Sorriso à cabidela

by

Paulo Rebêlo

O sorriso sincero de uma mulher é uma experiência tão sublime quanto sua própria silhueta desnuda à meia luz e com vista para o mar.

Porque o sorriso, quando de verdade, é uma expressão ímpar. Não é apenas a boca. São olhos, sobrancelhas, testa, ombros, todos em uníssona harmonia.

E quando somos nós os responsáveis por arrancar um sorriso assim, é difícil não querer um segundo. É quase tão bom quanto aquela última porção de galinha à cabidela que o garçom escondeu para entregar quando você chega no bar e a cozinha já está fechada.

Mestres do disfarce, talvez por isso elas achem que nós nunca sabemos quando estão rindo de mentirinha. Seja de uma piada sem graça ou de uma cantada sofrível e repetida ad infinitum.

Embora a gente perceba tão pouco o universo feminino, há duas coisas que conseguimos diferenciar a quilômetros de distância: sorrisos sinceros e mentiras sinceras. O resto a gente não entende, não adianta comprar brincos novos ou mudar o penteado.

A gente não precisa ser Roger Rabbit e tampouco elas parecem ter vocação para Jessica. Mas roda o mundo e giro pelo mundo, não consigo parar de questionar: por que os casais de hoje sorriem cada vez menos?

Em viagens nas quais não tenho compromissos formais, fica mais fácil olhar em volta. Talvez porque o intervalo onde deveria estar trabalhando é aquele intervalo onde podemos ganhar as ruas de urbes desconhecidas e abertas a forasteiros intrépidos e eventualmente insones.

Seja em restaurantes chiques de centolla ou bares imundos debaixo da marquise, casais que não sorriem sufocam as pessoas ao redor.

Exemplos são inúmeros, mais recente em viagem pelo deserto patagônico onde, curiosamente, há casais do mundo inteiro em lua-de-mel. Se olham, trocam algumas palavras, comentam sobre o gosto do cordeiro sul-americano. Procuro com os olhos, mesa por mesa, ninguém ri. Ninguém conta sequer uma piada de tomate.

No refeitório da empresa, na praça de alimentação do shopping, na fila do cinema, ninguém parece falar nada suficientemente engraçado para arrancar um sorriso sincero de mulheres tão lindas. Ou os homens se tornaram entes minerais ou as mulheres não encontram mais motivos para rir.

Em ambos os casos, me parece melhor dar um tiro na cabeça. Elas não acham mais graça em nada ou somos nós que não conseguimos fazê-las rir como antigamente?

Porque quando uma besteira engraçada se transforma em uma besteira estúpida na cabeça de uma mulher, não há muito a fazer. Se não conseguimos arrancar um simples sorriso, é melhor fazer a mochila e ir embora. Ou se igualar aos casais patagônicos.

Uma guia de turismo me perguntou se havia gostado de ver um elefante-marinho tão de perto. Com sono e de ressaca, apenas respondi que não, porque foi como me ver no espelho sem Photoshop.
Foi o riso mais sincero que vi no meio daquele mundão de gente. Assim como a piadinha ridícula, igualmente sincera. Elefantes-marinhos me deixam desconfortável diante de tamanha semelhança austral.

Talvez os gurus da auto-ajuda tenham dito às mulheres que é deselegante sorrir em público. Talvez as revistas femininas digam que sorrir para homens desconhecidos é promíscuo. Talvez vossas genitoras digam que sorrir para estranhos é perigoso. Talvez hoje a gente só saiba sorrir para foto no Orkut.

São tantos talvez e tão poucas risadas sinceras.

Estou para desligar o Word e finalmente embarcar após horas de atraso no check-in, chega-me uma miúda de seus cinco anos de idade, mais parece uma hiena tagarela quando me pergunta o que estou fazendo. Penso em responder “N-A-D-A” para fazer a pentelha ir embora, mas lembro dos elefantes-marinhos e apenas digo que estou escrevendo um manifesto sobre a falta de sorriso das pessoas. Terminou causando o mesmo efeito e ela foi embora. Ao longe vejo a suposta mãe olhando com um leve sorriso sincero e me pergunto se ela ouviu.

Uma mulher que não sorri deveria penhorar sua alma para outra. Porque mulheres lindas sem senso de humor não merecem a admiração que causam por onde passam.

No meu fantástico mundo de bobby particular, as mulheres lindas vão se tornar feias a cada sorriso de Orkut. E as mulheres feias serão as mulheres mais lindas para os homens que conseguem arrancar-lhes um sorriso sincero.

