Namorando a vovó

by

Paulo Rebêlo
Terra Magazine
05.outubro.2011

Segunda-feira, a jovem manceba chega ao escritório com o sorriso na testa. Antecipa-se a todos para dizer que “beijou muito” no fim de semana. Foi para todas as baladas, dançou, esfregou, pegou geral.

As colegas aplaudem, comentam, pulam, incentivam.

E se aquelas donzelas preferissem trocar toda a pegação da balada por um final de semana em casa, assistindo Zorra Total na televisão, com um pote de häagen-dazs no colo e um namorado coxinha que segure a mão delas enquanto ri com as piadas super engraçadas do Chico Anysio ao telefone com a Dilma?

E elas acordariam cedo no domingo para brincar de casinha: ir ao mercado fazer a feira da semana, comprar iogurte light, frutas frescas e verduras orgânicas. Para depois ir almoçar com os pais TFP do coxinha, em verdadeira comunhão familiar.

Não é ficção. Ainda não consegui entender como tanta gente, cada vez mais jovem, sonha com uma vida assim já tão cedo.

Mesmo depois de todas as revoluções culturais, sociais e sexuais que tivemos nas últimas décadas. Justamente para que nossos filhos e netos pudessem ter a liberdade que a gente não teve.

Essas moças e rapazes podem fazer tudo que nossas avós nunca puderam. Mas entre desbravar o mundo com as próprias pernas ou arrumar um “namorido”, escolhem o primeiro coxinha que aparece.

É como se o Luciano Huck tivesse se transformado no modelo de marido ideal.

É natural a gente querer um pouco de chão. Nem que seja um chão com colchonete e sem ventilador. Mas quem sonhava com isso aos 20 e poucos anos eram nossas avós. Quando era pecado passível de queimar no fogo dos infernos uma mulher passar dos 30 sem marido.

Nunca tivemos tanta liberdade para fazer tudo. E quanto mais liberdade se tem, mais fico com a impressão que elas estão parecidas com nossas avós.

Nunca botaram os pés para fora de casa, mas já querem uma vida de novela. Com casa própria, armários para roupas e sapatos, TV por assinatura, internet rápida, carro zero, roupas que aparecem na televisão e um sapato para cada ocasião diferente.

Mas se você perguntar onde fica a padaria mais próxima no bairro, não sabem responder.

Não sei se há culpa de novelas ou de seriados enlatados. Sei apenas que o discurso das neo-vovós é assustador. No dia a dia, na vida contada aos amigos, tudo é muito moderno. Baladas, alta gastronomia e sexo toda hora e em todo lugar. Na prática, sonham com a vidinha que a vovó se orgulharia.

Sem nunca pular para o outro lado do cordão de segurança no carnaval de Salvador. Viajar sem planejar, sem destino e sem mapa? Pode acontecer uma tragédia. Elas viram no Fantástico que essas coisas acontecem.

Deve ser muito difícil namorar uma vovó.

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