O amaciador

by

Paulo Rebêlo
22.jan.2013
Portal NE10
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Quando elas aceitam o fim sem derrubar uma lágrima e vão embora sem olhar para trás, é porque nada mais há para ensinar.

Quando todo o resto der errado, ela vai se lembrar desse dia e pensar que, afinal, pode sobreviver a tudo.

Quando ela conhecer alguém apenas razoavelmente interessante, vai finalmente entender que somente ela é responsável pelo interesse do mundo. E talvez resolva conhecer melhor todas as pessoas que teve medo de conhecer.

Quando ela entrar no carro de alguém, não vai se entediar com a demora. Já passou pela mesma estrada tantas vezes. Aprendeu a dormir e a acordar na curva certa.

Quando viajar acompanhada, não importará mais o destino. Depois de tantas viagens, vai sobrar pouco para se surpreender de verdade. Ansiedade, mala, roupas, compras? Tudo no automático. Precisamente no automático.

Esqueceu a escova de dentes? Ela tem uma reserva. Esqueceu o desodorante? O dela sempre está na mala.

A moça que não sabia fritar um ovo vai querer criticar os livros da Ofélia.

A menina que queria desbravar o mundo vai perceber que é o mundo que ainda precisa desbravá-la.

Quando as amigas estiverem em crise, é o conselho dela que vão procurar. Quando estiverem com raiva dos maridos, não vão entender como ela consegue rir sozinha.

Enquanto os colegas se surpreendem com a destreza alheia, ela vai apenas confirmar a própria certeza.

Os medos e angústias serão, quem diria, os mesmos que sempre foram.

Porque se no final é tudo sempre igual, talvez amanhã ou depois ela nos agradeça em silêncio por tê-la transformado no que ela é hoje: um pedaço de nós.

Eternamente grata e secretamente magoada, talvez ela siga em frente sem saber o quanto também ensinou e transformou.

Por tê-la amaciado para o mundo lá fora, descobrimos o que nos parecia impossível por tanto tempo: sentir o mesmo que elas dizem sentir.