Como acabar um relacionamento

Paulo Rebêlo // fevereiro.2005

Existem centenas de livros sobre sexo, manuais da conquista, dicas para arrumar namorado(a) e até magias e produtos que garantem deixar qualquer uma apaixonada por você. Nessas horas, todo mundo é Dom Juan e diva da MPB. Arrumar namorada é fácil; esposa, mais fácil ainda. Difícil é pular fora, jogar a toalha branca, acabar o relacionamento sem aquele peso na consciência, sem o peculiar sentimento de culpa e a estranhasensação de fazer o papel de mentecapto da história.


Adiamos o anúncio fúnebre durante meses, às vezes por anos. Adiamos tanto que até “esquecemos” de acabar, para ver se a outra pessoa cria juízo e resolve a situação. Tem gente que acaba com uma facilidade tremenda. Outros, manteigas derretidas, não conseguem sequer inventar uma viagem para pensar um pouco.

Não dá mais para dizer “vou ali comprar cigarro” e sumir do mapa. Tem e-mail, rastreamento por satélite, e-CPF, rastreador eletrônico, identificador de chamadas e até consulta ao Imposto de Renda pela Internet. E os amigos da onça, claro, que sempre fazem questão de dizer para a dita cuja como você está bem… e bem acompanhado, eventualmente.

Com o intuito de facilitar a sua vida, o Centro Rebêlal de Estudos Comportamentais Avançados (CRECA) preparou mais uma iniciativa de inutilidade pública. Um breve guia de como tirar o seu da reta e fazer com que a outra pessoa acabe o relacionamento. Livrando você de todo o peso na consciência e, quem sabe, até lhe transformando em vítima.

O segredo maior é nunca ser o responsável pelo decreto final. Você pode até propor o fim do relacionamento, mas nunca fique com a última palavra. Para chegar a este objetivo supremo, a receita é simples. Puxe-a para conversar e dê uma rápida aula de história, bem fundamentada cientificamente. Nossa equipe de cientistas-papudinhos explica.

A aula de hoje é sobre monogamia. Explique assim: sobre o atraso que a monogamia representa para a sociedade pós-pós-moderna. A monogamia está se convertendo em uma falácia na qual as pessoas fingem que acreditam, somente por tradição. Vejamos as provas concretas.

METALINGUAGEM RELACIONAL

Em uma análise metafísica, o prefixo ‘mono’ sempre representa o atraso.

Na aresta musical, antigamente a gente escutava tudo em monoural. Ou seja, o som saía por apenas um canal, geralmente abafado. A tecnologia chegou e inventaram o estéreo, dois canais a proporcionar um som mais puro e refinado. Hoje, dois canais é motivo de piada. Os aparelhos vêm com múltiplas saídas de áudio e as placas de som, no computador, trabalham com mais de 100 canais. Sistemas de home-theater, sonhos de consumo, usam sistemas 5.1 – cinco saídas principais e uma reserva no centro – ou até 7.1. Quem quer voltar ao mono? Jogue fora aquelas caixinhas fajutas.

Na informática, antes não existia monitor colorido. Parece que foi ontem, mas há dez anos a gente digitava textos em monitor preto-e-branco, cujo nome técnico é monocromático (radiação com um só comprimento de onda). Os monitores coloridos, caríssimos, eram policromáticos – vários comprimentos de ondas, resultando em várias cores. Usava-se telas monocromáticas porque era o jeito, não havia alternativa. Quando o policromático tornou-se comum, barato e padrão, tornou-se um dos grandes saltos da computação contemporânea.

Na economia, há décadas que as monoculturas não atendem mais as necessidades do mundo globalizado. Durante séculos, os países gerenciavam extensas porções de terra dedicadas às monoculturas, situação a qual um único produto é cultivado. Como o café ou o açúcar, no Brasil. Os visionários entenderam que, com a abertura dos mercados globais, manter a cultura de produto único seria suicídio. Quem aderiu à policultura se deu bem e tem rios de dinheiro até hoje, repassando para filhos, netos, bisnetos, tataranetos.

O Estado de Pernambuco, nacionalmente conhecido como referência da monocultura de cana-de-açúcar, está com uma economia joinha-joinha que vocês podem ver nos jornais. Santo retrocesso. E o Governo Federal não cansa de propor novos subsídios e projetos aos senhores da cana. É como uma terapia para pessoas monogâmicas, que vivem complexadas e desesperadas atrás de uma aventura. De uma folga.

