O $$$ do milênio

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Paulo Rebêlo | agosto.1999

Com exceção dos problemas relacionados ao Windows e aos processos judiciais contra a Microsoft, você tem ouvido falar mais de outra coisa no mundo cibernético do que o bug do milênio? No ano passado, e principalmente agora em 1999, quando estamos a um passo da virada, a preocupação central em todo o planeta é o tal bug do milênio.


Todo o alvoroço acerca do problema se deve, principalmente, à morosidade da indústria tecnológica em acordar para o fato, ainda na década de 90. Genericamente falando, só em meados de 1997 é que o assunto começou a ser abordado com mais seriedade pelas empresas – até aí, nenhuma novidade.

As pessoas ainda estão muito divididas sobre o que pode ou o que não pode ocorrer na virada de 1999 para 2000, quando muitos programas, bancos de dados e informações importantes podem entrar em parafuso ao tentar substituir os dois últimos dígitos do ano pelo 00, dando a entender que o ano corrente seria o de 1900. Se você está lendo esse artigo, é porque já nasceu aprendendo de que para escrever data em forma resumida o certo é 21/06/9x. Imagine mudar todo um conceito para 21/06/2000 ao invés de 21/06/00?

De um lado, existem os céticos batendo o pé e afirmando que muitas empresas irão à falência, companhias aéreas entrarão em colapso, serviços de telefonia e energia elétrica ficarão paralisados e, acredite, alguns dos mais descrentes propagam a idéia de que é possível o lançamento de alguns mísseis por engano, devido à falta de recursos em alguns países para corrigir o problema.

Por outro lado, os otimistas dão crédito às empresas e instituições que correram para corrigir o problema, ou parte dele, em tempo de fazer exaustivos testes, e acreditam que não deverá ocorrer maiores complicações. Os que eventualmente aconteçam serão durante um curto intervalo de tempo e facilmente resolvidos.

O fato é que, por enquanto, ninguém ainda pode dizer o que irá acontecer ou não em caráter mundial, apesar de ambos os lados estarem corretos. Incidentes como paralisação de energia elétrica ou até mesmo lançamento de mísseis não deixam de ser uma possibilidade, muito remota, mas uma possibilidade. Muitos já estão rezando para o Fundo Monetário Internacional intensificar o plano de ajuda à Rússia o mais rápido possível, afundada em uma crise econômica e sem recursos financeiros para muita coisa.

BUG MESMO É O $$$ – Quem diria, diante de tantos problemas aparentes (e iminentes!) cercando o piolho do milênio, os dólares em jogo parecem se colocar à frente das importâncias primárias. Praxe do capitalismo globalizado, haverá a divisão dos perdedores e vencedores. Quem perde e quem ganha talvez não faça muita importância para o usuário doméstico, mas muitos governos e empresas já estão com um irritante bug atrás da orelha, ou melhor, com uma irritante pulga atrás da orelha.

Da mesma forma que sua empresa pode passar pela prova de fogo da virada sem deixar marcas, ela também pode ir à falência em fração do minuto entre 23h59 e 0h de 1 de janeiro de 2000. Evidentemente, o perigo só se torna real para os alienados que deixaram, ou irão deixar, as correções e testes para última hora. .

Se na virada do ano o computador da empresa der pane, é muito provável que os dados sumam no buraco negro cibernético. E com eles, os clientes. Uma das táticas adotadas mundo afora, e já sendo muito usada no Brasil, é uma espécie de substituição dos dois últimos dígitos entre intervalos de anos. Complicado? Explica-se, tomando como exemplo o ano de 1945. Com todos os programas reprogramados, será apenas considerado o intervalo entre 1945 e 2044. De tal forma, o ano 46 será 1946; o ano 07 será 2007 e não 1907; o ano 21 será 2021 e não 1921, e assim sucessivamente.

Crenças e suposições não param de chegar de todo mundo, mas numa coisa todos concordam: quem mais vai trabalhar no ano 2000 parece ser mesmo a Justiça. Estima-se que a quantidade de processos movidos por usuários e pessoas comuns contra determinada empresa ou companhia, caso a mesma não resolva o problema em tempo e prejudique o cliente, será exorbitante.

Enquanto alguns entram em desespero com medo dos prejuízos que a pulga do milênio pode causar, outros tentam pensar em formas de conseguir fazer dinheiro em cima disso, com produtos, aparelhos, serviços e programas prontos para o ano 2000 ou prontos para o século XXI. Recentemente, houve um boato de que os fabricantes de videocassete começariam a investir pesado em propagandas que incentivassem seus usuários a trocar os aparelhos antigos por um novo, “pronto para o novo século”. Ao menos no Brasil, não se tem visto tal coisa, até porque alguns estraga-prazeres já descobriram que se o aparelho for ajustado para funcionar como se estivesse no ano de 1972, as funções de programação não sofreriam nenhuma espécie de erro, já que os dias de 1972 correspondem aos do ano 2000. Ainda bem que não me incluo no quadro dos estraga-prazeres…

SALVEM A JUSTIÇA – Cético ou não, a questão é mais séria do que parece. Segundo o Los Angeles Times do dia 16 de junho de 1999, na terça-feira daquela mesma semana o Senado Americano aprovou uma medida limitando os processos judiciais motivados pelo carrapato do milênio.

O mencionado projeto restringe um pouco os eventuais processos contra executivos das empresas e impõe um limite nos prejuízos puníveis em tais casos. Quem estiver interessado em mover ação referente ao carrapato, terá que notificar os acusados com 30 dias de antecedência, e estes terão 60 dias para estudar e resolver o problema.

O Presidente Bill Clinton ameaçou vetar o projeto de lei, tendo em vista que a ação parece estar sendo impulsionada por questões políticas, já que o autor foi o Senador John McCain, republicano e inimigo político de Clinton. Por sua vez, o Senador McCain alega que sem tal legislação os tribunais podem ser tomados por processos que, juntos, chegariam a totalizar até 1 trilhão de dólares. O projeto foi sancionado na última semana de julho.

No Brasil, o volume de dinheiro em jogo não é tão grande, mas se o Congresso Brasileiro não começar a pensar em algo semelhante, o Windows do milênio, ou melhor, o bug do milênio pode terminar agilizando ainda mais a nossa já tão rápida Justiça. É esperar para conferir.

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