Os números revelam: não acredite em números

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
junho 2004

A briga de dondocas entre indústria fonográfica, usuários e artistas continua de vento em popa. A indústria continua cega, os usuários permanecem céticos e a classe dos artistas segue desunida, como sempre.

Uma nova pesquisa da Pew Internet & American Life, espalhada aos brados na imprensa, revela que o número de downloads de música nos Estados Unidos aumentou 27% entre novembro de 2003 e março de 2004. Em números, significa acréscimo de 18 milhões para 23 milhões de downloads. Até aí, tudo bem. O problema é que entrevistaram pouco mais de mil usuários de programas P2P, como Kazaa e LimeWire, além de lojas virtuais, como a iTunes Music Store da Apple, e Rhapsody, RealNetworks.

Os pesquisadores descobriram que 14% dos usuários desistiram de baixar músicas pela internet e passaram a comprar online. Como motivo da desistência, um terço deste grupo alega o medo das ações judiciais da Associação das Gravadoras Norte-Americanas (RIAA). O grupo que correu é formado, em sua maioria, por homens entre 18 e 29 anos cujo acesso à internet é feito em banda larga, ou seja, conexões mais rápidas.

Notícia ruim para o Kazaa. A mesma pesquisa aponta redução de cinco milhões de usuários do programa, enquanto nota aumento de adesões em programas concorrentes, também P2P, de porte menor. Pelas apurações dos pesquisadores da Pew, os usuários mais jovens que fazem download de músicas começam a demonstrar preocupações com direitos autorais. O número de downloads ilegais já estaria menor do que o verificado no primeiro semestre de 2003. Este ano, 38% afirmaram baixar as músicas via P2P, enquanto no ano passado, o porcentual era de 50%.

Agora, vamos a uma análise da coluna.

ESTATÍSTICAS – Primeiro. A pesquisa é um poço de contrasensos. Usaram o gancho de que o número de downloads aumentou, mas não especificaram logo que se tratam de downloads legalizados, ou seja, o usuário compra a música online e baixa o arquivo. Só depois é que a Pew “revela” o decréscimo dos downloads ilegais.

Segundo. Mil (ou até dois mil) usuários e nada é a mesma coisa. Somente para termos uma idéia, existem dúzias de mapeamentos apontando altas diferenças entre quantidade de usuários em P2P a depender da região ou Estado. Logo, se você vai fazer uma pesquisa, basta querer mostrar um tipo de resultado e pronto. É aquele velho axioma das estatísticas: elas não mentem, apenas mostram a verdade que você quer enxergar.

Terceiro. É óbvio e ululante que muita gente está morrendo de medo da RIAA. A Associação vem praticando um verdadeiro terrorismo psicológico nos Estados Unidos e, como já vimos nas duas colunas anteriores, conseguindo apoio em outros países, principalmente no Canadá. Quem lê esta coluna há mais tempo também sabe que, no Brasil, a posição da Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos (APDIF) não é diferente. Não se trata de dizer o quê é certo ou errado, apenas de apontar e debater abordagens, eventualmente, equivocadas. E ingênuas.

Quarto. O fato de o Kazaa ter menos usuários não revela absolutamente nada de novo. Há mais de um ano, a própria Sharman Networks, proprietária do programa, vem notando um significado decréscimo de usuários. O programa tornou-se pesado, com propagandas, spyware além da conta e, pior ainda, surgiram excelentes alternativas ao Kazaa com sistemas de busca bem mais rápidos e eficientes.

Quem for um pouco mais antenado já deve ter notado, há mais tempo, que a Sharman Networks tem diminuído os investimentos técnicos no Kazaa. Em contrapartida, a Sharman vem procurado tornar-se uma empresa de provimento de soluções de ponta, como telefonia por IP (VoIP) e outras tecnologias de ponta. Não se espante se, em breve, o Kazaa morrer por decreto da própria empresa que o desenvolveu.

Quinto. A maioria dos downloads ilegais, há bastante tempo, não são mais realizados por programas como LimeWire, Kazaa e outros que estão disponíveis na praça. Ao contrário, são feitos por redes anônimas, isoladas, cuja dificuldade de se conseguir números concretos ainda é suficiente para deixar esses redes fora da maioria das pesquisas e estatísticas divulgadas para a imprensa.

MAIS PROCESSOS – Durante o último mês, a RIAA processou mais 477 pessoas por infração de direitos autorais online. Oficialmente, a iniciativa é parte de esforço para acabar com a pirataria musical gerada pelos serviços de trocas de arquivos. Desde janeiro, foram mais de 2 mil usuários convidados a fazer uma visita ao Tribunal.

A RIAA identificou os suspeitos pelos seus endereços na internet, visto que em dezembro uma corte de apelações decidiu à favor da operadora Verizon Communications, decretando que os provedores de acesso não são obrigados a revelar os nomes de seus usuários – caso já abordado aqui na coluna. A investida da RIAA é tentar descobrir nomes e endereços dos acusados por meio de intimações judiciais individuais. E quem diz isso é a própria associação.

A ação foi contra pessoas que utilizam provedores comerciais, além de 69 usuários de redes P2P em 14 universidades, entre elas as de Brown, Emory e Princeton. Em março, foram 89 processados que usavam redes de universidades. Desde setembro a associação do ano passado, o total é de 2.454 processos na Justiça. Apenas 437 conseguiram acordos extrajudiciais em 437 deles, em média para pagar 3 mil dólares por cabeça.

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