Na engenharia elétrica, as ligações monofásicas são tidas como atrasadas. Residências razoavelmente recentes usam ligações trifásicas, pois levam energia de forma otimizada e ainda reduzem o consumo ao final do mês. Evidente que a maioria das residências usam ligações monofásicas. Gastam mais e vivem com problemas de quedas.

Na aviação, ninguém tem coragem de andar em aeronaves monomotor. O motivo é simples. Quando uma turbina falha, o monomotor não tem reserva. Pifou, caiu. O mínimo de segurança você encontra em aviões com ao menos duas turbinas, bimotores. Sempre há a reserva de emergência, quando a outra turbina falhar – ou passar 40 dias com dor de cabeça.

Lembro das inúmeras vezes que reclamaram comigo por ser ‘monossilábico’. Inúmeras. Então, o jeito é ser polissilábico. Você agüentaria sair com uma pessoa monotemática? São aquelas que só sabem conversar sobre um único tema. É claro que não. Pessoas interessantes são pessoas politemáticas e polivalentes, porque ser monovalente (ter apenas uma valência) não está com nada. Uma pessoa que só tem uma única qualidade, presta?

Na psicologia, existe um bagulho chamado monofobia. Trata-se de horror mórbido à solidão, uma espécie de pré-depressão profunda. Bom, ninguém quer sofrer e entrar em depressão, então é melhor fugir da monofobia. Estamos cansados de ver gente casada e infeliz.

Nos estudos de lingüística, os monoglotas são recusados. As pessoas admiram os poliglotas, aqueles que falam mais de um idioma. E apenas dois idiomas não está com nada, porque até cachorro late em inglês. Precisa saber, pelo menos, dois idiomas e um terceiro de reserva, para quebra-galho.

No convívio social, ninguém gosta de ficar falando sozinho, quer dizer, de praticar monólogos. Monólogos são terríveis. E você já ouviu o termo monoplégico? Que nada, a gente só escuta tetraplégico. No capitalismo, o monopólio é nocivo às economias. Até o oligopólio não é bem visto. O ideal é a chamada concorrência perfeita ou concorrência saudável, sem monopolização dos mercados.

EXTREMA-UNÇÃO RELACIONAL –

Caso você tenha o infortúnio de namorar ou estar casado com uma pessoa religiosa-praticante, não se desespere. O núcleo avançado do CRECA está aqui para ajudar. Agora que o Papa subiu no telhado, pode até ser uma boa alternativa apelar para o aspecto religioso durante sua aula.

É que os religiosos não aceitam o monofisismo, aquela doutrina na qual existe uma única natureza para Jesus Cristo, vulgo JotaCê. O monofisismo prega que JotaCê era apenas homem, não tinha nada de sobrenatural, de deus ou espírito santo. O catolicismo não leva o monofisismo em consideração e coloca JotaCê como integrante de uma tríplice aliança. Precisa de mais argumentos?

Se precisar, vamos a eles.

Caso a cidadã seja atéia ou cética extremada, você pode citar o monoteísmo – a crença em um único deus. Veja o exemplo dos japoneses. São xintoístas desde sempre e fazem parte de uma elite econômica e tecnológica. Xintoísmo é a crença em vários deuses – do ar, da terra, do fogo etc. É uma religião anterior ao budismo. Bastou a conversão monoteísta ganhar fôlego nas décadas de 70 e 80 para a economia japonesa quebrar, na década de 90 (1997) e levar todo mundo junto.

Você ainda pode questionar: e se a gente acredita em apenas um deus, onde entram os orixás? E o que vamos fazer com todo aquele blá blá blá de Sérgio Buarque de Hollanda, Paulo Freire, Marilena Chauí e outros intelectuais defensores da identidade brasileira? Até o Ministro canta para os orixás. E aquela oferta para Iemanjá, fica para o santo?

A aula poderia seguir adiante mas, de acordo com os estudos de campo realizados pelos apóstolos da Seita do Frei Ranzinza (A Seita Cheque), a essas alturas o seu relacionamento já estará acabado, digo, solucionado.

Atenção ao epílogo. Se a criatura for leitora dos pergaminhos sagrados do Frei Ranzinza, ela poderá responder: “querido, enquanto você fazia cursinho para esta aula, eu estava terminando minha tese de mestrado”. Cumprimos nosso objetivo: você ficou sozinho e ainda saiu como vítima.

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