudo a não conseguir seguir a cartilha do sucesso.

Caso não exista um curso assim, una o útil ao agradável. Lembra daquele seu amigo que vive se dando bem com as mulheres e você nunca entendeu o motivo, já que ele as trata como uma pedra no sapato? Observe-o, peça umas dicas e conselhos. Pode até ser aquele arataca que chutou uma pedra que você acha(va) ser preciosa.

Não precisa se tornar um canalha, basta aprender a ser um. Pode ser a única maneira de você conseguir escapar de duas síndromes peculiares ao homem bonzinho: a síndrome do papagaio e a síndrome do padeiro, cujos detalhes veremos em uma próxima crônica.

Acontece que o homem bonzinho não é de todo inútil. Ele também tem um propósito louvável. É que as mulheres adoram fazer inveja às amigas quando estão com um homem bonzinho. Elas se juntam para conversar e a dondoca vai fazer questão de contar como os caprichos dela são atendidos, como o cara é carinhoso, prestativo e disponível. Então as amigas fingem que estão com inveja e ela finge que está bem na fita.

Ao final, todas vão para a casa e, no meio do caminho, a dondoca liga para aquele ex-alguma-coisa ou aquele amigo canastrão que a trata como pipoca murcha, mas sabe ‘passar-lhe um trato’ como ninguém. Certamente, um azeitador de maquinário* com certificado emitido pelo CRECA. Aí ele finge que gostou, ela finge que nunca mais irá fazer isso e todos voltam satisfeitos para casa.

Só quem não finge é o homem bonzinho, que a esta hora poderá estar em casa escrevendo alguma crônica para curar a insônia.

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