A indústria que copiava e o homem que calculava

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
julho 2005

Aqui na coluna, não cansamos de questionar e contra-argumentar o discurso das gravadoras sobre os “milionários” prejuízos decorrentes dos downloads via Internet ou da pirataria. Esta última, em suas mais variadas facções, da simples cópia entre amigos para conhecer um produto novo (pirataria?) até as próprias redes profissionais de distribuição e comercialização, uma situação comprovadamente predatória. Já comentamos sobre a falácia do chamado prejuízo, que é baseado em uma perda de lucro presumida. Em um sentido ainda mais amplo, poderíamos citar o outro lado da presunção: o crescente lucro das gravadoras a partir de outras mídias e serviços, graças à Internet e aos meios digitais de propagação de conteúdo.

Em outras palavras, enquanto a indústria demoniza o MP3 e as redes de troca, esquece de avisar aos consumidores que, justamente por conta das novas tecnologias, a sociedade adquire novos costumes, novas culturas e, a partir delas, passa a comprar outras mídias e serviços antes inexistentes. E como novidades são sempre mais caras – um princípio básico da ciência econômica – não é de se espantar que o lucro oriundo dessas novidades seja maior do que os serviços de antigamente, como é o caso do simples CD de áudio.

Uma das novas fontes de renda é o DVD-Áudio, tema abordado inicialmente no mês passado, quando prometemos falar um pouco mais sobre o assunto hoje. A comercialização de DVDs musicais cresceu em ritmo espantoso, a ponto de surpreender até os mais otimistas engravatados da indústria. Ninguém sabe explicar exatamente o motivo, pois, afinal de contas, o disco não acrescenta verdadeiramente muita coisa além de imagens à música. Antigamente, havia nichos de mercado nos quais as pessoas compravam shows das bandas em VHS (videocassete), mas eram nichos: fãs, pesquisadores etc. Por uma lógica rasteira, o mesmo deveria acontecer com os shows e apresentações em DVD.

A lógica cultural, contudo, falhou. Porque mudaram os conceitos sociais de consumo, mudaram os gostos. E, hoje, shows em DVD fazem este sucesso inesperado e geram os crescentes lucros que compensam, de longe, qualquer prejuízo “presumido” por causa das mesmas novas tecnologias que a fazem recompensar. E, como habitualmente acontece, o consumidor paga (caro) por um produto de qualidade inferior, pois os discos com shows vendidos no Brasil, em sua grande maioria, poderiam comportar bem mais conteúdo e extras. Na prática, ao comprar você leva para casa apenas um show e, eventualmente, um extra aqui ou outro ali. Sem maiores diferenciais. Mesmo assim, tá vendendo feito água.

De acordo com dados do próprio mercado, enquanto a vendagem de CDs caiu em cerca de 45% nos últimos cinco anos, neste mesmo período a venda de DVDs musicais cresceu 1.340%. Nunca fui bom em matemática, era sempre reprovado na matéria durante quase todo o colegial, mas não é preciso saber equação para perceber a inequação que é a diferença entre a teoria e a prática. O problema é que, neste caso, a prática nunca chega aos olhos e ouvidos do consumidor, que se sente cada vez mais culpado quando compra um CD pirata de cinco reais, por não ter dinheiro (e alienação) para comprar a mesmíssima coisa por 35 reais.

NOVOS TEMPOS, VELHAS TÁTICAS –

Não tem jeito. A Terra gira, o tempo passa, mas se nem a poupança Bamerindus continuou numa boa, também não surpreende que a indústria fonográfica siga estratégias idênticas de mercado para empurrar produtos. Sobre o DVD com shows, vejamos um exemplo notório ocorrido em dezembro de 2004, véspera de Natal e Réveillon. Os fãs do Rei Roberto Carlos que foram comprar o costumaz disco fim-de-ano da majestade, foram obrigados a levar para casa o kit completo: CD e DVD, pagando cerca de 65 reais. Precisa dizer algo mais?

O DVD de áudio está no mercado brasileiro desde 1997 e, durante o ano 2000, vendeu 500 mil unidades. Em 2004, este número subiu para sete milhões, de acordo com estimativas do próprio mercado. No ranking de vendas, em 2003 o Brasil era o 9º colocado mundialmente; hoje, disputa o quarto lugar com o Reino Unido, perdendo apenas para Japão, Estados Unidos e Alemanha. Para as gravadoras, o DVD musical já responde por quase 30% do volume de vendas. Segundo levantamento feito pela Folha de S. Paulo, no início deste ano, o DVD mais vendido no Brasil foi o de Ivete Sangalo, com 350 mil cópias. O “Ao Vivo”, do Fundo de Quintal, vendeu mais DVDs do que CDs, chegando a 80 mil unidades comercializadas. A propósito, não faço a menor idéia o que é, ou quem é, Fundo de Quintal.

Também com a música, ocorre situação similar aos filmes em DVD: às vezes, o consumidor se interessa mais pelos extras do que pelo conteúdo “principal” em si. Há dois tipos de DVDs musicais no mercado. O DVD padrão com 4.7 Gb de espaço (DVD5) e o com 9 Gb (DVD9). Este último é o que consegue comportar a maior quantidade de extras. Para os piratas de plantão, é mais fácil fazer cópias do DVD5, enquanto o DVD9 ainda consegue se libertar um pouco da síndrome caolha. E é este o motivo que faz a indústria começar a olhar com bons olhos o acréscimo de extras e, consequentemente, a venda de mai discos do tipo DVD9. E não o anseio do consumidor pelos extras. Nada muda.

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