Segurança também é comunicação e controle de qualidade

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Paulo Rebêlo
JOTA | 20.abril.2015 | link

Na coluna passada, vimos que pouco adianta você se ater às verdades universais que não têm qualquer embasamento técnico ou científico. Uma delas é que seus computadores estariam seguros se ficassem offline, ou seja, sem conexão à rede interna ou à internet.

Outra interpretação equivocada e normalmente desconsiderada por gestores públicos e privados é achar que segurança implica somente em proteção contra hackers, roubo de senhas, vazamento de documentos e outras adversidades técnicas.

Além da falta de uma cultura de segurança corporativa, com critérios técnicos e objetivos, a ausência de controle de qualidade também coloca muita gente em risco.

Risco de ver sua empresa processada, risco de ver a reputação do seu escritório sendo questionada, risco de prejudicar fornecedores e colaboradores.

O caso envolvendo a marca do Humaniza Redes é um exemplo notório e que merece ser analisado.

De acordo com informações públicas disponíveis no Portal da Transparência, o Governo Federal do Brasil pagou 300 mil reais a uma agência chamada Leo Burnett Publicidade Ltda, cujo nome fantasia é Leo Burnett Tailor Made, sendo responsável pela conta da Secretaria de Comunicação (Secom).

Entre as atividades a desenvolver, consta a criação da marca para esse controverso projeto chamado Humaniza Redes – Compartilhe o Respeito.

O resultado é que a agência pegou um logotipo ‘gratuito’ (royalties­free) do Getty Images, assinou, encaminhou e a peça passou por todas as etapas de aprovação até se transformar no logotipo oficial do Humaniza Redes.

Questionados pela sociedade nas redes sociais, os responsáveis pelo Humaniza Redes publicaram uma nota oficial cujo teor ainda é mais amador do que a própria peça em si:

A logomarca do Humaniza Redes – Compartilhe o Respeito foi desenvolvida pela agência Leo Burnett Tailor Made, responsável pela conta da Secom, conforme apontado no Portal da Transparência. O Humaniza Redes esclarece que não há plágio, visto que a imagem é encontrada como royalties free, no banco público Getty Images (conforme o link)

A questão do controle de qualidade – e da segurança – vai muito além. Mesmo que não fosse plágio, mas apenas uma notória demonstração de preguiça, o uso do logotipo em um projeto desta natureza viola os termos de uso da peça original do Getty Images.

Toda a agência é prejudicada e todos os colaboradores do Humaniza Redes também saem perdendo.

Não se apresse tanto em atirar pedras. Porque temos encontrado exatamente a mesma situação em outras áreas. De restaurantes que usam logotipos copiados a escritórios de advocacia que usam imagens e fotografias, em seus sites e peças de divulgação, sem conhecer (ou se interessar) pelos termos de uso ou pela autoria.

Design padrão Hillary Clinton

A falta de segurança ocasionada pela ausência de controle de qualidade não tem nada a ver com recursos financeiros. Tem a ver, sim, com posturas.

Na segunda­-feira (13 de abril), o mundo tomou conhecimento do anúncio oficial da candidatura de Hillary Clinton à Presidência da República dos Estados Unidos. Com o anúncio, veio mais uma peça cuja qualidade não é apenas questionável em termos de design, mas poderia ser o suficiente para afastar todos os envolvidos no processo de aprovação.

Apesar das piadinhas e montagens que pipocam na internet, o questionamento político nos comentários de sites e jornais é levado a sério: se um candidato não consegue escolher seus tomadores de decisões para uma marca, que segurança você teria ao pensar nos tomadores de decisões dentro de ministérios?