Rapsódia da Separação

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Paulo Rebêlo // novembro.2003

Toda separação dói. Só muda a intensidade. Separações planejadas, programadas, surpresas, temporárias, inesperadas. Talvez nenhuma machuque tanto quanto as separações abruptas. É como chegar em casa após um longo dia de trabalho, trocando qualquer coisa por um colo e cafuné, para só então perceber que a outra pessoa arrumou as malas e foi embora sem avisar. É de chorar, é de dar tiro na cabeça.

Não dei tiro na cabeça porque não ia ter dinheiro para pagar o enterro, mas chorei. Chorei quando, após um longo dia de trabalho, encontrei meu bar predileto fechado. Abruptamente, sem o menor aviso. O bar que tinha cadeira cativa neste coração de pingüim.

Sem um bilhete, sem uma carta de despedidas, sem dizer adeus! Sequer uma mísera placa foi colocada na porta, uma desculpa amarela qualquer. Simplesmente, trancaram tudo e foram embora… que nem as pessoas às vezes fazem: sem argumentos plausíveis, apenas com o sentimento de que “não dá mais” ou a desculpa de “vai doer mais no futuro”.

Justamente naquele dia em que acordei, de novo, pensando nela. Aquela minha mesa predileta lá no canto, com uma parte encostada na parede e outra na grade. Na distância exata até a radiola de ficha, previamente calculada de modo a permitir curtir a música e poder conversar calmamente sem reclamar da altura do som. Uma harmonia almejada por muitos, mas conseguida por poucos.

Para quem pensava que só pessoas eram capazes de tais atrocidades, eu estava sobriamente enganado. Perguntei na vizinhança, procurei nas redondezas. Nenhum aviso, ninguém sabia de nada. Não havia motivo aparente para eu ter sido abandonado de forma tão dolorosa por aquela mesa que significava tanto para mim. E o pior, não deixaram nem uma última cerveja. Não tive direito a uma última golada.

E agora? Como será daqui em diante? Nunca vou achar uma parecida. Sei que talvez encontre outra tão boa quanto, talvez até melhor. Conscientemente, sei que nunca será igual. Sempre pensarei nela.

Aquela grade que ninguém gostava, mas eu adorava. O cobogó na altura perfeita para descansar o braço. Parecia feito sob medida para super ranzinzas. Com o perdão do majestoso plágio, mas eram detalhes tão pequenos de nós dois.

O TEMPO PASSA. A GENTE TAMBÉM –

Um a um, meus bares prediletos foram fechando. Talvez seja alguma coincidência holística, alguma energia cósmica entre relacionamentos e mesa de bar. Por exemplo, hoje não tenho mais paciência com boates; mas já tive um dia. E quando olho para trás, vejo que as poucas boates que eu gostava (e que ainda toparia ir hoje), todas fecharam.

Com o passar dos últimos anos, fui vendo meus bares prediletos fecharem ou tomarem outro rumo. No caso, outro rumo pode ser traduzido como: virar um bar pop, um bar da moda, começar a servir cerveja quente e comida pouca. Seria isso uma metáfora de chifre? Não fechou, mas mudou de rumo. Deve ser. Chifre de bar é o ó do borogodó.

Se eu pudesse sempre escolher, iria preferir as separações inesperadas, abruptas. A dor é maior mas, em compensação, ajudam a racionalizar melhor. Quando você não sabe o paradeiro, a tendência é se conformar, chutar a bola para frente. Sempre na dúvida, na angústia, mas… como diria a Amélia de Adoniran: “meu filho, o que há de se fazer?”

É… se. Mas se vaca voasse, chovia leite. Essas coisas a gente não escolhe, apenas acontecem.

Quando a separação ocorre por ter tomado outro rumo, como é o caso de servir cerveja quente ou dizer “não dá mais”, é difícil se conformar. Você vai querer tentar novamente, vai querer buscar motivos, vai tentar racionalizar o que não se racionaliza. O que todo mundo sabe que é irracional.

