A arrogância é só uma paixão

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Paulo Rebêlo
NE10/SJCC | 21.março.2016 | link

Ali, de pertinho, ela me parecia tão mais bonita do que eu lembrava.

Obviamente, não era a primeira vez que passava por algo assim. Já estava acostumado e acho que até hoje fico meio sem palavras, talvez um pouco bêbado, quando uma mulher é interessante demais a ponto de a gente não saber o que falar. Ou a ponto de ficarmos a procura de qualquer coisa banal para perguntar, com medo que ela perceba que não somos tão interessantes quanto elas – ou o quanto elas pensam que somos.

O garçom tentou sugerir algum prato que me pareceu caro demais. Ou talvez estranho demais. O comentário seguinte me fez responder: o que me faltam de cabelos, sobram de neurônios.

Levei um milionésimo de segundo para perceber o quanto aquilo pareceu arrogante. Antes mesmo de piscar os olhos, já estava profundamente arrependido de ter tentado parecer engraçado. Dois milionésimos depois, já estava calculando todas as probabilidades de desculpa para me explicar de um jeito sutil que a ideia não era ser arrogante ou coisa que o valha.

Confesso, cheguei a pensar em culpar um imaginário e falecido bisavô, que nunca conheci na vida, dizendo ser uma piada que ele gostava de fazer e que naquele instante percebi não lembrar direito qual era a frase exata. Talvez ela caísse nessa?

Mas, antes mesmo de matar meu bisavô imaginário, ela soltou uma risada tão honesta e um olhar tão lascivo que me transformei em Nostradamus e a visualizei em meus braços duas horas depois dali.

Errei por uma fração de meia hora, pois o trânsito estava ruim.

Esses momentos, difíceis de explicar, parecem uma tacada que acerta todas as bolas na caçapa por um milagre divino, considerando que minha coordenação motora para sinuca (e mulheres) sempre foi meio próxima do zero kelvin.

Enquanto eu tentava achar os botões daquele vestido cor de vinho e me concentrar naqueles cabelos avermelhados e naqueles olhos que brilhavam contra a luz da rua que entrava pela janela, eu não conseguia parar de pensar naquela arrogância com o garçom.

Ainda nem havia conseguido achar todos os botões e já estava morrendo por antecipação. Pensando como seria no dia seguinte. Será que ela gosta de homens arrogantes? Será que eu levei todo esse tempo pensando no que falar, no que perguntar, e tudo que bastava era ser um zé mané?

Será que ela achava a arrogância uma coisa afrodisíaca? Seria eu capaz de disfarçar e ser arrogante nos dias seguintes só para voltar a abraçá-la com toda aquela luxúria?

Horas depois, me vi no terraço com meu cachorro engarrafado imaginando frases arrogantes no meio da madrugada e olhando para aquela escultura de carne deitada no meu sofá velho e quebrado.

A cada arrogância imaginária, ela me parecia um pouquinho menos bonita.

Quando o dia amanheceu, com exceção dos cabelos vermelhos, todo o resto parecia tão normal. Fiquei meses me esquivando da criatura com medo de me transformar num freelancer de arrogância para se dar bem.

Mas a verdade, que sempre se atrasa, também sempre foi outra.

Porque não me faltavam apenas cabelos, também me faltavam os neurônios para entender que onde eu enxergava arrogância, ela enxergava encanto. Deslumbramento. Talvez uma faísca de uma paixão que estava por vir.

Não importava realmente o que eu falasse ou respondesse para o garçom. Já estávamos a tantas horas conversando e andando pela cidade que para ela faltava somente uma oportunidade, qualquer que fosse, para mostrar que eu não precisava ser ninguém que eu não fosse. Pois, naquele momento, ela iria até o fim do mundo comigo do mesmo jeito.

Não importava se eu falasse algo engraçado, imoral ou arrogante.

Ela apenas queria o mesmo que eu. E palavras faladas são inúteis para descrever esses sentimentos fortuitos e inesperados.

É uma pena que a maioria de nós só comece a entender essa nuança tantos anos depois. Com o passar do tempo e a queda dos cabelos, graças a ela, entendi aos poucos o quanto fui arrogante aos muitos. Apenas por timidez ou incapacidade social. Ou por achar que não havia nada de interessante para compartilhar.

Enquanto as pessoas esperam que você diga “bom dia” ou conte como foi seu fim de semana, tudo que me interessa é sentar para trabalhar e ouvir essas histórias depois, preferencialmente numa mesa de bar, à noite. Ou simplesmente não ouvir.

Enquanto tanta gente parece ter tanta história para contar, fico pensando quem vai se interessar se a gente diz que não fizemos nada. Passamos o fim de semana na fossa, e daí? O fim de semana jogando videogame e sem sair de casa, e daí? O fim de semana escrevendo abobrinhas para esquecer da fofinha que se foi, e daí? O fim de semana assistindo filme japonês dos anos 70, e daí, a quem esse tédio interessa?

Se a gente tiver que dar “bom dia” ao entrar na sala, me parece arrogante que todos não sejam cumprimentados. Vamos cumprimentar apenas os mais próximos? Os que sentam ao lado? Não seria isso uma arrogância tremenda com os demais? Eles são menos importantes? Não é mais fácil chegar, sentar e começar a trabalhar? Melhor não cumprimentar ninguém, todos iguais.

Se há uma vantagem nessa cegueira social, é que fica mais fácil a gente entender que somos arrogantes para quem já imagina ou quer imaginar uma arrogância em qualquer ponto.

Quem gosta de você ou lhe conhece, pode lhe achar um ogro engraçado, um bicho-do-mato tímido, talvez uma criatura antissocial ou apenas uma figura estranha mesmo; mas não um arrogante por natureza.

Quem não gosta, não lhe conhece e não faz questão de conhecer, vai achar qualquer coisa de ruim. É humano. Poucas coisas são tão humanas quanto a necessidade latente de rotular o que não se conhece com base em valores próprios ou valores emprestados.

A exemplo do episódio dos neurônios que me sobravam quando, na verdade, me faltavam, ainda hoje é difícil enxergar que muitas vezes a arrogância é movida por uma pequena paixão.

Só que nem sempre é uma paixão nascente. Às vezes é uma paixão moribunda. Uma paixão esvaecendo e quase morrendo.