Saudosa Maloca

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
Dezembro 2004

Criou-se um senso comum, entre profissionais de tecnologia da informação (TI) e setores da indústria de tecnologia, de que em pouco tempo será meio proibido falar de MP3. A celeuma provocada pelas gravadoras cresce tanto, de forma tão descabida e descontrolada, que poderá soar como proibitivo ou aético falar de MP3 como forma de compartilhar e ouvir músicas pela Internet. Em outras palavras, falar abertamente sobre o assunto vai se tornar politicamente incorreto.

Exageros à parte, ao prestar atenção na quantidade de pesquisas inócuas divulgadas todo mês na imprensa, sobre venda de CDs e como o MP3 afeta o comércio, não é de se duvidar de um cenário assim em um futuro breve. Junte com a quantidade de processos judiciais envolvendo usuários, a anti-propaganda maciça sobre os malefícios do download de MP3 e pronto, temos um cenário mais ou menos formulado.

Ao chegarmos nesse ponto, iremos falar de MP3 com aquela nostalgia característica de amores passados, de quem passou por uma fase na vida que a geração atual nem sonha em passar. Particularmento, já me sinto nostálgico. Talvez seja um defeito pessoal (dentre tantos), sempre carrego nostalgias antecipadas. Se não fosse pelo MP3, hoje meu gosto musical – e certamente o seu também – seria bem diferente. Para pior.

A exemplo da maioria das pessoas que dependem das gravadoras e das lojas para conhecer as novidades no mercado de música, sem o advento do MP3 eu também estaria ilhado, alienado e desiludido com as opções habituais gentilmente ofertadas pelas gravadoras.

Talvez, se tivesse escolhido outra profissão, tivesse dinheiro para comprar muitos CDs importados pela Amazon e conhecer novas vozes. Como nunca foi o caso, devo agradecer a usuários do mundo todo que colocaram MP3 na Internet com músicas de seus países, bandas excelentes até então desconhecidas (algumas ainda hoje desconhecidas), vozes espetaculares e, o melhor de tudo, coletâneas que nunca chegaram às lojas e gravações não-oficiais, as chamados bootlegs.

A primeira MP3 (a gente nunca esquece…) que chegou a meus ouvidos foi em meados de 1997. Há sete anos, enviar um arquivo de 3 Mb pela Internet era um extermínio de paciência, um absurdo. Um colega enviou a bendita, baixei o Winamp, escutei e perguntei: “e daí? Não dá para escutar CD comum pelo computador também? Qual a diferença?

Do topo da minha costumeira lentidão de raciocínio, só uma ou duas semanas depois, ao estudar um pouco o formato MP3 e como houvera sido criado, é que comecei a entender a mudança de paradigmas que estava causando em usuários de Internet e como aquilo poderia beneficar muita gente, não apenas usuários comuns, mas inclusive os artistas.

Em fevereiro de 1998, poucas pessoas no Brasil ainda se davam conta da maravilha que existia nos confins da Internet. E mesmo as que conheciam, nem todas tinham paciência de esperar o download de 3 Mb para cada música, usando modem de 28.8k e com a linha telefônica constantemente caindo. Naquele mesmo mês, resolvi fazer um guia didático para loiras sobre MP3, com um panorama geral sobre o formato e dicas de programas para ouvir as músicas e “ripar” os CDs de casa para o computador.

PEREGRINAÇÃO MUSICAL – Ainda no início de 1998, conheci a cantora que se transformaria na minha paixão (musical) até os dias de hoje: Sarah McLachlan, uma canadense linda. Não foi por conta do MP3, na verdade. Uma amiga viajou para França e voltou com o CD e, por acaso, me emprestou. Gostei, “ripei” para o computador e fiquei escutando. Só depois de um certo tempo (a lentidão de raciocínio…) é que me dei conta que poderia haver MP3 da cantora soltas pela Internet. Foi amor à segunda audição. Hoje, Sarah McLachlan é até razoavelmente conhecida no Brasil, mas não de nome. As pessoas reconhecem uma ou duas músicas, talvez porque foram temas de filmes famosos, mas dificilmente a reconhecem. Não é um CD que você irá encontrar em qualquer loja.

