As mulheres que nós amamos

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Esta crônica eu dedico a todas as mulheres que não me querem

Paulo Rebêlo // março.2003 *

As mulheres que nós amamos não são, necessariamente, as mulheres que nós estamos apaixonados ou para as quais dizemos “eu te amo”. As mulheres que nós amamos não são as mulheres que nós amamos no sentido literal da palavra, mas sim no sentido lato. Até parece complicado, mas não é.


As mulheres que nós amamos se enquadram naquele seleto grupo de mulheres súperas e maravilhosas que passam pelas nossas vidas — e só eventualmente pela nossa cama. Deixam cicatrizes que não envelhecem. Deixam marcas e lembranças que vão servir de mote, até o fim de nossos dias, nas conversas de bar, no trabalho e com a família.

Uma mulher maravilhosa não precisa ser linda e ter um corpo bonito. Na verdade, algumas mulheres maravilhosas fogem do padrão universal de beleza e nem por isso deixam de ser animalidademente desejadas. É algo intrínseco a elas, consciente ou não. Talvez, herança genética. A diferença é o “jeitinho” delas.

Se você, homem bacana e joiado, parar para pensar um pouco, vai conseguir recriar em sua mente todas as mulheres que nós amamos desde a época do ginásio, quiçá do primário. Sempre havia aquela especial, aquela que se destacava entre as demais mesmo não sendo a mais bonita. Na universidade e no trabalho não foi diferente, sempre há aquelas mais desejadas, idolatradas, cortejadas.

Elas nem são lindas, nem têm o corpo mais torneado. São apenas maravilhosas, simplesmente súperas, do jeito delas. Majestodas, são as mulheres que nós amamos porque são únicas.

Elas fazem você acreditar que Deus realmente existe, mas também fazem você ter certeza que nem Deus as entende. Afinal, o que leva tantas dessas mulheres maravilhosas a muitas vezes se apaixonar por um troglodita ou um orangotango, em vez de um cara bacana e joiado feito você, leitor desta coluna?

As mulheres que nós amamos são indescritíveis. Algumas delas carregam aquele jeitinho de menina sapeca; algumas têm aquela voz rouca que deixa você de cabelos em pé; outras possuem uma voz suave e baixinha, que desafiam todo seu poder de contenção.

Outras têm aquele olhar maroto, meio tímida e meio selvagem; aquele sorriso sedutor, aquele andar diferente, aquela conversa cheia de gestos. Às vezes é o senso de humor, o espírito etílico, a inteligência. Não há como provar cientificamente. Só quem entende o que são essas mulheres maravilhosas é quem conhece, quem estuda ou trabalha junto a elas. Quem percebe essas mulheres, se não a gente?

Às vezes, essas mulheres maravilhosas nem gostam da fruta. Preferem maçã em vez de banana. Não importa. Nem por isso elas deixam de ser súperas e musas. E apenas reforçam nossa fé de que, um dia, iremos conseguir (re)convertê-las e mostrá-las que banana tem  mais potássio que maçã.

Por mais que você tente ignorá-las, por mais que você tente pensar em outra coisa, por mais que você tente esquecê-las ao chegar em casa, não adianta. Elas continuarão lá. Na mesa da frente no bar, na editoria do concorrente, no escritório vizinho. Às vezes, na cadeira exatamente ao seu lado no trabalho.

O único problema é que nem todas essas mulheres maravilhosas sabem quão maravilhosas elas são. Com certa frequência, se deixam encantar por cidadãos broncos, pocotós. Mesmo assim, elas continuam sendo as mulheres que nós amamos… mesmo quando não nos amam.

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* originalmente escrita em 2002, publicada em 2003 no Dia Internacional da Mulher

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