Ranzinzamente correto

Paulo Rebêlo // fevereiro.2004

O mundo ficou muito mais chato depois que inventaram o tal do politicamente correto. Que nada mais é do que uma expressão perfeitamente tucanada para os pseudo-moralistas de plantão levarem tudo a sério. Não se pode mais contar piada de gays, virou preconceito. Brincar com o excesso de emotividade das mulheres agora é machismo. E conversar sobre mulheres boazudas e bundudas é sexismo.


Por mais que os termos “piada” ou “humor” apareçam, o zé mané politicamente correto sempre dá um jeito de ignorá-las e aproveita para exercer toda labuta intelectual que lhe convém. Em geral, funciona para esconder o próprio racismo, machismo, sexismo e outros ismos.

Para as mulheres, parece fácil conviver com toda a febre de gente politicamente correta. Para homem, é muito difícil.

A fórmula é simples. Se você quer medir o grau de amizade entre um homem e outro, calcule em vinte minutos quantas vezes eles vão se chamar de “frango safado”, “viadinho”, “fresco”, “boiola”, “queima-rosca” e outros elogios menos polidos. Quanto mais elogios desse calão você ouvir, maior o nível de amizade entre as duas figuras. E menor o grau de frescura desnecessária. E de bichisse.

Entretanto, na rua – e em muitos bares, sobretudo os da moda – a gente não pode mais chamar o amigo de infância de boiola. Não é politicamente correto, pois ali perto pode ter um boiola de verdade – melhor dizendo, uma pessoa de aptidão sexual diferente da sua.

Essa pessoa, cujo caneco não é só output, mas também input, não vai nem se importar com você, porque sabe diferenciar brincadeira de coisa séria. Mas, tenha certeza que do lado sempre tem um politicamente correto que vai fazer cara feia. Então, você vai virar um preconceituoso. Um retrógrado. E o politicamente correto volta para casa feliz da vida, achando que fez um bem para a humanidade.

Com a liberalização dos sexos nos últimos anos, muita gente parece esquecer que o fenômeno caminhou em mão dupla. Ao mesmo tempo em que os homossexuais passaram a ter uma maior segurança em sair do armário, imagina-se que sejam desenrolados o suficiente para diferenciar com naturalidade uma piada de um falso moralista.

Só os politicamente corretos não aprendem. Sempre precisam tucanar tudo. Em linhas gerais, sempre me pergunto se eles não fazem isso como mecanismo de defesa para esconder a própria vontade de sair do armário (homem) ou para reprimir frustrações emotivas (mulher).

Dizem que toda generalização é burra, mas já que “burro” parece não ter sido tucanado ainda, a gente pode continuar generalizando.

Convenhamos: se a gente não pode mais contar piada de negros, gays, mulheres, judeus, padres tarados, loiras burras, cegos, cotós, argentinos e portugueses, então a gente vai contar piada de quê? Não sobra mais nada. Só aquela piada dos dois tomates.

Das duas, uma: ou estamos ficando excessivamente tucano-americanizados ou então precisamos, urgentemente, inventar piadas bem pesadas (e politicamente incorretas) sobre os politicamente corretos de plantão.

Velhas piadas de velho

A beleza cansada

A mulher infeliz

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