Vai querer voltar para comprovar que a cerveja está quente mesmo. Afinal, pode ser apenas uma crise, uma fase ruim, uma chuva de verão, um defeito no freezer. E demora para concluir que a bonança nunca chegará. Que os ventos nunca soprarão como outrora e que a freezer nunca vai gelar a cerveja como em tempos passados.

E assim ficamos órfãos e de saco cheio de relacionamentos e de bar – ou de ambos ao mesmo tempo. O primeiro predileto fechou; o segundo, também. O terceiro, mudou de rumo. Até se pensa em parar de se apegar a uma mesa especial, a nutrir certo carinho por um espaço discreto no canto da parede, mas não dá, é o tipo de coisa que não se consegue fazer por muito tempo. O jeito é aceitar que existem outras mesas, outros bares.

E assim o tempo passa, de mesa em mesa, analisando, calculando a distância, questionando peculiaridades. Meu único consolo é a certeza que, onde quer que ela esteja, nenhum outro papudinho irá amá-la tanto quanto eu.

MESAS, PESSOAS E COINCIDÊNCIAS –

No bar, acho que algumas mesas apenas querem alguém para não se sentirem isoladas; outras ficam magoadas porque você não dá atenção especial, escolhe qualquer uma; outras não entendem o por quê de você demorar a voltar a beber ali; algumas questionam se você vai para aquele bar porque gosta daquela mesa específica ou porque faz você se lembrar da mesa que foi embora. Ou porque somos todos humanos e não conseguimos viver sem uma mesa para segurar a cerveja, por necessidade física. Complexo, isso.

De mesa em mesa, você até termina encontrando algumas interessantes. Às vezes, até o fazem recordar daquela de antigamente. Acontece que elas podem já ter um dono ou, pior ainda, podem não sintonizar direito com você.

O tempo passa e termina que um outro estabelecimento abre no lugar onde era o seu bar predileto. Aqui, abriram um restaurante chinês onde era o meu bar predileto. É óbvio que fui até lá. Sou humano. Fui conferir, comparar, analisar, atestar a qualidade.

Foi a pior comida chinesa que já comi. O tempero estava ruim. Pouco molho de soja. Pouca carne, muito arroz. Pedi uma cerveja e não me perguntaram qual delas eu queria, foram logo trazendo qualquer uma. Até estava gelada, mas vou dizer que estava quente para não perder o clima.

A parede, que era sempre suja, estava toda limpinha e pintada… de amarelo! Parecia uma clínica de tarô.

Não tive coragem de chegar perto da grade. A tentação foi grande. Até pensei em pegar uma mesa no mesmo lugar, para descansar o braço no cobogó, mas eu sabia que não seria a mesma coisa. Seria apenas uma substituta forçada – até porque agora a mesa é de madeira, não é mais de plástico. E é cheia de fricote: tem um pano para cobrir e um papel-toalha por cima.

Ainda hoje, quando penso em bar, penso naquela mesa. Era simples, pequena, discreta, sem caprichos, sem futricos e, sempre quando eu chegava, em qualquer horário, ela estava esperando por mim lá no canto.

Ainda nutro esperanças de que o restaurante chinês vai falir e meu bar predileto vai voltar. E enquanto isso não acontece, o jeito é se conformar. Ela se foi. E com ela, acho que foi também uma parte de mim.

Felizmente, o fígado permanece!

  • Daguerre Fernandes

    Cara, seus textos são muito bons! Excepcionais, de fato. Talvez você já tenha nascido com o dom de escrever, talvez a experiência desde 97 tenha ajudado. O fato é que, assim como outros que já comentaram em teus artigos, eu também gosto do jeito como você escreve. Este texto, por exemplo, me vejo nele também. Não por causa do bar, mas já vivi o mesmo contexto em outro assunto. E é bonito.
    Grande abraço!

    • Caro Daguerre, obrigado pelo exagero. Continue aparecendo por aqui. Todo mês tem duas atualizações, pelo menos.

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