Microsoft quer uma faita… ou o bolo inteiro

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
novembro 2004

Há pouco, a Microsoft realizou um lançamento duplo que ainda vai render bons debates. O primeiro é o Windows Media Player 10, agora se tornando praticamente um centro de referência para músicas e conteúdo multimídia online. O novo programa está diretamente relacionado ao segundo lançamento: a loja de música online com a grife Microsoft Network (MSN), batizada de MSN Music.

O caminho seguido pela empresa de Bill Gates é o mesmo de sempre. Pegaram um negócio que deu muito certo, ou seja, rendeu bastante, e agora tentam transformá-lo em produto próprio. No caso, o negócio a ter dado certo reside nos excelentes resultados do iTunes, a loja da Apple para vender música pela internet. Resta saber se, novamente, a Microsoft irá abocanhar o mercado inteiro para si.

É interessante notar que o iTunes dá certo de um ponto de vista bem relativo, conforme pudemos ver em colunas anteriores. Quer dizer, vende bem e faz sucesso, dentro de um quadro muito restrito de pessoas que compram músicas online. Dados de hoje indicam que o mercado de música online ainda é super pequeno. Somente nos Estados Unidos, representa apenas 2% do total de vendas de músicas. Daqui a cinco anos, a expectativa da indústria é de chegar aos 12%.

A Apple lançou o iTunes há mais de um ano, tornando-se rapidamente uma referência não apenas pela inovação – até porque outras tentativas já haviam sido feitas – mas, sobretudo, por proporcionar ao usuário um amplo leque de opções a um preço relativamente honesto, claro, para os padrões americanos.

Não para o nosso. A média de preço praticada pelo serviço do Apple, e agora seguida pela Microsoft, é de US$ 0,99 por faixa. Basta fazer as contas. Em reais, significa uma média de R$ 3,00/faixa. Um álbum comum, digamos, com dez músicas, custaria R$ 30. Então, parece barato anunciar uma música por um dólar, mas indo para a calculadora vê-se que é só um disfarce.

Mesmo nos Estados Unidos, um álbum com dez faixas a dez dólares não é nada diferente do que se encontra nas lojas. Vai contar apenas o fator comodidade. Não é à toa que ambos os serviços possuem preços fixos a dez dólares por álbum, independentemente da quantidade de faixas. Desde que você compre o álbum inteiro. Só que R$ 30 por um álbum aqui no Brasil, complica.

De acordo com a Forrester Research (um instituto de pesquisa), a Apple hoje domina 70% do mercado de música online. O restante fica com Sony, RealNetworks, Napster (agora da Roxio), MusicMatch, o site da rede Wal-Mart e outras iniciativas menores. Até o fechamento desta edição, o acervo do MSN Music contava com 500 mil músicas. A previsão oficial é ultrapassar a marca de um milhão a partir deste mês de outubro, quando o serviço é oficialmente lançado.

É uma briga de cachorro grande. Em setembro, ciente do lançamento da Microsoft, a Realnetworks cortou pela metade o preço das músicas vendidas online: US$ 0,49. Como resultado, conseguiu vender em uma semana mais de um milhão de faixas por download. Em julho, vendia ‘apenas’ 200 mil faixas por semana, em média.

MÃO NA MASSA – Conversamos com René de Paula Jr., analista de negócios da Sony Latin America e um grande entusiasta de novas tecnologias e novidades digitais. A pedidos, ele nos concede um relato de como foi a experiência com o novo serviço da Microsoft, na condição de usuário, comprando dois álbuns:

“Entrei na loja pelo navegador (browser) e fiquei bastante impressionado com a interface: elegante, leve, fácil. Fui logo de cara atrás de jazz e nem me dei ao trabalho de procurar muito, fui direto aos álbuns recomendados. Encontrei dois: um do John Coltrane e outro do Bill Evans. Comprei, sem saber como seria o processo. Na seqüência tive que reativar meu Passport (nem lembrava mais, nunca usei) mas daí para frente foi muito simples: a página do navegador mostrou o progresso do download, que foi rápido. Os álbuns vieram protegidos; pude copiá-los como CD de áudio, mas quando tentei levar os arquivos para ouvir no meu laptop, fui alertado de que deveria autorizar e tal. Autorizei e pronto. Ainda não descobri, porém, como fazer pra ouvir no meu HD Player Rio Karma. A qualidade dos álbuns é excelente, bom mesmo. E a integração com o Windows Media Player 10 também me pareceu boa.”

Sobre a proteção citada por René, as músicas compradas no serviço da Microsoft são protegidas contra violação de direitos autorais, a partir de uma tecnologia já bem conhecida pelos adeptos: a DRM, de Digital Rights Management. As faixas trazem informações com diretrizes para permitir ou não a reprodução e transferência para dispositivos portáteis, como um walkman digital. Caso você compre uma música que tenha, por exemplo, limite de transferência fixada em dez vezes, após esse número o arquivo não funciona mais.

E por falar em dispositivos portáteis, a Microsoft tem a clara vantagem de oferecer um sistema que permite ouvir as faixas em uma série de aparelhos diferentes, enquanto no iTunes o usuário compra e só pode ouvir no iPod, o portátil da Apple que está fazendo o maior sucesso no mundo todo. Pena que ainda seja tão caro no Brasil como, aliás, tudo da Apple.

HIPOCRISIA – A tecnologia por trás do Digital Rights Management é bem poderosa. A Microsoft investe e aprimora o DRM há anos, inclusive tornando-o integrante a outros produtos, como o Office 2003 e o Windows Server 2003, para proporcionar troca e compartilhamento de documentos de forma mais segura, para quem precisa.

No entanto, é válido realçar que as táticas da empresa parecem nunca mudar. Os executivos costumam sempre desconsiderar uma novidade tecnológica para, anos depois, investirem milhões de dólares nela para abocanhar todo o mercado. Tem aquela clássica frase do Bill Gates, na metade dos anos 90, quando ele disse mais ou menos que ‘esse negócio de internet não ia dar muito certo e, por isso, a Microsoft não estava ligando muito no momento’.

No quesito de música online, não foi diferente. Em 2002, uma pesquisa feita por funcionários da Microsoft mostrou que as tentativas da indústria fonográfica de acabar com a troca de música online em redes como o Kazaa nunca dariam certo. Os pesquisadores Peter Biddle, Paul England, Marcus Peinado e Bryan Willman acreditavam (talvez ainda acreditem…) que a propagação constante e as melhorias nas redes P2P iriam resultar em uma situação impossível de reverter, porque não haveria meios técnicos de fechar as redes. Na prática, eles continuam tendo razão até hoje, pois a situação não mudou; mas a posição da Microsoft, sim.

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