RAC – parte 02

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Observatório, 09.setembro.2003

ARQUIVO DE NOTÍCIAS
Reportagem auxiliada por computador – 2 (*)

Paulo Rebêlo (**)

No capítulo anterior [veja remissão abaixo], vimos a importância de manter um arquivo pessoal de notícias e as eventuais situações em que ele é necessário. Agora, cabe a você escolher o tipo de solução para criar seu arquivo:

a) adotar soluções paliativas, porém funcionais e eficientes;

b) investir tempo (e às vezes dinheiro) em criar algo mais produtivo e sofisticado, usando banco de dados (ex.: Access, Filemaker Pro, SQL…), planilhas eletrônicas (ex.: Excel, OpenCalc…) e gerenciadores financeiros (Money, Quicken, Turbotax).

Para jornalistas e outras profissões menos técnicas no informatiquês, é compreensível que optemos pela primeira opção, sobretudo em detrimento da falta de tempo inerente ao jornalismo. Até porque, há de se convir, quem escolhe a segunda opção talvez nem precise continuar lendo este guia.

Reportagem auxiliada por computador (do inglês Computer Assisted Reporting – CAR), conceitualmente, envolve a segunda opção. É a aplicação de técnicas mais avançadas, como uso de banco de dados e planilhas eletrônicas, nas reportagens. Evidentemente, também inclui a manutenção de um arquivo próprio para consulta offline, utilizando as mesmas ferramentas.

Trabalhar com planilhas e bancos de dados assusta bastante. Só que para o iniciante ou intermediário, nem sempre é necessário. Muitas vezes, não é mesmo.

Um arquivão de acesso rápido pode ser gerenciado apenas com os recursos do próprio Windows. Basta criar pastas com os temas e subpastas com o nome dos jornais, dos meses, de tópicos mais específicos e assim por diante. Por exemplo: uma pasta chamada 2003, com subpastas Economia, Tecnologia, Política, Música, Entretenimento, Esportes.

Dentro das subpastas, fica ao critério de cada um criar outras pastas ou jogar os arquivos espalhados lá dentro.

O ponto crucial é elaborar um sistema mental, que você entenda, baseado em palavras-chave para nomear arquivos e fontes de publicação. Use sempre o mesmo nome para cada jornal, a mesma datação (dia/mês/ano, mês/ano, ano/mês etc) e procure fixar palavras-chave mestras, como: “Ensino Público”, “Taxas de Juros”, “Impostos”, “Entrevistas Políticas”, “Saúde Pública”, “Jornalismo” e quaisquer outras.

Salve no computador as reportagens com nomes grandes, não economize. O importante é descrever ao máximo, em uma única linha, do que se trata aquele arquivo. Uma opção é salvar o arquivo com o nome da manchete, seguido do nome do jornal e da data. Adote siglas para os veículos: JB, Estadão, FSP, JC, GZT.

Assim, fica mais fácil procurar notícias específicas de um determinado jornal quando for preciso. O mesmo vale para datas. Fazer a busca por “set-2003”, dentro do próprio Windows Explorer, irá resultar em todas as notícias publicadas em setembro de 2003 que você arquivou, desde que você tenha adotado o padrão de sempre usar três letras para os meses e quatro dígitos para os anos.

Exemplo prático:

Criamos uma pasta qualquer, batizada de OFF, onde será a raiz de todas nossas subpastas para o arquivão;

dentro de OFF, criamos as subpastas desejadas: Economia, Esportes, Tecnologia, Entrevistas…

Acabamos de ler uma reportagem na Folha de S.Paulo sobre o lucro de 410% do BankBoston, no dia 18 de junho de 2003. Vamos salvá-la para dentro de OFF, dentro da subpasta Economia. O nome do arquivo poderia ser:

“Bancos – BankBoston – Lucro de 410% ano – FSP-18-jun-2003”

Onde:

** “Bancos” é palavra-chave que você pode adotar (ou não) e que pode ser usada para todos os textos referentes a bancos;

** “BankBoston” deixa claro o nome do envolvido direto;

** “Lucro de 410% ano” é a manchete resumida, para ajudar a lembrar do que se trata;

** “FSP” é a sigla para Folha de S.Paulo. Lembre-se de adotar sempre a mesma sigla, para não evitar confusões quando for precisar fazer uma pesquisa em milhares de arquivos;

** “18-jun-2003” é o estilo de datação escolhido para este exemplo, com as três primeiras letras do mês e o ano em quatro dígitos. Também poderia ter sido “18-06-03” ou “18-junho-2003”. A escolha é do freguês.

Se quisermos detalhar ainda mais, podemos nomear o arquivo assim:

“Bancos – BankBoston – Lucro de 410% ano – BC – Henrique Meirelles – FSP-18-jun-2003”

Os adicionais “BC” e “Henrique Meirelles” servem para criar um vínculo de rápido discernimento com o Banco Central e Henrique Meirelles. Usamos como exemplo devido ao fato de que o presidente em exercício do BC foi o comandante do BankBoston antes de assumir o cargo no governo Lula.

Um adendo: ao usar “BC”, você também pode deixar evidente que todos os arquivos dentro da subpasta Economia, que usem a palavra-chave “BC”, são relacionados ao Banco Central. Ótimo para pesquisas futuras quando não se tem banco de dados ou planilhas para filtrar palavras-chave.

Todo dia é isso

A escolha da reportagem sobre o lucro do BankBoston, como exemplo, não foi em vão. No dia 19 de junho de 2003 (um dia depois da matéria-exemplo), a mesma Folha publica: “FMI critica concentração bancária no Brasil”. E no dia 5 de agosto: “Bradesco tem lucro milionário no semestre”.

Voltemos um pouco no tempo. No dia 12 de junho, O Globo publica: “Bancos têm quase o dobro do lucro de empresas”. A matéria informa que os 50 maiores bancos lucraram no ano passado 92% a mais do que as 150 maiores empresas não-financeiras em atividade no país, sejam elas de capital nacional, estatais ou subsidiárias de grupos estrangeiros.

Com todas essas matérias devidamente arquivadas para consulta offline, à distância de um ou dois cliques em qualquer lugar, você já tem uma interessante base de dados para relacionar ou pesquisar em reportagens futuras, se for preciso.

E para quem já tem conhecimentos em reportagem auxiliada por computador, eis aí uma bela oportunidade de colocar em prática o manuseio das planilhas eletrônicas para calcular os lucros com outros indicadores econômicos; e de gerenciar um pequeno banco de dados, com os números oficiais, depoimentos e relações entre indicadores. Delícia.

Na próxima parte do guia, veremos uma noção de formatos para salvar arquivos e dicas de filtragem.

(*) Material da base de dados da Abraji (www.abraji.org.br)

(**) Jornalista no Recife (www.rebelo.org)