Sociedade bundalizada

Paulo Rebêlo // julho.2005

Não são apenas as mulheres interessantes que estão em extinção. Pessoas interessantes também. A sociedade está, cada vez mais, preocupada em seguir à risca certos padrões uniformes que não são nossos, são dos outros. Roupas, comportamentos, utensílios e até mesmo palavras precisam se enquadrar em um ambiente padronizado, limpo, politicamente correto, moderninho e eventualmente cult. Um tédio, o qual acaba por gerar pessoas tediosas.


Podemos enveredar pelo caminho pseudo-intelectual e afirmar que nada disso é novidade. Seria apenas a concretização do pensamento máximo de Jung: o ápice do inconsciente coletivo, conceito o qual tanto difundiu aquele cidadão. Em outras palavras, hoje somos protagonistas deste inconsciente coletivo total, submersos em uma bolha de inapetência humana.

Traduzindo a frescura: estamos todos virando uns bundas. Perdemos a noção da individualidade humana, nos rendemos a toda essa bundalização, que vem sabe-se lá de onde, para nos transformar em zumbis do cinema de George Romero. A bundalização da sociedade está em todas as classes sociais e esferas profissionais.

Ser honesto não é mais algo a ser valorizado. Sinceridade agora atende pelo nome de grosseria, principalmente quando nos pedem opinião e a gente diz que aquela camisa verde-limão está ridícula e que aquela calça acochada faz você parecer uma sirigaita. Por sorte, os urbanóides nem lembram mais o que significa ‘sirigaita’.

Ser objetivo é tido como ser simplista demais, por mais simples que as respostas sejam. Como um sonoro “eu detesto Caetano Veloso” ou “eu adoro Roberto Carlos, e daí?”. Porque Caetano é cult e o Rei Roberto é brega.

Tomar uma cerveja na hora do almoço é pecado mortal, porque não se pode beber no trabalho – mesmo o nome sendo ‘hora de almoço’ e não ‘horário de expediente’. Mas fumar um baseado pode, porque maconha é subversão e representa a liberdade, a revolução social.

Rir sempre foi o melhor remédio, comprovado cientificamente; e bom humor sempre foi um quase-sinônimo de inteligência, também comprovado cientificamente, mesmo que poucos zumbis tenham lido algo sobre o assunto. No entanto, para os bundas falantes, rir tornou-se uma erva daninha. Porque a gente não pode mais usar nossa sinapse para rir de piadas sobre negro, puta, gordo, velho, argentino, cego e leproso. É incorreto e preconceituoso.

Porém, pagar vinte reais numa zona de baixo meretrício e deixar um cego atravessar a rua sozinho, parece não ter nada de preconceito. Enquanto rir da desgraça alheia, do tipo “pobre só vai pra frente quando dá topada”, é proibido. Porque o tal do Deus castiga. Mas responder “tô sem trocado” quando um guri esfomeado vem lhe pedir dez centavos, não tem problema. Porque a culpa não é nossa e o mesmo tal de Deus escreve certo por linhas tortas. Se até a igreja diz isso, então tudo se perdoa.

E se começam a falar de religião, ninguém agüenta quando a gente diz que Jesus te ama, mas ninguém te come. Porque meu tataravô já dizia, e certamente o tataravô dele também já dizia, que as mulheres são como o vinho: com o passar dos anos, umas se tornam ainda mais doces, enquanto outras azedam. As que azedam é por falta de rolha. Todas elas sabem disto. Ah, os vinhos…

A bundalização da sociedade aproxima-se do ápice total. Será quando teremos um aparelho para medir o nível de qualidade dos nossos diálogos. Uma espécie de corretor ortográfico-falado que irá marcar de vermelho as palavras proibidas, que nem o Word em que digito estas linhas grifou de vermelho a palavra ‘puta’.

P-u-t-a. PUTA. Puta, puta, puta.

Desisto.

Haverá manuais de conduta para o trabalho e para os ambientes de lazer. Hoje em dia, acho que nem em casa temos liberdade, porque a mulher da gente também pode acordar transformada em uma dessas bundas falantes. Logo ela, que nunca quis dar [para mim] a dita cuja.

Não sobra nem a privacidade do banheiro. Porque se a gente resolver cantar “Eu não sou cachorro, não” do Waldick Soriano ou “Pare de tomar a pílula” do Odair José, duas canções supra-sumo da vanguarda, os vizinhos vão escutar e a ambulância do manicômio vai estacionar em frente de casa para procurar o retardado.

Tem solução? Assim como os zumbis de George Romero e sua trilogia dos Mortos-Vivos, a única saída é mesmo um tiro de .12 no meio da testa para segurar. E depois ainda perguntam por que eu bebo…

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