Assessorias de Imprensa sem noção

Paulo Rebêlo (*)
Observatório, 04.novembro.2003

É imperdoável a quantidade de assessorias de imprensa sem a menor noção de como usar a internet para melhorar o próprio trabalho. Uma humilde sugestão: ou se aprende o mínimo ou simplesmente não se usa.

Até outro dia, release era um negócio para ajudar na apuração do repórter, para divulgar uma novidade, lançamento, produto. Pois mudaram a função social do release, ao menos na internet. Hoje, muito release é produzido para:

1) Entupir caixa postal;

2) Congestionar servidores;

3) Aumentar o spam;

4) Fomentar inimizades entre repórter e assessor.

Óbvio e ululante que não se trata de todas as assessorias de imprensa, e sim das assessorias sem noção – para usar a gíria do momento.

Entupir caixa postal

Nem todas as redações são ricas e maravilhosas como as assessorias sem noção. Nem todas as redações trabalham com computadores de última geração, com conexões banda larga, com servidores de e-mail ultra-modernos e com caixa postal de e-mail com tamanho ilimitado. Em geral, é justamente o contrário.

Não sei quem foi o “bom” samaritano a dizer às assessorias que repórter quer receber, no e-mail, o release junto com fotos e imagens em altíssima resolução, às vezes com 2 Mb. Não é exagero. São arquivos que variam entre 300 kb a 3 Mb. Às vezes, vários e-mails seguidos com imagens anexadas.

Uma conta de Hotmail tem limitação interna de 2 Mb. O mesmo vale para outros serviços gratuitos, como BOL. Uma conta-padrão de empresa de hospedagem, em geral, fica mais ou menos limitada em 5 Mb. Já vi empresas que, devido ao grande número de contas de e-mail para funcionários, precisa limitar em 1 Mb a 2 Mb por conta. Quer dizer, basta que dois assessores sem noção enviem material com arquivos anexos para entupir tudo.

Após pedidos clementes, algumas assessoria até deixam de enviar. Enquanto outras, por mais que a gente peça, não cancelam.

Congestionar servidores

Numa conexão discada (modem e linha telefônica), cada megabyte leva uma média de seis minutos para chegar ao computador. Isto é, se a conexão estiver boa. Seis minutos, parado olhando para a tela do computador, enquanto a taxa de progresso cresce e, no fim, abre uma foto gigantesca do lançamento da última coleção inverno-verão dos chinelos do seu Zé. Ou a foto em altíssima resolução, digna de papel de parede, do modelo turbinado do Fuscão Preto, modelo ano 2045.

Não vale nem mencionar o detalhe que você, o receptor do e-mail, cobre uma área completamente diferente.

Alguns podem dizer que é o preço que se paga pelo boom da internet. Não é. O preço quem paga são as assessorias sem noção, que começam (?) a se queimar com repórteres e editores. Algumas assessorias sequer se dão o trabalho de renomear o nome do arquivo da foto, deixando claro que nada mais fizeram além de transferir de uma câmera digital para o e-mail das vítimas.

Um repórter que está viajando para fazer matéria em outra cidade pode ficar sem acesso ao e-mail porque, simplesmente, a assessoria sem noção que ficou de mandar uma nota resolveu mandar a nota com uma foto em alta resolução do diretor da empresa. É só um exemplo entre outros tantos.

Por que todos não seguimos o exemplo das boas assessorias? Não é difícil, não tira pedaço, não dói. É só enviar o release, pode até ser em html se acharem mais bonitinho, mas não mandem arquivos anexos. A foto da modelo ficou ótima? Coloca na web e manda o link no texto. Quem quiser olhar é só clicar. São muitas fotos? Cria-se uma galeria no site da assessoria, pronto. Com fotos para visualização na tela e fotos em alta resolução para usar em jornais e revistas. Web serve para isso; e-mail, não.

É assim no mundo todo. Não é a invenção da roda. Todo mundo sabe quão prejudicial é enviar arquivos em anexo, além de ser bastante inseguro. E no âmbito profissional, enviar arquivos gigantes sem solicitação é imperdoável. Todo mundo sabe, menos as assessorias sem noção – que parecem se multiplicar a cada dia que passa.

Recentemente, passei a receber releases de uma nova forma: arquivos do Word (.doc) gigantescos, com 1 Mb, às vezes 2 Mb. Dentro do arquivo, o texto e as fotos em alta resolução. Mais amador do que isso só mesmo computador a manivela.

Aumentar o spam

Quando a gente acha que tudo está perdido, acontece coisa pior. Ainda hoje, tem gente que se diz jornalista e envia release com os endereços de e-mail dos veículos de comunicação plenamente visíveis no campo “CC” (cópia) do programa de e-mail.

Basta um pequeno deslize, um suave “encaminhar” (forward) no programa de e-mail, para que a bola de neve chamada spam aumente ainda mais. Em quase todas as ocasiões, o tamanho (na tela) ocupado pelos endereços de e-mail é pelo menos duas vezes maior do que o tamanho do release inteiro.

Fomentar inimizades entre repórter e assessor

Ninguém tem tempo de ficar respondendo a todas as assessorias sem noção, pedindo, implorando de joelhos, suplicando para fazerem o favor de não enviar mais arquivos em anexos, sobretudo os gigantescos. Nem fazemos questão de receber release de culinária enquanto estamos cobrindo Ciência & Tecnologia, mas receber um pastelão de 1 Mb ou um “retrato” de 700kb não dá.

Tem assessoria que é ocupada demais para responder aos pedidos e não se dá ao trabalho de responder ou de tirar o e-mail do próprio mailing. Enquanto outras prometem não enviar mais – para, na outra semana, chegar o próximo release com o arquivo em anexo.

E conversa vai, conversa vem, o assessor termina ficando enfurecido (com que razão?) e tira o dele da reta. Diz logo que a culpa não é da assessoria, porque ela pega os endereços de mailing para imprensa e envia todos ao mesmo tempo, não pode haver “exceções”. E não pode retirar, também? Enfim, o chato é você.

Então, tá. Ignorar todo e qualquer release dessas assessorias também não precisa de exceções. Sobretudo agora, com esses superprogramas antispam.

(*) Jornalista no Recife

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