Como escrever uma crônica – II

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Paulo Rebêlo // abril.2004

Coça a barba e medita. É incrível como todo mundo quer se dar bem no sábado à noite. Ou o povo vai para lugar de azaração, onde as pessoas escolhem a dedo quem vão “pegar”, ou para um lugar cheio de casal. Também é ruim para beber sozinho. Mas… antes isso do que ficar assistindo Zorra Total. Toma banho, coloca um chinelo, bota a calça e pega o último Halls preto. Vai na barraca da esquina: jogar sinuca, escutar Reginaldo Rossi, tomar caju-amigo e comer miúdo de galinha. Faz anotações no caderninho, de novo, sabendo que amanhã não vai lembrar das palavras-chaves.


Duas da matina. Você pensa em ligar ou passar uma mensagem para o celular da fofinha. Não, você não quer atrapalhar a furunfada alheia. Concentra-se nas palavras-chave. O álcool não deixa. Nem sinal dela. Quer dizer, sinal de que certamente alguém a está fazendo uma excelente companhia. Perereca, isso já dá uma crônica. Hora de voltar, inspirou-se.

Volta para casa. Consegue abrir o Word antes de dormir- para lembrar de escrever quando acordar, porque agora o sono não deixa.

:: DOMINGÃO DO RANZINZÃO ::

Ressaca, dor de cabeça e gastrite a mil por hora. Você olha para o barrigão e faz de conta que está espantado em perceber como seus músculos abdominais esponjados estão crescidos. Olha de novo. Não consegue ver os dedos do pé e lembra das recomendações médicas: em pleno domingo de sol, uma caminhada na praia e uma salada de frutas fariam bem.

Mas uma cervejinha com cuscuz também.

A verdade é essa. Aos domingos, não há lugar melhor do que mercado público. Para quem é do Recife, fica a dica de alguns preferidos: mercado de Casa Amarela, da Encruzilhada, da Madalena ou da Boa Vista. Ali você encontra o melhor cuscuz com feijão, o melhor miúdo de galinha… enfim, o cardápio mais requintado da cidade a um preço honesto.

Chega lá, 10h da manhã, já está cheio de papudinho tomando aperitivo e comendo aquele bife gostoso ao molho de colorau e cheio de nervo. Delícia. Não entendo como os vira-latas que passam na rua não comem quando a gente joga um pedaço para eles. Bando de luxentos.

Mais uma dica: ao chegar, fique no balcão. De vez em quando, um pedaço de bife ou de peixe cai no chão – o dono da barraca acha que ninguém viu e coloca no prato do cliente mesmo assim. É a sua chance de dizer “eu vi” e conseguir 50% de desconto naquele bife. Quase sempre dá certo.

A tarde está chegando e você não terminou a crônica ainda. Para falar a verdade, nem começou direito. Só que não querem deixar você ir embora do mercado. O dono da barraca até disse que dava desconto em outro bife, mas desta vez sem cair no chão, porque ele vai fechar o quiosque para ficar bebendo com a turma.

Você fica mais um pouco. O dono da barraca vizinha aprochegou-se e começou a tomar um negocinho e a puxar uma boa prosa. Depois chega mais outro. É praticamente uma confraternização familiar. E você fica puto da vida porque esqueceu o caderninho em casa.

O assunto da roda é: Seu Agenor, o dono da barraca 1, está casado com uma menina de 17 anos. “Estou apaixonado”, diz ele. Você olha, sorri e questiona: “mas Agenor, o senhor nessa idade ainda não aprendeu a lidar com essas peças que a vida prega? Essa menina vai ferrar tua cabeça…”.

O dono da barraca 2 gargalha: “Deixa ela ferrar! Quem não quer uma mulé de 17 anos em casa? ô meu deusy, queria eu!”. De fato, contra um argumento desses, não dá para aconselhar nada ao Seu Agenor. Se até esta idade ele ainda não aprendeu a trapacear as emoções, não é agora que vai conseguir.

Os papudinhos perguntam se o Agenor ainda dá no couro, ou seja, se ainda faz gol de placa ou se é apenas goleiro (que usa só as mãos). “Dois gols todo dia! E sem viagra, viu!”, proclama, sabendo que ninguém acreditou. Perguntam se você é casado. Você assume e diz que é. E ainda complementa: “ela é branquinha dos olhos verdes e tem um fogo danado”.

Você pede para Seu Agenor ir buscar sua esposa. Silêncio. Olhares enviesados. Ele volta com sua branquinha de olhos verdes: uma garrafa de 51 e duas bandas de limão.

Nem você consegue se segurar com tamanha falta de noção. Mas alguém da mesa vizinha grita: “Pago uma meiota para esse gordinho aí! Pode descer que tá por minha conta!”

E assim você economizou mais uns trocados. O sol se prepara para ir tomar uns aperitivos também. Já são 16h, melhor voltar para casa. Tem a crônica para escrever. Tem a fofinha que pode ligar ou passar um e-mail. Com tanta confraternização familiar no mercado, você tinha até esquecido do descaso dela

Antes de voltar para casa, melhor seguir a recomendação médica e comer uma salada de frutas. Seu Agenor, desça um caju-amigo e esprema um limão inteiro no copo de 51. E embrulha uma fatia de Montilla Abacaxi para viagem, pois eu vim “dispés” e a estrada é longa.

:: O BUNDA ILUMINADO ::

Final de tarde. Você chegou em casa e nenhum sinal da fofinha. Era melhor ter ficado no mercado. Agora Inês é Marta. A crônica de ontem está lá, inacabada. Som na caixa. Coletânea pessoal de Theolonius Monk, Duke Ellington, Miles Davis, Coltrane, Chet Baker e Charlie Parker.

Coça a barba. Imagina o êxtase que deveria ter sido tomar uma rodada de caju-amigo com esses caras. Meu jisus. Suspira. A boca começa a ficar seca. Fecha o Word. Vai para o terraço, acende um charuto, pega o resto daquele licor na geladeira e qualquer livro inútil para ler. O tempo passa. Acende outro. Capota e dorme no chão com o livro na cara.

Meia-noite. Abre o olho e tenta se localizar. Lá está você, deitado no terraço, suado e descabelado. Olha para o relógio. Suspiro de alegria. Afinal de contas, acabou o final de semana e até que foi bem produtivo, curtiu bastante. Sente-se revigorado, pronto para a segunda-feira que está por vir.

Nada de crônica, é verdade. Melhor ir dormir. Por via das dúvidas, uma última visita ao computador. Você precisa fomentar a fama de ser super ranzinza, então talvez tenha alguma notícia da fofinha, pedindo desculpas e querendo ver você amanhã.

Coça a barba. Faz de conta que não aconteceu, que continua no terraço e não veio até o computador. Sente-se o verdadeiro Bunda, digo, Buda iluminado. Abre o Word, coça a barba e promete que vai mandá-la ir catar coquinho na terra do beleléu.

Por via das dúvidas, como você não confia muito na memória, uma boa idéia é digitar rapidinho sobre o final de semana que passou. E sem querer, dá luz a uma crônica-besteirol em menos de trinta minutos. Conclui: escrever não é tão difícil assim, só precisa de um empurrãozinho

E de um caju-amigo.