Vestidos e unhas

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Paulo Rebêlo // outubro.2007

Pessoas têm fetiches. Certos fetiches são estranhos, mas pessoas também são estranhas. Há fetiches clássicos, como transar no elevador, no motel de beira de estrada, dentro do carro, em pé na rede da sala, no alto da roda-gigante, no banheiro do avião, em cima de um vagão de trem ou dentro de uma piscina de cerveja.


Engana-se quem pensa que fetiches são apenas carnais. Também podem ser detalhes alheios ao físico, como profissões e padrões de comportamento. Há mulheres com tara em costas masculinas, em bigodes, em gordinhos e, reza a lenda, até mesmo em carecas. As mulheres dizem que mulher tem tara mesmo é em cafajeste, mas isso elas só revelam entre amigas. O problema é que mulher tem fetiche demais. Se a gente deixar – ou incentivar – vai ser um fetiche diferente por dia.

É difícil fazer elas entenderem que conosco é bem mais simples toda essa história de fetiches: basta tirar a roupa. E quanto mais unidades femininas nesta condição, melhor. E se for ao mesmo tempo, é quase o nirvana. Evidentemente que nossa futilidade masculina não acaba por aí, mas, tudo bem, ocasionalmente podemos admitir certos diferenciais que fazem grandes diferenças, partindo da premissa de que ambos ainda estejam de roupa.

Há mulheres teimosas, cientes de que não devem perguntar esse tipo de coisa, mas perguntam do mesmo jeito. De bom humor, num belo dia de chuva do seu passado, você acende um charuto, pega aquele resto de licor Três Marias no freezer e começa a pensar.

Coça aqui, minha frô –
A maioria das mulheres nos acusam de machistas quando dizemos que preferimos cabelos longos. Fazer o quê? Oras, se até a branquinha mais fofa do cinema francês contemporâneo, a Juliette Binoche, que fez sucesso entre o público masculino com aquele cabelo sempre curto, hoje se exibe com lindos e longos cabelos, por que vocês também não podem? Essa praga moderna chamada de ‘cabelo curto’ se instalou na mente das nossas mulheres atuais, como tantas outras pragas modernas já xingadas em “queremos nossas mulheres de volta” — (leia aqui)

Cabelos vermelhos, por exemplo, são tão interessantes quanto. Não vermelho sangue, mas aquele vermelho fogo, um vermelho tipo a Xena da televisão. Saias pretas, de pano ou tecido fino, também concorrem em pé de igualdade. Superficialidades, contudo… Nenhuma dessas escolhas chega aos pés das mulheres de vestidos. Elas são ‘a bala que matou Kennedy’, mas parece que não entendem. Ou não querem entender. Ou então gostam de implicar.

Aquele vestido quase-chique da balada tem o seu valor, tudo bem, mas nada se compara aos vestidinhos surrados, de casa, despojados, longos ou curtos. É fácil de colocar e de tirar. Tirar e colocar. Colocar e tirar. Sem trocadilhos. Ou não.

Vestidos simples deixam as mulheres mais simples. E mulheres simples costumam ser as mais interessantes, sobretudo neste mundo de hoje cujas mulheres parecem cada vez mais complexas e complexadas com tudo e com todos. Até com elas mesmo. Se é verdade o ditado que menos é mais, então uma mulher de vestido é muito mais.

Tem também aqueles vestidos longos com botões, aparentes ou escondidos por baixo do pano. E você desabotoa um por um, pacientemente, num ritual quase tão sagrado e compenetrado quanto o ritual de se preparar para assistir ao futebol dos domingos. Não é pouca coisa, acredite. Mas, quando isso acontece, às vezes são elas que não têm paciência de esperar todo o seu ritual de admiração; e puxam logo o vestido por cima. Bom, o que há de se fazer. Paciência, às cucuias com os botões.

Findo o processo de admiração e subsequente efetivação, talvez a criatura pergunte sobre a sua vida, quiçá os seus fetiches e gostos. Em horas assim, não há nada mais sacrossanto do que unhas em tamanho suficiente para que coçem suas costas ou a sua saliente pança peluda. Assim, como quem coça a um buldogue cansado de guerra. Aquele barulho de roc-roc-roc e aquelas unhas femininas e afiadas. Mulheres sem unhas desperdiçam todo um encanto no pós-desabotoamento o qual nem elas entendem.

E quando você termina de explicar todas essas futilidades para a criatura, achando que ela vai adorar por você estar compartilhando um pouco de seus gostos, ela simplesmente se mantém imóvel, respira fundo, analisa você dos pés à cabeça e dispara:

‘cara, você vem reclamar dos nossos cabelos curtos, mas é praticamente careca, vive roendo suas unhas, provavelmente era fã daquele seriado com a sapatão da Xena, e sei que você adora almoçar naquele lugar cheio de riponga maconheira que usa aqueles vestidos indianos horrorosos. É óbvio que você tem fetiche em cabelos, unhas e vestidos, deve ser trauma de infância. Dá licença que vou embora, tu tens problemas.’

E pela porta ela se vai, puxando a calça jeans e sem precisar pentear o cabelo curto. Ah, tudo era tão mais simples quando nosso único fetiche era uma mulher pelada. Frô, volte aqui, o pulso ainda pulsa e as costas ainda coçam.