Perdão de pecador

Paulo Rebêlo // janeiro.2005

Naquele 31 de dezembro, Melancia finalmente teria uma tarde de alforria para tomar um aperitivo com os amigos. Fazia tempo que não encontrava os papudinhos do bairro, pois o trabalho o consumia quase por completo e, ao chegar em casa, tinha os guris e a esposa para gerenciar.


Véspera de réveillon, estava afoito. Não pela festa, mas porque a esposa avisara que não queria o marido em casa atrapalhando o trio faxina-arrumação-decoração para os festejos do vindouro ano. Até que enfim, Melancia ia tomar uma cerveja conosco, para fazermos uma espécie de retrospectiva etílica.

No Bar do Bíu, solteiros e casados compartilhavam os aperitivos e as louras geladas, enquanto o resto do mundo se preparava para a festa da virada. Como de praxe, o tempo foi passando, o álcool subindo e os papudinhos, não tão profissionais como Melancia, foram indo embora.

Bíu, o dono do bar, conhecia o cliente especial e sempre sentava para tomar um aperitivo com ele quando o local esvaziava. A esposa de Melancia odiava Bíu. Ela sabia que, quando este sentava para abrir os trabalhos etílicos com o marido, a brincadeira só acabava pela manhã.

Não deu outra. Anoiteceu. Ambos embriagados até o talo, rindo à toa e lembrando das aventuras do passado. Melancia não queria ir embora, a festa de réveillon ia ser o tédio de sempre, mas viu-se obrigado a partir quando a esposa de Bíu, devidamente armada com uma vassoura, chegou de supetão no bar.

Ela desligou o freezer, apagou as luzes, fechou a grade do boteco e arrastou Bíu pelos braços. Olhou para Melancia com desdém e disse: “caba safado, já saiu de casa todo de branco… tudo programado, já sabia que ia ficar bêbado e vai chegar com esse bafo de cana! Tenha vergonha, homem de deus”!

Ao ouvir o esculacho, Melancia baixou a cabeça e pediu perdão. Pediu perdão aos céus por ter se casado com uma megera parecida à esposa de Bíu. Pediu perdão pela filha também, pois certamente ela haveria de ficar parecida com a mãe.

Bíu e a megera foram embora, enquanto Melancia deu início ao retorno para casa, completamente bêbado e apreensivo com o horário. A casa dele ficava a apenas dez minutos dali, andando.

Acontece que o bairro não era um modelo de segurança urbana. Nem tinha dado meia-noite, mas as pessoas começaram a soltar uns fogos de artifício. O coitado pensou que fosse bala e se jogou no chão, caindo dentro de uma poça de lama.

Não sabia o que fazer. Seria complicado chegar em casa daquele jeito. A mulher não ia acreditar na história. Logo ela, que tanto se dedicou para arrumar e decorar a casa com faixas “viva 2005″… Melancia não podia decepcioná-la, apesar de estar ciente da hipocrisia daquilo tudo.

Foi quando surgiu a brilhante idéia de pedir ajuda ao Tomate, outro papudinho cuja esposa era gente boa e ia entender o martírio de Melancia. Chegou na casa do Tomate, contou o ocorrido. Deram toalha, sabonete, escova de dentes, Halls (preto) e roupas limpas para o nosso amigo, que ficou feliz feito uma criança. Tomou banho e se mandou para casa, cheiroso e pomposo.

Durante o caminho de casa, lembrou de que tinha poucos amigos papudinhos profissionais, mas os que tinha valia por todo o resto. Agradeceu por conhecer o Tomate e a esposa dele, uma papudinha de primeira. Lembrou de outro amigo, um baixinho, redondo e super ranzinza, que às vezes aparecia no Bar do Bíu e com jeito profético costumava dizer: “Melancia, nunca confie em mulheres que não bebem”.

Até aquele dia, Melancia não entendia o sentido da profecia. Sempre questionava o Super Ranzinza sobre o assunto, de não confiar em mulheres que não sabem beber.

Ao chegar em casa, faltavam apenas cinco minutos para a virada. Feliz da vida, Melancia correu para o quintal, onde todos estavam reunidos, abraçou os guris e foi dar um beijo na mulher. Ela virou a cara, olhou Melancia dos pés à cabeça e surtou. Parecia o capeta de saias. Esculhambou o pobre Melancia e, aos berros, questionou: “quem era a rapariga que estava com você agora??? Vá, diga! Diga, cachorro!”

Para Melancia, o céu se abriu e a profecia tornou-se clara como uma Pitú. A megera de Bíu, depois de ter visto Melancia bêbado uma hora antes, correu ao telefone e ligou para a esposa dele, dizendo que o dito cujo já estava a caminho e ia chegar sujo e com bafo de cana em vinte minutos.

De acordo com o relato dos ali presentes, o surto da mulher foi mais ou menos assim: “que cheiro é esse no seu pescoço? Seu safado! E ainda usa o perfume dela, tenha vergonha! Cachorro! Podia ao menos ter disfarçado! Quem é essa rapariga?? Cachorro carcamano!”

Sem palavras, Melancia apenas baixou a cabeça. Baixou a cabeça e pediu perdão aos céus. De novo. Saiu de casa e foi andar pela rua. Ao longe, viu o Bar do Bíu e tomou um susto. Uma luz estava acesa. Não podia ser. Apressou o passo em direção ao bar e, a medida em que se aproximava, foi vendo uma imagem redonda, pequena, meio careca e uma garrafa de cerveja.

Chegou e encontrou o Super Ranzinza. Perguntou:

– Cadê o Bíu?
– Tá na coleira em casa, mas emprestou a chave do bar e do freezer.
– Você não vai festejar o ano novo, Super?
– Quando é isso?
– É hoje, mané!
– E é? Não sabia. Mas o que hoje tem de especial em relação à ontem?
– Sei lá. Acho que nada.
– Então senta aí e vamos tomar uma em homenagem a esse tal de ano novo, o freezer tá liberado e eu trouxe um resto de miúdo de galinha e farinha.

Daquele dia em diante, Melancia nunca mais confiou em mulheres que não sabem beber.

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