Brigas e ameaças entre o prefeito e o candidato

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TUPANATINGA // Clima esquenta entre as duas famílias que se revezam no poder da cidade

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco // 31.agosto.2008

Tupanatinga – O cérebro do maligno. É assim que o candidato Duca Feitosa (PSB) define o atual prefeito Manoel Roque (PMDB). A militância de Feitosa é acusada, pelo prefeito, de ter orquestrado uma suposta tentativa de assassinato contra ele. Ambos se revezam na chefia do municipal – e na disputa eleitoral – há quase 20 anos neste pequeno município no entroncamento entre Buíque, Itaíba e Ibimirim, a 320 quilômetros do Recife.

Manoel Roque, reeleito em 2004, tenta emplacar seu vice, Manoel Tomé (PT), com o apoio de sete vereadores entre os nove integrantes da Câmara Municipal. Duca Feitosa, eleito em 1996, perdeu as eleições para Roque em 2000 e 2004. A Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe) chegou a enviar um ofício ao Palácio do Campo das Princesas, na última terça, pedindo providências sobre casos de ameaças a políticos no interior. Contundo, o suposto atentado em Tupanatinga tem versões conflitantes.

Duca Feitosa acusa Roque de oportunismo político. O advogado Joaquim Neto, filho de Feitosa, explica ter havido uma confusão entre partidários, que brigaram e puxaram armas. “É ele, o prefeito, que fica fazendo gestos obscenos e pegando nas partes íntimas quando nosso carro-de-som passa”, diz.

Para Feitosa, que se apresenta como evangélico e filho de pastor, o grupo político liderado por Roque opera com “as forças do maligno” porque estão sempre envolvidos em falcatruas e até homicídios. Ele acusa o vice-prefeito e candidato, Manoel Tomé, de ter assassinado dois rapazes em praça pública, anos atrás. Segurando um dossiê com oito páginas, datilografadas e com firma reconhecida, Feitosa reclama que a cidade não tem lei, justiça e fórum. “Aqui vivemos sem Deus e sem autoridade. Desde 1999 recebo ameaças, em Tupanatinga só se ganha eleição comprando voto”, ataca.

Manoel Roque nega as insinuações. Procurado durante três dias, o candidato Manoel Tomé nunca estava disponível, tampouco retornou os recados deixados em sua residência e pelo telefone.

A exemplo de boa parte do interior, os dois candidatos fazem campanha grudados à imagem do governador Eduardo Campos (PSB) e do presidente Lula (PT). O prefeito usa apenas a imagem do presidente e Duca utiliza os dois. Questionado sobre um eventual apoio de Campos, Roque diz que já falou com o governador quatro vezes, recentemente, mas nunca sobre política. “Eduardo não quer confusão, ele vai apoiar quem ganhar a eleição”, ironiza.

Pobreza é a marca do município

Tupanatinga conta com quatro povoados na zona rural (Cabo do Campo, Mata Verde, Boqueirão e Baixa Grande) e seu território se localiza no principal cinturão de pobreza de Pernambuco. Com quase 19 mil habitantes (IBGE 2007), encontra-se entre os 20 menos desenvolvidos do estado, de um total de 185 municípios, segundo o índice Firjan de desenvolvimento e o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

Em novembro de 2006, o prefeito Manoel Ferreira dos Santos (Manoel Roque) foi preso pela Polícia Federal, a partir de uma operação conjunta com a Controladoria Geral da União (CGU), pela chamada Operação Alcaides. Também foram detidos Otaviano Ferreira Martins, prefeito de Manari; Nomeriano Ferreira Martins, prefeito de Águas Belas; o ex-prefeito de Itaíba, Bras José Nemézio Silva; e o deputado estadual Claudiano Martins.

A Operação Alcaides desmontava esquema de corrupção envolvendo prefeituras do interior em ações de desvio de verba. As 21 pessoas envolvidas foram acusadas de formação de quadrilha, uso dedocumentos falsos, crimes de responsabilidade fiscal e outros. Todos os acusados foram liberados dias depois.

Em comum entre os municípios onde os prefeitos ocupavam o cargo, todos tem baixo índice de IDH e altos índices de criminalidade. Os irmãos Martins (Nomeriano, Claudiano e Otaviano) também foram alvos de denúncias e investigações da CPI do Narcotráfico e da Pistolagem, em 2000, quando Itaíba, Tupanatinga e Águas Belas ficaram conhecidas no estado como o “Triângulo da Pistolagem”.