E haverá porções infinitas de galinha cabidela à espera de todos. Mesmo depois de fechada a cozinha.

  • Lena

    :)

  • Lola

    Caro escritor e leitores desse espaço,
    É mesmo uma pena que nós mulheres tenhamos sido criadas pra sermos mais contidas. Eu e muitas e muitas mulheres são exceção. Rio e rio muito porque é o meu jeito. Sou muito expansiva, simpática, comunicativa. Certas mulheres “certinhas” não riem mesmo ou dão sorrisos meia boca, sorrisos por obrigação. Outras “certinhas” querem rir, gostam de rir mas dá pra notar elas se controlando pra não rir muito.Isso acontece com elas pque, coitadas, não foram capazes de ter um pouco de rebeldia e deixar o riso vir naturalmente. Simone de Beauvoir estava e ainda está certíssima:”Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Tem um monte de exemplos de mulheres q hoje são lembradas pela sua “rebeldia”, q não chega nem a ser rebeldia. O q essas mulheres, as quais Leila Diniz, Danuza Leão,Zuzu Angel encabeçam a lista, elas disseram pros pais e pra sociedade: “Não. Por que tem que ser assim?” E agiam segundo o coração e a opinião delas mandavam. Hoje em dia “certinhas” vão pra praia de bíquini. Não sabe elas que uma doida, na concepção delas, foi quem abriu o caminho. Não sou feminista.Não queremos ser iguais aos homens, isso é impossível. Biologicamente, psicologicamente, na esfera sentimental e comportamental nunca seremos iguais. Só sonhamos com o dia em que homens e mulheres ganhem salários iguais, compatíveis segundo o trabalho que os dois fazem.
    Tem outra coisa q acho q os homens não conseguem distinguir: quando uma mulher goza de verdade. Eu sei fingir, nem sempre dá. Mas fingir orgasmo não é bom. Ás vezes é melhor e mais confortante falar a verdade.Até pra q o casal possa se conhecer melhor e saber onde o outro gosta de ser tocado, ouvir, enfim… aquela coisa toda q é tão bom. Mas, já fingi e é o seguinte: tem homens q percebem e outros q não percebem.
    Gozemos todos!!!

  • será esse sorriso guardado só quando estiver diante do príncipe encantado?
    mas que príncipe encantado? há como é bom ser um sapo encantado mesmo sem tirar um sorriso delas!!

  • Leila Núbia

    Paulo Rebêlo, que coisa mais linda de se dizer… Tenho gostado mais do que nunca de ler tuas crônicas, porque estão cada vez menos ranzinzas, cada vez mais tocantes, poéticas. Esta vida de viajante internacional tem te feito muito bem! Em parte te invejo!!!! Putz, viajar é bão demais!!! Aproveita por mim, e continua escrevendo lindo assim! Beijos!

  • Mel

    que gracinha!
    não sabia que você escrevia tão bem fora do msn!
    hehe
    eu sempre sorrio, sem muitos pudores, desde criança. e muitas vezes de piadas sem graça, daquelas pior do que as de tomate.
    faço as minhas piadas esdrúxulas tb, mas dessas acho que ninguém ri.
    =D

    keep up the good work o/

  • Andrey

    Paulo,
    Boa crônica,
    concordo com a atual falta de sorriso da mulherada.É ótimo ver sorrir a mulher (amada ou não), saber que o brilho daqueles olhos tem tudo haver conosco,azeitadores.Valeu!

  • Marcia Araújo

    Concordo com o depoimento da Leila Núbia, seus textos estão cada vez menos ranzinzas, cada vez melhores.

    Curiosamente andava pensando sobre o mesmo tema. Tenho sorrido menos ultimamente de baboseira alheia e rido mais de situações esdrúxulas que presencio de relance ou de besteiras que penso ou que falo… e acabo caindo na gargalhada sem me preocupar muito com o mico de estar rindo sozinha no metrô, no meio do saguão do aeroporto ou na fila do banco.

    Acho que com o termpo ficamos mais críticos (ranzinzas talvez)… não dá pra rir sinceramente de situações de desrespeito, por exemplo.

    Ah! Ontem assisti a um filme “A verdade nua e crua” e me lembrei de você… tanta semelhança! E um dos conselhos que o personagem principal dá a uma mulher para conquistar um homem é justamente esse: rir das piadas, mesmo sem graça alguma, que ele fizer.

    Belo texto!