Ecos do passado

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
julho 2004

Está para acontecer novamente. Um grupo de grandes lojas americanas de música começa a investir pesado em uma parceria para juntar forças e abrir um serviço de venda de música online, a fim de competir com as atuais poucas iniciativas existentes. O nome da empreitada atende pelo nome de Echo.

Concorrência é sempre bem-vinda e saudável, resta saber se o novo grupo tende a seguir o modelo da PressPlay e MusicNet no passado. Vejamos. Cerca de 80% de toda música vendida pertence a cinco grandes grupos internacionais. Em meados do ano 2000, os cinco se juntaram para lançar dois serviços de venda online de músicas, supostamente concorrentes. Chamavam-se PressPlay e MusicNet. Não deu certo, mas foi por pouco.

Já em 2001, a impressão já era que a indústria fonográfica havia dado uma rasteira em todo mundo para abocanhar e reter, justamente, o que antes demonizava. E continuará demonizando até o momento em que exerça pleno controle. Um caso interessante é o site MP3.COM, que foi vendido por milhões de dólares às grandes gravadoras e, só assim, conseguiu se livrar dos processos judiciais que ameaçavam fechar o site. As gravadoras começaram não apenas a comprar as iniciativas, como também a investir em soluções próprias para vender música por download. O exemplo do Napster é notório, agora que o programa está de volta com o respaldo das gravadoras.

No entanto, ninguém imaginava que, da mesma forma como gravadoras foram beneficiadas pelas leis, estas mesmas leis poderiam ser aplicadas contra elas. Aquela velha história de o feitiço virar contra o feiticeiro. Foi mais ou menos o que houve com as iniciativas PressPlay e MusicNet.

Em 2001, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acabara de anunciar uma investigação antitruste contra a MusicNet e a PressPlay, duas iniciativas que visavam distribuir músicas pagas através de download ou streaming. Ambas as joint-ventures controladas por grandes gravadoras.

O governo americano tentou examinar as prováveis aplicações das leis de direitos autorais e as práticas de licenças que estavam sendo utilizadas na distribuição das músicas. O aglomerado por trás da MusicNet contava com AOL Time Warner, RealNetworks, EMI Groups e Bertelsmann AG, esta uma subsidiária da própria Bertelsmann, dona da BMG, que “comprou” o Napster por milhões de dólares. A plataforma e tecnologia adotadas pela MusicNet tinha a assinatura da RealNetworks, arquiinimiga da Microsoft no âmbito multimídia.

A PressPlay tinha por trás a Sony, a Vivendi Universal e justamente a Microsoft. Usavam formato Windows Media nas músicas, tecnologia Microsoft – que também detinha uma porção acionária e ativa da empresa.

Pois bem, pela lógica, o maior beneficiado da concorrência entre MusicNet e PressPlay seríamos nós, usuários. Afinal, eram dois serviços de empresas supostamente inimigas as quais tentavam abocanhar o maior número de consumidores possível. Foi um ledo engano.

Quando as gravadoras anunciaram as duas iniciativas, elas esqueceram de mencionar, também, que MusicNet e PressPlay antes respondiam pelo nome de “Duet”. Na época em que o Duet foi lançado, a imprensa deu uma ampla cobertura sobre o assunto que, diziam, seria a palavra final no trato de vendas online de músicas, pois as faixas e as vendas partiam da origem: as próprias gravadoras.

A questão levantada pelo governo americano, e até hoje não esclarecida de forma satisfatória, era se MusicNet e PressPlay não eram apenas dois falsos concorrentes, mas caminhando de mãos dadas para tomar conta de todo o mercado. Como dois comerciantes que mantém uma relação amigável de logística e cooperação, não obstante venderem o mesmo tipo de produto e objetivarem o mesmo tipo de receita. Os 80% das músicas vendidas, mencionados lá em cima, faz parte do acervo das cinco grande gravadoras que estavam por trás de MusicNet e Pressplay.

A NOVA JOGADA – No início do ano passado, a idéia de criar um novo grande aglomerado para vender músicas pela internet veio à tona novamente. Ao que parece, apenas agora começam a aparecer os primeiros sinais de concretização da Echo. É um esforço conjunto de juntar marcas bem conhecidos como a Best Buy e a Virgin Megastores para, juntas, lutarem contra o império dos programinhas P2P e convencer o usuário a comprar música legalmente pela internet.

Por enquanto, tudo caminha em passos lentos. Primeiro, porque a indústria não quer repetir o fiasco ocorrido no passado com o Duet. Segundo, porque quase todos os analistas e especialistas do assunto concordam que o mercado de música online ainda é incipiente e imaturo. As músicas vendidas pela Apple com o seu iTunes, considerado até agora um “grande sucesso”, é tido como insignificante em um contexto mais realista. A previsão é de que, um dia, a venda de músicas online ultrapasse a venda em lojas físicas, mas ninguém arrisca dizer que dia é esse.

Pelos dados oficiais, divulgados pela Recording Industry Association of America (RIAA), em 2003 foram enviados uma quantidade de CDs às distribuidoras físicas que equivalem a US$ 11,2 bilhões, enquanto as vendas online conseguiram alcançar a cifra de US$ 245 milhões. É um contraste gritante. Representa apenas 2% do bolo. Em outra analogia, significa também que a compra de CDs durante um período de sete dias, mais ou menos, equivale ao período de um ano inteiro de compras online.

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