Mulheres e Maçãs

Paulo Rebêlo // julho.2004

Uma das maçãs do topo que conheço me enviou algo que fez o alien dentro do meu bucho se debater na própria baba: a definição das mulheres-maçãs. Dizem que foi o Machado de Assis, mas nunca se sabe. Quer dizer, eu não sei.

Diz o suposto autor: “mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas porque têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de conseguir. Assim, as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, eles estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.”


É fácil concordar com a teoria das maçãs, de que os homens é que estão errados. Todo mundo sabe que somos burros e dementes. Entretanto, quando a gente começa a pensar nas maçãs do topo que conhecemos, às vezes umas em que escalamos a árvore e caímos lá de cima, outras que estamos escalando hoje e só caindo, fica difícil encarar a teoria como resposta para a tempestade sentimental que aflige tantas mulheres-maçãs hoje em dia.

Explica-se. Quando um homem se depara com uma mulher-maçã, em geral, o sentimento é de tristeza. Porque mesmo quando não temos condições de sequer ousar escalar a árvore, frente a tão reluzente maçã, no fundo a gente sabe: lá do topo, a maçã perde de aproveitar e usufruir da própria vida, fica vendo o mundo passar, olhando para o chão à espera do alpinista valente – ou do príncipe encantado, se preferir.

Poucas coisas nos deixam tão deprimidos quanto encontrar uma mulher maravilhosa, uma maçã turbinada e sem conservantes, que esteja sempre reclamando sobre a falta de namorados ou sobre relacionamentos sem-pé-nem-cabeça.

É uma questão de escolha da maçã, uma escolha só dela. Cada uma sabe o que faz, imagine-se. Mas isso não nos tira o direito de ficar deprimidos mesmo assim.

Elas podem estar certas em não se deixar levar por qualquer alpinista de árvore, porém, é preciso repensar o escopo de visão dessas maçãs do topo. Quando elas reclamam na nossa frente, a vontade é de cavar um buraco no chão e se enterrar. Pois é como se nós não estivéssemos ali, às vezes até tentando escalar a árvore – apesar do medo de altura. Já deve ter acontecido com os melhores (e piores) alpinistas. Acontece todos os dias.

Quem gosta de observar o comportamento humano pode constatar um fato assustador: a cada dia, aumenta exponencialmente a quantidade de mulheres maravilhosas que não consegue encontrar um pessoa interessante o suficiente para compartilhar bons momentos, com ou sem compromissos.

E quando acham que encontram, comumente ocorre duas coisas: 1) a recíproca não é verdadeira e elas não são valorizadas como deveriam, ou seja, como maçãs do topo; ou 2) em pouco tempo percebem que o alpinista valente não escalou árvore coisa alguma, chegou de pára-quedas.

Com o tempo, as maçãs do topo terminam cansando de esperar. Apodrecem no galho e, de tanto olhar os valentões colhendo apenas as maçãs podres do chão, elas se sacodem e se atiram ao chão, para ver se são colhidas também, às vezes por qualquer um. E depois se arrependem – mas isso elas nunca contam.

Não percebem que, às vezes, os homens com medo de altura são tomados por uma pretensão desconhecida, um coragem inexplicável racionalmente, e arriscam escalar a árvore. Escalam escondidos, com medo, devagar, mas escalam.

Desconfiamos que não colheremos fruto algum, pois, afinal, não nos achamos valentes o bastante para desfrutar as do topo. E caímos várias vezes. Tentamos novamente, caímos de novo. É que além de burros, somos fracos. Inseguros para competir com os valentões que as maçãs do topo tanto esperam.

:: SUCO DE CONCEITOS ::

O maior problema das mulheres-maçãs é que, aparentemente, elas não percebem que o tempo passa, o tempo voa, e se nem a poupança bamerindus ficou numa boa, quanto mais elas? Cedo ou tarde, maçãs também apodrecem, às vezes sem nem cair no chão. Mais cedo do que tarde.

Por isso também é comum a gente chegar ao topo e não encontrar uma maçã. Acontece quando ela só tem (ou teve) olhos para o chão, não ergueu a cabeça. É que olhando de cima para baixo há muita neblina no meio do caminho; e é de lá que saem os alpinistas de árvore menos preparados, aqueles que escalaram a árvore de ki-chute ou de conga.

Dá vontade de fazer ki-suco de maçã quando encontramos maçãs do topo que ficam olhando para baixo e esquecem que estão encobertas por neblina. Os alpinistas de conga tentam reverter os caminhos sinuosos impostos pela natureza e vão subindo, sob o risco – porventura a certeza – de que não chegarão ao topo, de que quebrarão a cara novamente. Mas, sobem.

E quando eles caem e quebram a cara de vez, podem até não voltar a subir aquela árvore, mas não olharão para as maçãs podres no chão. Voltam à floresta em busca de uma outra árvore. Cujas maçãs do topo talvez enxerguem além da neblina.

É que não são apenas maçãs do topo que cansam de esperar. Os alpinistas também cansam de procurar e de serem empurrados árvore abaixo, mesmo os que escalam de conga e ki-chute.

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