Baby boom do apagão

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Paulo Rebêlo // maio.2001

Estou impressionado com a quantidade de pessoas que reclamam sobre o iminente apagão generalizado que pode ocorrer no Brasil. Incrível como o pessimismo reina perante a sociedade quando, ao menos, poderiam pensar em tantas coisas boas para se fazer no escuro. Neste exato momento eu não consigo pensar em tantas, mas quem precisa de
opções quando se tem o melhor argumento: vamos fazer menino?


Imaginem um diálogo, via telefone — espera-se que continue operacional mesmo com o apagão — entre um homem apagado e uma mulher desligada:

— Alô, tudo bom?
— Pôxa, está tudo escuro… não consigo achar as velas.
— Aqui também. Não tem nada para fazer, né?
— Pois é. Estou aqui deitado na cama pensando na vida, e você?
— Eu também estou na cama, pensando. Que coincidência. Vamos pensar juntos?

Sim, você já descobriu sobre o que pretendo falar. Exatamente, me refiro ao babybum brasileiro, o qual será, sem margem à dúvida, o maior babybum já registrado na história planetária. Exagero? Piada? Não, não. Vejamos:

Em 1977, um raio foi responsável pelo corte de energia na cidade de Nova Iorque. Nove meses depois, detectaram um número recorde de nascimentos, talvez o maior registrado naquele país até hoje. Quanto tempo durou o apagão? Ocorreu apenas uma vez, entre 13 e 14 de julho. Quer dizer, poucas horas e apenas uma vez.

Vocês podem argumentar dizendo que, em 1977, os métodos anticoncepcionais não eram tão comuns e acessíveis como hoje. Eu concordo. O cerne da questão, porém, é outro: quem vai sair, às 2h da madrugada, sem iluminação nas ruas, para renovar o estoque de borrachinhas ou de comprimidinhos do “day-after”? E qual é a farmácia que vai se arriscar a entregar em domicílio? Peguei vocês.

Será possível imaginar o que pode acontecer com apagões seguidos, contínuos e que possam durar, de acordo com as análises mais otimistas, até 2002? Santa fertilidade, Batman! Vai ser crionça para todos os lados. Nada mais justo, convenhamos. Nada mais produtivo também, literalmente.

Em 1999, milhares de pessoas (atabacadas) correram aos supermercados para estocar comidas e bebidas, receosas em relação ao bugre do milênio. O bugre não chegou e ficaram todos com cara de pastel. Em 2001, não obstante a minha falta de vocação às clarividências, vejo pessoas correndo às farmácias para estocar preservativos.

Inclusive, ainda não obstante a minha pouca vocação para Mãe Dinah, acredito que daqui a cinco anos o DIEESE divulgará mais uma daquelas pesquisas inócuas com a seguinte revelação: 2001 foi o ano em que houve a maior supervalorização de preservativos, artigos de sex shops e afins.

Conclusão: a sociedade está certa ao indagar sobre uma conspiração por trás do apagão. Erra apenas quando acha que a conspiração é obra do governo ou dos fabricantes de geradores e velas. Pura encheção de lingüiça. A conspiração é muito mais diabólica e maquiavélica…. é obra das fábricas de camisinhas!

Não é à toa que o apagão começa a ser considerado o paraíso das mulheres casadas, o céu das operadoras telefônicas e, evidentemente, o êxtase da Jontex. Nada mais óbvio. Só não vê quem não quer, porque luz ainda há.

Quem quiser ganhar dinheiro, abra uma creche agora mesmo- mas não esqueçam de me chamar para fazer a assessoria de imprensa.

Não sei quanto a vocês, mas não consigo imaginar-me sem geladeira para esfriar minha coca-light, sem congelador para fazer gelo rumo ao bacardi limon, sem televisão para me fazer companhia em minhas noites e madrugadas de “escreveção”, sem música alta para azucrinar o juízo do vizinho, e sem computador para apoquentar vossas sanidades mentais com meu lixo literário.

Sem energia elétrica e, por tabela, sem computador, como é que vou ganhar dinheiro sem poder escrever e sustentar minha despensa de azeitonas, amendoins e bacardi limon? Como é que vou ter condições de comprar milho para meu pombo de estimação? Será que ele me abandonará? Ora raios.

Não sei quanto a vocês, mas como eu não tenho esposa para usufruir do escurão dela, resolvi investir 400 reais para comprar um no-break.

É óbvio e ululante. Quando o apagão vier, quero estar em casa a fim de poder sentir a experiência do apagão, com todas as luzes apagadas. Graças ao meu no-break turbinado, que até agora é o único eletrodoméstico da casa que ainda não foi xingado, terei exatos 55 minutos de computador para poder escrever, no auge da escuridão plena, uma crônica do tipo: “o primeiro apagão a gente nunca esquece”.

E ainda há a possibilidade, remota porém real, de aquela vizinha peituda do sexto andar vir a perguntar-me sobre minhas idéias para usufruir do apagão sem perder a “produtividade”. Vem neném, vem neném, vem…