Kung Fusão é o escracho chinês

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Paulo Rebêlo
Revista Pipoca Moderna / dezembro.2005

Stephen Chow é um cara de sorte. Em Kung Fusão (Kung Fu Hustle, 2004, China/HK), ele repete o estilo de comédia escrachada que o consagrou na China mas, estranhamente, consegue replicar o sucesso no Ocidente com uma bilheteria monstruosa. Para se ter idéia, o filme dirigido, produzido, escrito e atuado por Chow teve a maior quantidade de salas durante a estréia nos cinemas americanos para uma produção estrangeiro, ficando à frente de obras primas como Herói e Clã das Adagas Voadoras. No Brasil, a recepção também foi calorosa, até mesmo para os críticos tradicionais de cinema – o que é, de fato, surpreendente.

Estamos falando de uma comédia politicamente incorreta, com piadas sobre defeitos físicos, feiúra e trejeitos. No entanto, o carro-chefe é mesmo o estilo peculiar e nonsense de Chow, sua marca registrada, e também o que lhe diferencia das comédias politicamente incorretas de Hollywood. No script, temos um vilarejo na China rural sob ameaça de ser invadido por uma gangue urbana. Com a iminente invasão, os moradores trapalhados acabam se mostrando mestres de kung fu e cheios de segredos do passado. A exemplo de outros filmes de Chow durante a década de 90, Kung Fusão mistura uma ternura simples para todo mundo entender, com pitadas de filosofia marcial nas entrelinhas, a qual só os iniciados talvez consigam pegar.

Boa parte das piadas se perdem na tradução das legendas e na cultura chinesa, principalmente durante algumas paródias de filmes asiáticos. Mas, também há zombaria com Hollywood. Impagável é a cena que simula Matrix e a luta contra milhares de Mr. Smith. O estilo de Chow é considerado deveras nonsense até na China, onde chamam de “Mo Lei Tau”. Quem quiser conferir algumas das obras clássicas de Chow, vale a pena procurar Shaolin Soccer (China/HK, 2001) que ganhou distribuição pela Miramax em 2003. Em 2006, chega a seqüência de Kung Fusão.