Observatório, 23.outubro.2002

O jornal nosso de cada dia

Paulo Rebêlo (*)

Dizem que ler jornal todos os dias é um vício similar ao fumo: quando você consegue parar, fica se achando um tolo porque vê que não é tão difícil assim e que aquele vício, na prática, não lhe acrescentava nada e você pode viver muito bem sem ele. Talvez seja por isso que, em alguns locais do Brasil, o jornal-papel é carinhosamente apelidado de “o mentiroso”. Chegou o mentiroso, cadê o mentiroso, embrulha o peixe com o mentiroso.

No início, você acorda, toma café e sente falta de algo – mas não tem o jornal para ler, então termina se acostumando, mesmo que a duras penas. Pensa em ir até a esquina comprar, mas dá preguiça e você disse a si mesmo que tem força de vontade em resistir.

Depois, chegam as conhecidas crises momentâneas de abstinência, o organismo (no caso, aqui, o intelecto) sente falta. É quando começa a sensação de ser um alienígena – no caso, aqui, um alienado.

Com o passar do tempo, mesmo já habituado à liberdade, as crises às vezes voltam. Você vê uma pessoa lendo o jornal na praça e tenta não cair em tentação, que significa pegar um caderno qualquer e proferir a clássica: “Você já leu esse?”

Acontece que o mal está sempre nos detalhes. No táxi, o motorista indaga se você viu a “última da Regina Duarte”.

– Morreu?

– Não! Falou que o Lula era analfabeto, ou algo parecido.

– Mas ela não é atriz? O que tem a ver com eleição?

– Botaram ela para falar no guia eleitoral e está todo mundo comentando. Você não viu mesmo? Foi há três dias e até hoje não param de comentar nos jornais!

– Ah… não vi. Muito trabalho, sabe?

– Pensei que o senhor estivesse de férias aqui nesse fim de mundo. Trabalha com quê?

– Eu sou jor….alheiro. Bom, acho que desço aqui mesmo, obrigado.

Um alienado total, é assim que você se sente em plenas férias depois de um diálogo do gênero. E fica pensando se foi uma boa idéia a resolução de que, durante as férias, o mínimo que você poderia fazer era se distanciar dos jornais para não continuar com a cabeça tão focada em lides, aspas, personagens etc.

Como o disco rígido mental parece ser mais burro do que o de computador, você aproveita as férias para procurar pautas interessantes nas cidades de interior por onde passa. Mas consegue resistir. Dá uma canja e chega a tirar as teias de aranha da câmera fotográfica, tenta se sentir menos extra-terrestre e, quando perguntam, responde que é repórter-fotográfico. Ou joalheiro…

E na última semana de férias, vê que não tem mais jeito. Chega à conclusão de que é um viciado, drogado, dependente, e que não adianta resistir. A crise é terminal. Já não é mais o intelecto que sente falta, é o organismo.

Não é o lirismo de segurar o papel, sujar as mãos, dobrar as páginas. É o de manter-se informado (apesar do “mentiroso”), de saber os acontecimentos e mazelas da sua cidade, onde estão as exposições de arte, as peripécias políticas, as enchentes, assaltos, o dólar brincando de gangorra. Mesmo que tudo isso não mude em nada a sua vida.

Mas o pior ainda está por vir.

Você pega o mapa e percebe que ainda está a 4.000 km de casa. Conclui que, pegando a estrada naquela mesma hora, ainda irão faltar seis dias (sem pausas para fotos) até chegar em casa, à poltrona confortável de leitura (parcelada em 6 vezes sem juros) e à internet rápida que lhe permite, diariamente, “perder” três a quatro horas da sua manhã para ler os principais jornais do país e das gringolândias, à distância de um clique. Sem contar os semanários e as boas revistas eletrônicas na web.

É um vício. Uma droga. E multiplicando por dez e elevando ao cubo, é o resultado da maioria dos joalheiros, digo, jornalistas, que trabalham em redação. O organismo não sabe mais viver sem. Será que a solução é pedir demissão? Mas aí vai sobrar tempo para ler ainda mais. Mudar de ramo, talvez?

Só se for para comprar uma banca de revistas ou virar gazeteiro.

(*)