Em 1999, com a turnê Mirrorball, Sarah rodou o mundo e lançou o CD de mesmo nome. Este álbum é o CD que mais escuto, principalmente viajando de carro. Sem dúvida, é o melhor álbum da cantora, que inventou de ser mãe e passou quase três anos sem gravar. Para quem também gosta da criatura, fica a dica: ano passado ela lançou um novo álbum, chamado de Afterglow. Como fã fuleiro que sou, só fiquei sabendo este mês. Vale a pena. Dicas para marinheiros de primeira viagem: escutem as músicas Adia, Sweet Surrender e Building a Mistery, que são de três fases diferentes da cantora.

O bom e velho jazz. E o jazz contemporâneo, tão bom quanto. Onde mais iríamos encontrar tantas coletâneas, misturas e gravações extra-oficiais sem o MP3? O que seria de mim sem conhecer Lisa Ekdahl? Talvez na sua cidade seja fácil encontrar um CD desta garota, mas por aqui já rodei tantas lojas e terminei desistindo. Viva o MP3. Hoje indico para todo mundo e já perdi as contas de quantas pessoas compraram álbuns dela após escutar uma ou duas músicas. A voz dessa moça da Suécia é fantástica e, apesar de não entender absolutamente nada das músicas cantadas em sueco, não canso nunca. Dica: procurem pela música Vem Vet. Desde 2002 que não há novidades no site oficial de Lisa Ekdahl, inclusive sobre o lançamento de novos álbuns. Será que ela inventou de ser mãe? Essas mulheres…

Há também as coleções de álbuns em MP3, que você nunca irá encontrar nas lojas, do tipo “downtempo”. São músicas ambiente, bem populares em casas noturnas européias. Também são conhecidas como “lounge music”. Há coleções como Blue Room, Ultra Chilled, Perfecto Chills e assim por diante. Para continuar na peregrinação, você vai encontrar músicas do Iraque, Cuba, China, Japão, Indonésia e tantos outros países exóticos cujos CDs nunca chegarão às suas mãos.

Aliás, o motivo de escrever esta coluna tão nostálgica foi depois de fazer o download de uma coletânea de jazz que um cara preparou e jogou na Internet. Aqui, abro um parênteses. Quando um colunista diz que baixou MP3 da Internet, você não está se sentindo meio receoso, desconfortável? Está ficando mesmo politicamente incorreto.

Fato é, frescuras à parte, esta coletânea tornou-se uma de minhas maiores relíquias musicais. São cinco CDs, cada um dividido por uma linha de tempo. Os jazz de início de século, o da metade do século, do final, o contemporâneo e um outro que agora nem lembro. E foi nesta coletânea que escutei a música, não foi “uma” música, mas a música que me fez começar a gostar de verdade de jazz, ainda em 1993.

Naquele ano, e nem parece que já são dez anos passados, eu era um pouco mais alienado do que hoje. Por acaso esqueceram em minhas mãos comigo um CD chamado ‘The Best of Blue Note vol.1’. Nunca mais quis devolver. Tive que devolver, nunca encontrei para vender em lojas e me dei por vencido. Havia uma música em especial ali que até hoje me tira suspiros e, apesar de usar Internet há tanto tempo, nunca encontrei para baixar em MP3. O Blue Note não havia sido, de fato, o primeiro contato com o jazz, foi apenas o mais importante e o que me fez sair procurando MP3 feito doido pela rede. O primeiro contato, lembrando agora, foi pelo filme Blue Ice, de 1992, com o sempre-espião Michael Caine e a sempre linda Sean Young.

DOIS ANOS – Na época de colégio, sempre fui reprovado em matemática e até hoje não sei passar troco direito, mas se minhas contas não estão erradas, estou completando o segundo aniversário na coluna Música & Internet aqui na Backstage. Os parabéns não são para mim, mas para a editora Denise de Almeida que (graças a mim) deve estar aprendendo a ter paciência digna de monge budista por conta dos meus atrasos na entrega da coluna; e parabéns aos leitores, que até hoje não estão reivindicando ao Nelson a expulsão deste lento signatário.

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